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Daniel Smuler

Daniel Smuler

Daniel Smuler foi/é um poeta de Porto Alegre, Brasil, onde sempre morou. É autor de dois livros ("Asilo e Anonimato", de 2020, e "De agora em diante musgo", 2025), ambos editados de forma independente. Também é autor de outro livro, ainda não concluído; e até é possível, por que não?, que se torne autor de outros mais.

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Perfil
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Maciço facial ósseo

Alucino. Me transito.

Me transmigro, impossível:

às cegas sorrateiro,

sombriamente ao sol,

tangendo o violão do inútil.

 

O crânio assomando e sumindo,

e de novo assomando (lúdico?)

nas janelas da razão, 

sem qualquer serventia nem dó. 

Alucino, sim. Me transmito

a intratáveis jogos e mitos.

Tosco e perdido, eu grito –

e sou faísca e goma e pó. 

 

Assim só, de litro em litro,

com um pé na masmorra

e o outro no delito. 

Me transfiguro, improvável:

ao céu sem deus,

relampejante sob tetos,

caçando o coelho da contradição.

 

Alucino. Me desfaço 

em hino, em faca,

quietude barata ou estrondo. 

Traço o quadrado redondo. 

O crânio, ainda, piscando

no breu mais longo,

e eu andando e andando.

 

Acordo. Me transmito,

a mim mesmo ou a outro bicho,

não sei, mas impossível: 

batendo nas teclas dum piano invisível.

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Poemas

1

Os mortos comem demais


Não há comida suficiente
porque os mortos comem demais.

Não há manhã suficiente 
porque os pássaros acordam demais.

Não há luz bastante, nem água
nem horizonte bastantes,
porque as crianças sangram demais.

E nós que queríamos as plantas de cal,
a encruzilhada dos ventos,
a romaria do impossível!
Sim, nós que queríamos...

Mas não há vida suficiente
porque os mortos vivem demais. 
 

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