Lista de Poemas

Noturno em dor maior

na noite ca'lad(r)a

um cão ladra

sem resposta

um galo canta

sem o eco doutro galo

um vaga-

lume vaga

sem lume

vaga-

rosa/mente

demente

na noite vaga

uma ave

noctívaga

navega

na vaga

do m'ar sem movimentos

nos cataventos

sem ventos

e de mirantes

sem mira/gens

a morte espreita

nos olhos vidrados

do enforcado.

478

Egocentrismo

espirrei

na réstia de luz

da janela de meu quarto

e fiz surgir um

arco-íris

arco-do-triunfo

sob o qual

napoleonicamente passei

sobre o qual caminhei

em busca do

velocino de ouro

coroado com o

l'ouro

de minha própria

alquimia.

525

Insônia

No silêncio abissal

da noite estagnada

a engrenagem pesada

do tempo se desenrola

e desaba sobre mim.

As botas cadenciadas

das horas marcham

- lentas lesmas -

marcham infinitamente

na noite sem fim...

487

Enigma

entre o som

o sono

o sonho

a sombra e a sobra

eu me decomponho

em escombros

em farpas e agulhas

escarpas e fagulhas

desfeito enfim

em fogos de artifício

feito estrelas de mim

esfinge autoantropofágica que

não se decifrou e que a si

mesma se devorou

516

Autobiografia zodiacal

Sou do signo de

Carneiro

mas meu coração é um

Touro indomável.

No meu sangue

corre a fúria de

Leão.

Entre uma Virgem e duas

Gêmeas

meu coração/bala

Balança.

Sou um Câncer

nos chifres de

Capricórnio.

Sou Peixes libertário

sem o cárcere de um

Aquário.

Sou Sagitário

a

r

m

a

arco e flecha

d

o

d

e

( A flecha é uma cauda de Escorpião.)

481

O Búzio

o búzio

- pequeno castelo

ou gótica catedral -

sobre a mesa avança

envolto em ondas e vendaval

anda ondulante

onda cavalgante

onda ante onda

atraído pelo chamado

do mar avança

chamado que carrega

nas espirais e labirintos

de sua concha côncava

avança e

lança sobre mim

a tessitura exata

de sua arquitetura

abstrata e surreal

avança

unicórnio lendário

protuberante

rinoceronte bizarro

surfista extravagante

em forma de chapéu

lentamente

avança co-movido

pelo chamado das ondas

que em si encerra

em seu ventre vazio

onde o vento em voluteios

é a própria voz do mar

oh, búzio caprichoso

como as curvas e volutas

de um corpo de mulher...

585

Mulher na Lagoa do Portinho

Na tarde antiga

de sol e bruma

de luz e penumbra

as dunas mudaram

de cores e formas.

Os belos olhos esplendentes -

pálidas cálidas opalas ou

esmeradas esmeriladas esmeraldas -

da mulher bonita

de sinuosas dunas e viagens

furta-cores furtaram

outros tons e sobretons.

Ainda guardo a memória viva

daquela tarde morna e morta

e ainda vejo aqueles olhos vivos

furtando furtivos cores e atenção.

E os olhos e as formas curvilíneas

permanecem intactos no tempo

que em mim não passou.

E a mulher, acaso passou,

nos escombros das formas

transitórias da beleza?...

548

Metapoema

As meadas e as palavras

são labirintos e teias.

Nelas os poetas se elevam;

nelas as moscas se enleiam

e se debatem em vão.

Os poetas são.

As moscas, não.

552

Egocentrismo

espirrei

na réstia de luz

da janela de meu quarto

e fiz surgir um

arco-íris

arco-do-triunfo

sob o qual

napoleonicamente passei

sobre o qual caminhei

em busca do

velocino de ouro

coroado com o

l'ouro

de minha própria

alquimia.

564

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

SÍNTESE BIOGRÁFICA DE ELMAR CARVALHO José Elmar de Mélo Carvalho nasceu em Campo Maior – PI, em 09/04/56. Juiz de Direito. Bacharel em Direito e em Administração de Empresas. Presidiu o Diretório Acadêmico “3 de Março”, a União Brasileira de Escritores do Piauí e o Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Foi membro do Conselho Editorial da Universidade Federal do Piauí. Publicou os livros “Rosa dos ventos gerais”, “Lira dos Cinqüentanos”, “Cromos de Campo Maior”, “Noturno de Oeiras e outras evocações”, “Bernardo de Carvalho – o Fundador de Bitorocara”, “Amar Amarante” e “Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental”. Coautor do livro “A poesia parnaibana”. Participou de várias antologias, entre as quais “Baião de todos”, “Antologia dos Poetas Piauienses” e “A poesia piauiense no século XX”, organizadas por Cineas Santos, Wilson Carvalho Gonçalves e Assis Brasil, respectivamente. Citado em diversos livros e dicionários biográficos. Colaborador de vários jornais e revistas. Membro de diversas entidades literárias e culturais, entre as quais a Academia Piauiense de Letras e Academia Campomaiorense de Artes e Letras. Detentor de várias honrarias e distinções culturais. Cidadão honorário de várias cidades. Seu livro “Rosa dos ventos gerais” recebeu o prêmio Ribeiro Couto (poesia reunida), conferido pela União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro.