Lista de Poemas
Noturno em dor maior
na noite ca'lad(r)a
um cão ladra
sem resposta
um galo canta
sem o eco doutro galo
um vaga-
lume vaga
sem lume
vaga-
rosa/mente
demente
na noite vaga
uma ave
noctívaga
navega
na vaga
do m'ar sem movimentos
nos cataventos
sem ventos
e de mirantes
sem mira/gens
a morte espreita
nos olhos vidrados
do enforcado.
Egocentrismo
espirrei
na réstia de luz
da janela de meu quarto
e fiz surgir um
arco-íris
arco-do-triunfo
sob o qual
napoleonicamente passei
sobre o qual caminhei
em busca do
velocino de ouro
coroado com o
l'ouro
de minha própria
alquimia.
Insônia
No silêncio abissal
da noite estagnada
a engrenagem pesada
do tempo se desenrola
e desaba sobre mim.
As botas cadenciadas
das horas marcham
- lentas lesmas -
marcham infinitamente
na noite sem fim...
Enigma
entre o som
o sono
o sonho
a sombra e a sobra
eu me decomponho
em escombros
em farpas e agulhas
escarpas e fagulhas
desfeito enfim
em fogos de artifício
feito estrelas de mim
esfinge autoantropofágica que
não se decifrou e que a si
mesma se devorou
Autobiografia zodiacal
Sou do signo de
Carneiro
mas meu coração é um
Touro indomável.
No meu sangue
corre a fúria de
Leão.
Entre uma Virgem e duas
Gêmeas
meu coração/bala
Balança.
Sou um Câncer
nos chifres de
Capricórnio.
Sou Peixes libertário
sem o cárcere de um
Aquário.
Sou Sagitário
a
r
m
a
arco e flecha
d
o
d
e
( A flecha é uma cauda de Escorpião.)
O Búzio
o búzio
- pequeno castelo
ou gótica catedral -
sobre a mesa avança
envolto em ondas e vendaval
anda ondulante
onda cavalgante
onda ante onda
atraído pelo chamado
do mar avança
chamado que carrega
nas espirais e labirintos
de sua concha côncava
avança e
lança sobre mim
a tessitura exata
de sua arquitetura
abstrata e surreal
avança
unicórnio lendário
protuberante
rinoceronte bizarro
surfista extravagante
em forma de chapéu
lentamente
avança co-movido
pelo chamado das ondas
que em si encerra
em seu ventre vazio
onde o vento em voluteios
é a própria voz do mar
oh, búzio caprichoso
como as curvas e volutas
de um corpo de mulher...
Mulher na Lagoa do Portinho
Na tarde antiga
de sol e bruma
de luz e penumbra
as dunas mudaram
de cores e formas.
Os belos olhos esplendentes -
pálidas cálidas opalas ou
esmeradas esmeriladas esmeraldas -
da mulher bonita
de sinuosas dunas e viagens
furta-cores furtaram
outros tons e sobretons.
Ainda guardo a memória viva
daquela tarde morna e morta
e ainda vejo aqueles olhos vivos
furtando furtivos cores e atenção.
E os olhos e as formas curvilíneas
permanecem intactos no tempo
que em mim não passou.
E a mulher, acaso passou,
nos escombros das formas
transitórias da beleza?...
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