Desenha-mo-nos
lentamente
percorrendo flancos
lambendo o desejo
que corre pela pele.
Desejo-te!
Arrepio-te a vontade
de me teres agora
toda.
Deseja-me!
Arrepias-me vontade
de te ter agora
todo.
Bebo-te!
Bebe-me!
Cresce a ânsia
de te desenhar
de me desenhares
com lápis de cera de lua.
As bocas são o palco
onde as línguas vão dançando
ao nosso sabor
sem critério...
Esboçam
o abrir das minhas pernas
o afastar das tuas
e as línguas
percorrem-nos
bailam em nós
ávidas!
Cai amor pelo chão
enquanto nos tocamos.
Néctar!
Pingam gestos
estalactites
na gruta onde nos escondemos.
É de pó
de cumplicidade
esta delícia que bebemos
celebrando as festas
das danças dos corpos
desenhados pelas nossas línguas.
À flor da pele
da minha
semeias arrepios.
À entrada da pele
da tua
deponho este frio
moldado
soprado a quente.
Amaciamos o silêncio
num jogo de luzes
de olhares.
Recolhe-te em mim.
Vem passear-te
sulca o trilho
percorre-me
deixa que eu use e abuse
que de todo me lambuze
te levante cada pedaço de pele
pousando neles
meus olhos nocturnos
te percorra os silêncios
com os meus gemidos
me derrame
me desnude
mas
no instante em que nos despirmos
vamos vestir-nos
Serena a montanha quando acorda
Com ela acordam cheiros
fragrâncias que se espreguiçam
como risos azuis buscando o dia
Despertam árvores
estendendo ramos
Renasço
paulatinamente
no respirar do teu corpo descansado
Deixa que me deite
no leito da tua pele
para que te sussurre:
Espalha o teu sonho
pelo meu avesso.
1 393
Borboleta
Leve o sentir da asa
por dentro...
onde me aconteces.
Antecipo tudo o que vou sentir
cada vez que te penso,
como se fizesse um rol
do que devo guardar,
por me ser tão raro
o horizonte do teu rosto,
o reflexo no meu.
Apetece-me entrar pela janela do teu corpo.
Apetece-me parar em cada um dos teus lugares.
Apetece-me até que te demores
para que me apeteça ainda mais dizer-te
como me apetece tanto
a pressa que tenho de ti.
1 129
Sentados num muro
Interrompo o desfiar do corpo
pelos chãos verdes,
testemunhos que são
de passeios leves.
Neles se estendem agora
folhas brancas,
nuvens,
colocadas ali
com todo o cuidado
por deuses,
nos seus interlúdios merecidos,
prenhes da resposta
à pergunta que um poeta faz,
tão mais absorto está que as divindades.
Deleito-me ante aquelas sombras,
a tua,
a deles...
Olho-as e já as vejo
tornadas corpos cintilantes
pingando do céu
como que esvoaçando pelas noites cerúleas.
[Pareço divagar,
parece que nada do que digo faz sentido,
mas espera...
Apodero-me do que pensas,
procuro responder,
imaginando que são para mim
as perguntas,
todas as que não fazes, que adivinho.
Espera então,
porque já sou eu que me questiono
que descaradamente inverto os papéis.
Deixa-me continuar este devaneio,
retomar o fio
por em ordem o que penso,
o que te quero dizer,
fazer sentir.]
Vão ser lavradas,
sulcadas por pensamentos,
aradas,
as nuvens.
Vão alagar-se de suspiros
que choverão dos teus dedos
entrelaçados ludicamente nos meus...
Tornar-se-ão regadios que nos encherão,
tornando-nos campo exuberante.
Mas mesmo assim,
continuarão brancas,
enquanto,
incólumes,
nascerão de nós dias róseos,
nascerão de nós mais histórias,
onde correremos descalços.
Silenciar-se-ão por fim,
aquietar-se-ão,
aconchegar-se-ão
até adormecerem,
deixando-se apenas deslizar
pela pergunta,
margem de um rio que não cruzamos
com medo de nos afastarmos
do quanto nos queremos.
Se olharmos bem,
estarão dois vultos que se passeiam
na outra margem.
Se olharmos bem,
cruzaram o rio,
o receio ficou ancorado do lado de lá.
Se olharmos bem,
conseguiremos, até, vislumbrar uma cidade,
espécie de lugar onde ficaram as espadas...
E já é um jardim aquela margem,
um canteiro de cravos e de rosas,
e,
mais ao fundo,
um muro de pedra...
[Alonguei-me, perdoa,
mas valeu a pena.]
Se olhares bem,
pousada no muro
está a resposta,
está um lugar onde já estou sentada,
onde também já estás
e um outro lugar bem no nosso meio,
um espaço que espera, ansioso,
pela frase guardada.
Enchamos então o silêncio,
Meu Amor,
porque é nosso, por direito, o momento.
Vamos ver como um canteiro
pleno de cravos e rosas
vai ficar então completo
com o que nos diremos:
Quem somos na nossa memória?
Duas margens que se encontraram
num rio.
Afinal,
foi sempre parte integrante de nós.
1 282
Por de Poema
Aparto-me do corpo
Abandonando a voz num grácil descanso.
Sou o teu silêncio.
Sente,
Devagar,
Como me enleio pela tua imaginação,
Como se de ti, fizesse parte.
Dela,
Não te separarias por nada!
E porque a saberias fina,
Delicada,
Qual folha de papel de arroz,
Apartar-te-ias do corpo,
Abandonando a voz num não menos dócil emudecimento.
E assim,
Incorpóreos,
Existiríamos!
Seríamos de quando em vez
Movimento,
De quando em vez
Tacteio leve...
Era assim que nos víamos,
Quando no céu deste lugar
Nos contámos do que iríamos fazer,
Quando por fim nos encontrássemos!
.............................................
Estamos juntos...
Acendamos a magia deste momento
E sob a luz doce que dela emana,
Vamos emocionar-nos,
Vamos tocar-nos sem nos tocar,
Causando com que a pergunta que nos fizemos,
Se deite,
E adormeça, feliz.
Vamos ser a certeza de nos termos,
Deitando fora a distancia,
Saboreando o prazer de ver a resposta acordar
Espalhando-se por nós,
Tornando-se na nossa pele,
Tal como este por de sol que vem aquecer-nos,
Depondo no parapeito do desejo
A certeza de que o amanhã é agora:
Tão certo,
Tão vivo,
Tão quente,
Tão só nosso.
1 282
Tanto e mais
saber-me-ás
em cada gesto.
todos
todos
a correr para ti
como um rio...
do amor?
não preciso dizer-te...
adivinhas-me!
1 239
Ponta da língua
Desenha-mo-nos
lentamente
percorrendo flancos
lambendo o desejo
que corre pela pele.
Desejo-te!
Arrepio-te a vontade
de me teres agora
toda.
Deseja-me!
Arrepias-me vontade
de te ter agora
todo.
Bebo-te!
Bebe-me!
Cresce a ânsia
de te desenhar
de me desenhares
com lápis de cera de lua.
As bocas são o palco
onde as línguas vão dançando
ao nosso sabor
sem critério...
Esboçam
o abrir das minhas pernas
o afastar das tuas
e as línguas
percorrem-nos
bailam em nós
ávidas!
Cai amor pelo chão
enquanto nos tocamos.
Néctar!
Pingam gestos
estalactites
na gruta onde nos escondemos.
É de pó
de cumplicidade
esta delícia que bebemos
celebrando as festas
das danças dos corpos
desenhados pelas nossas línguas.
À flor da pele
da minha
semeias arrepios.
À entrada da pele
da tua
deponho este frio
moldado
soprado a quente.
Amaciamos o silêncio
num jogo de luzes
de olhares.
Recolhe-te em mim.
Vem passear-te
sulca o trilho
percorre-me
deixa que eu use e abuse
que de todo me lambuze
te levante cada pedaço de pele
pousando neles
meus olhos nocturnos
te percorra os silêncios
com os meus gemidos
me derrame
me desnude
mas
no instante em que nos despirmos
vamos vestir-nos
tu
eu
tanto
de nós!
1 647
Voo
dispo-me para me vestir de ti.
leva-me num simulacro de rapto.
leva-me que volto a ter asas
que te acompanho num voo planado.
sentes a vontade
de arrepiar cada um dos poros do corpo?
deitada na noite
soletro os teus gestos.
finge que dormes
finge
para que invente o tempo capaz de parar.
quando abrires os olhos
serei desejo rubro.
Agora vem
para te degustar o corpo
e reter na boca o sabor dúctil do poema.
1 334
Sonho
Falo-te dum sonho,
Daquele que tantas vezes tenho.
Dispo a ansiedade,
Desapertando,
Botão a botão,
Desejos insaciáveis,
Até ficar despida, um instante...
Aliso o leito,
Aquele mar por ti amado.
Com ele me cubro,
Apagando a luz da realidade,
Deixando apenas acesa,
A lua da imaginação...
Agora, fecho os olhos.
Não há tempo, distância, matéria...
De mim só existe a alma
Coberta por um mar de mil cores
Que não te explico,
Que conheces,
Bem melhor do que eu.
Assim fico,
Escrevendo esta quase imitação de carta
Tão sem tempo!
Tenho frio!
Tardas!
Eis senão quando,
Quase no fim do horizonte,
Onde o teu mar abraça a minha lua,
Vejo uma ave voando,
E que, num bailado único,
Raiado de verde e de azul,
De mim se aproxima,
À minha alma se dirige.
Quase não me mexo...
(e tão ansiosa me sinto!),
Para que de mim se não desvie
O voo daquela ave.
Levanto a ponta do mar,
Preparo um espaço,
Uma praia,
Neste leito onde estou
E peço a Deus
Que o bater do meu coração
A não afugente...
Percebo que és tu!
Ainda assim,
Fico-me neste aparente sossego...
Sobrevoas-me
Sem um bater de asas
Acabando por pousar,
No areal imenso que para ti preparei.
Que mais dizer?
Calar este meu desejo?
Afinal havia tempo!
E é desse tempo que te falo.
Desvendo agora o meu segredo:
Do meu corpo me distanciei,
Para que na minha alma pousasses.
Agora estás em mim!
Sobe pelo meu corpo
E deixa que no teu,
O meu se derrame...
Fiquemos assim,
Tendo como limite
O espelho do nosso encontro:
Um mar, uma lua, uma brisa...
Falei-te dum sonho.
Foi meu,
Talvez teu,
Mas agora é nosso!
Completou-se o triângulo:
Um vértice - Tu!
Outro - o Mar!
O último - Eu!
CM
1998
1 306
Esvoaços
Uma história como a vossa não se repete.
Foi escrita no céu com a tinta de todos os beijos que foram semeando no campo
do vosso encontro.
É a esse mesmo céu que a vou buscar, sempre que desejo ouvir-vos voar.
Se te vir rolar uma lágrima, não ta vou limpar, não a farei parar. Vou ver como ela se vai aninhar nesse vosso começo.Tudo ficará quieto e eu vou poder olhar-vos, sem que mais nada seja preciso dizer, apenas imaginando que, talvez um dia, seja eu capaz, de esvoaçar
assim, no horizonte dum abraço.
Um beijo, Mãe.
Não quero que disfarces,
quando corres a vestir à pressa
um sorriso,
porque te vejo chorar.
Não faças isso, peço-te!
Não vês?
Esse teu choro
é o colar que te envolve
que te torna ainda mais bonita.
É o que ele te diz
do olhar que guardas.
Curioso!
Nem reparas que não estás aqui,
pois não?
Que te deixas levar,
derrogando a falta que sentes
ao tornares-te no gesto,
alagando-te por esse campo de lembrança
com o movimento sereno
em constante crescendo nas palavras só vossas!
Adoro ouvir-te voar!
Quão doce ver como lhe vestes a voz,
deixando que ele te vá despindo,
passeando pelos segredos bonitos
que te vai sussurrando.
Abres as janelas do lar do vosso começo
com tal enlevo,
a casa onde guardas as mais ternas expressões,
os vossos olhares,
que bordas com beijos
todos os que ele te vai depondo,
à entrada do teu olhar!
Por isso te peço:
Não escondas o rosto
mesmo que seja
com pétalas de lágrima.
Deixa que se espalhe a saudade,
aceita dela esse enlaço, vive-o
e chove!
Chove muito, muito,
para que eu apreenda de ti
esse talhe de sedução
e me torne capaz de voar assim,
sentindo que me olham,
comovidos,
tal como estou eu agora
a olhar-te
saboreando o prazer imenso
de esvoaçar no céu
desse tão vosso terno e doce abraço!
Cristina, me deparei com seus poemas e fiquei em estado de extâse, você tem muita sensibilidade e talento. Pretento ler todos os seus poemas e poesias, desgustando-as pouco a pouco. Parabéns