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finalmente dez minutos de paz

o café já esfriou

a música terminou

 

estou sentado

olhando o copo vazio

como se fosse espelho

e nada muda

 

lá fora alguém ri

como se precisasse provar

que ainda tá vivo

 

acendo mais um cigarro imaginário

porque nem dinheiro pra gastar

sobrou

 

dez minutos

e então você percebe

que passou anos

tentando impressionar gente

que nem lembra teu nome

 

uma música ao longe

meio sutil

meio brega

meio real

 

se eu levantar agora

talvez nada mude

talvez o mundo continue exato

como sempre foi

 

luzes fracas

promessas vazias

 

mas tem algo nesses dez minutos

um resto de chama

um quase

tipo quando você pensa:

"ainda tem estrada"

ri

 

dez minutos

o tempo voa

mas agora ele rasteja

como um gato

lento

se espreguiçando

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Poemas

53

SOLITUDE

na beira do lago, debaixo da pereira

a solidão inspira, como sombra doce

o grande vazio, repleto de paz

sonho real, nome indizível

 

a brisa acena, testemunha da presença

em cada mente, um despertar

em cada ser, o ser real

a solitude envolve, um manto suave

beleza que transcende a fala

 

é no silêncio que o espírito se renova

no centro do silêncio, a vida se anima

nada mais importa, só vale o agora

um momento de pausa, convite à paz

na quietude, aprendemos a enxergar

 

o silêncio é amigo, irmão no caminhar

um momento de pausa para ativar

nada a dizer, nada a pedir

apenas sentir o toque macio

da existência que nos chama ao lar

 

Davi Isaque Jardim
 

41

inverno

chegou o inverno

entrou por baixo

da porta

e não mais

saiu

como geladeira

que esqueceram

aberta

tento

esconder-me

cobrir-me

como posso

mas ele é

hóspede impertinente

lá fora

árvores sem folha

erguem-se renitentes

com seus galhos cinzas

longos braços secos

nenhum pássaro

nenhum passante

há uma beleza no inverno

porém

há uma solidão bela

principalmente à

noite

com lua cheia

e café na caneca

há um vazio

um silêncio

uma

espera

sentimo-nos

mais completos

mais atentos

mais nossos

o inverno faz-nos

mais reflexivos

penso

mais românticos

penso na Paris cinza

uma bela moça

com cachecol

vermelho

olhando para o Sena

sim

o inverno

não é lá

ruim

e esta tarde

na paisagem

vazia e plana

vento soprando

despretensiosamente

esperando

enxergar o

mistério

pensei em você

 

Davi Isaque Jardim
 

42

Ônibus do céu

 

Onde está você que ainda não apareceu no ônibus

Do céu

Onde está você que ainda não veio para o ônibus

Do céu?

Esse ônibus que vai para o céu

Leva pessoas legais

Que sabem o que querem

Que sabem o caminho

Esse ônibus que vai para o céu

Leva pessoas que leram o Livro da Vida

Esse ônibus que vai para o céu

Leva pessoas interessantes

O ônibus do céu

Está passando pela cidade

Ele pega garotas e garotos

Legais

Esse ônibus que vai para o céu

Tem festa todo dia

Esse ônibus que vai para o céu

Tem som o dia todo

Esse ônibus está passando por

Sua rua

Esse ônibus toma altas alturas

Esse ônibus que vai para o céu

Viaja sobre as nuvens

Onde está você que ainda não apareceu no ônibus

Do céu, ó doce pirata?

Onde está você que ainda não veio para o ônibus

Do céu, ó viking sorridente?

Esse ônibus colorido vai para o céu

Eu sou o motorista

Esse ônibus que vai para o céu

Está pegando todos que têm a passagem

Esse ônibus que vai para o céu

Nunca pára

Até chegar ao

Sol


Davi Isaque Jardim
 

30

(para uma bem amada)

só eu e você e mais ninguém

só eu e você, somente

 

e um lago limpo, plano e comprido

quieto como pensamento puro

 

e um sol brando num céu azul suave

derramando luz sobre o dia

 

e uma brisa doce soprando dos bosques

trazendo perfume e promessa

 

e uma cabana amiga ali perto

acenando em silêncio ao nosso amor

 

só eu e você e mais ninguém

sob um céu abençoado de fim de tarde

 

num campo verde sem cercas

ou numa praia branca infinda

 

numa serra dourada olhando ao longe

onde o tempo aguarda

 

só eu e você, mais ninguém

e o silêncio entre nós

 

e a brisa, o sol

a cor, o amor

 

Davi Isaque Jardim
 

39

escravos numa mais

em Babilônia fomos escravizados

às margens do rio cantamos nossa canção

nas noites do sul estavamos despertos

esperando sinais no céu

a grande salvação

sobre os campos amarelos plantamos mágoas

debaixo do aguaceiro

do granizo de outono

mas eis que chegou a hora

não há quem possa nos calar

o canto livre eu canto

o canto da vida

canto do dia

canto do verão

foi um longo inverno

foi um inverno cruel irmão

mas ei que chegou a hora

chegou o tempo

de cantar o sonho visível

felicidade real

Davi Isaque Jardim
 

43

Que o vento leve tudo embora

sentado à beira mar

tão branca paisagem

tão branco sentir

esperando o tempo passar

esperando alguma coisa acontecer

com muita coisa em mente

com muito barulho no corpo

venta vento e me tire o que há de ruim

venta vento e limpe tudo que sobra

deixe apenas o doce sentir da vida

deixe apenas a leveza de existir

e que tudo mais vá embora

que tudo mais desapareça

Davi Isaque Jardim
 

41

uivo

 

há um lobo

que uiva sobre a colina

em noite fria

atrás dos pinhais

longe da vila

perto das vinhas

ninguém o vê

nem lobo, nem colina

só ouve

e quem ouve, sabe

há solidão naquele canto

um segredo jogado ao ar

seu uivo é triste

pedido velado

de socorro

canto sombrio

de alma enferma

o lobo solitário

que uiva para a lua

em noite escura

nada mais deseja

senão uivar

pois é só o que tem


Davi Isaque Jardim
 

23

reciclar

valorizar e cuidar
o planeta
ponto pequeno
suspenso no cosmo
nossa única casa

aterros queimando dinheiro
pilhas de pneus
gás sufocando vidas
reciclar, única solução

o verde quase se perdeu
por favor, preserve a qualquer preço
papel, vidro e lata
por favor, devolva à lixeira

a lagoa azul, agora é escura
cheia de sujeira e esgoto
faz pouco você se banhava nela
agora você a perdeu

enchentes inundando o chão
vento forte destruindo cidades
os problemas se acumulam
o futuro parece um desperdício

você tem que pensar
você tem que encontrar
você vai achar
um caminho na tempestade

quando você coloca papel na lixeira
isso pode parecer pouco
mas a natureza
marca mais um ponto

reutilizar, reduzir, reciclar
palavras a decorar
reduza o desperdício, reutilize o velho
reciclar, único caminho que resta

21

Pequeno Joe

O garoto vai entrar com tudo na

Ideia mais idiota que um

Sujeito pode conceber

O garoto vai cair de paraquedas entre os

Caras mais perdidos da

Sociedade

Vão dar um novo nome pra ele

Ele vai se sentir feliz

Vão lhe dar um boné e chamá-lo

De Joe

Vão colocar um cigarro em sua boca e

Uma garrafa de vinho em sua mão

Vão falar que o garoto é um deles

Vão falar que não há grupo mais importante

Que o deles

Vão falar que as coisas antigas já não

Importam

Que importa é o novo

Pequeno Joe

Aprendiz de feiticeiro

Aprendiz de malandro

Em algum canto do

Mundo

Pequeno Joe está sentado numa calçada

Olhando para o nada

Esperando a sorte passar

Pensando que o mundo lhe pertence

Pensando que o futuro lhe pertence

E eu não estou perto para

Lhe dizer

Que há mais coisas entre o céu e a terra

Do que ele pensa,

Do que pensa seu pai


Davi Isaque Jardim
 

22

Tramandaí

se você quiser saber algo sobre o poeta

vá até os campos de Tramandaí

na primeira hora da manhã

sinta o orvalho nos pés

toque o frescor nas folhas

 

e vá além

deixe-se absorver pela lagoa azul

a lagoa misteriosa

na descida da colina

a lagoa que antecipa o insondável Mar

 

se você quiser saber algo sobre o poeta

atravesse a avenida à noite

ouça as gargalhadas dos jovens

que, por um breve instante,

esquecem o calor, a corrida,

um momento que faz valer o dia

 

se você quiser saber algo sobre o poeta

entre no shopping e procure a banca

do magricela-falador

pergunte pelo Cara Que Toca Violão

ele compartilhará risadas sobre tempos passados.

 

se você quiser saber algo sobre o poeta

aventure-se na manhã chuvosa de inverno

sem nada a protegê-lo

senão uma capa amarela de plástico

 

esqueça que é alguém

dilua-se na chuva e no frio doce

e olhe atentamente as nuvens carregadas

nuvens cinzas que entoam hinos

aos seres viventes

 

nesta terra que há tempos recebeu a cruz

mas que resiste com seus espectros indígenas

seu paganismo latente

seu vento natural, tão nu, tão denso

 

e você terá o retrato da sua mente,

mente tranquila, abençoada pela natureza,

mais que pela gente

mente que não pensa em política

nem em religião

não pensa em coisa alguma

 

mente que encontra descanso

para enfrentar uma nova caminhada

para subir outra colina

 

se você quiser saber algo sobre o poeta

vá até a praia da barra,

colha uma flor silvestre

diga um alô às nuvens

e guarde isso como segredo


Davi Isaque Jardim
 

24

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