Noite
O dia hoje tem cor de noite
instável inseguro prenuncia
chuva relâmpagos trovões
fica-se assim como criança
limitada na sua liberdade de
infância.
Desagua-se então como
formigueiro no shopping
das fantasias onde não há
dinheiro mas luzes e alegrias.
Pseudo, falsas sim. As verdadeiras
só nos olhos das crianças...
miram ... remiram
brinquedos doces . Lembranças.
quem veste a veste de pai
natal neste e noutros natais
quem ainda, haverá quem
à meia noite espere ansioso
pelo sapatinho.
A noite fez-se dia só criança
sorria.
Emílio Casanova
430
outro tempo
No teu perfume cobri-me de odores de mil e uma noites
Fluí nas ondas étereas da magia de tua cama feita tapete
Percorri florestas incandescentes pelos raios de sol do meio dia
Borboleteei entre pétalas douradas com mil cores
Abri minhas veias aos raios prateados da lua
Cobri-me de mantos e mantos de véus da via látea
Estrelados no deserto da escuridão com vaga lumes
Naveguei por entremares pelo sonho pela ilusão
Voei sem asas nas ondas da tua louca inspiração
Entreguei-me nas tuas mãos trémulas sôfregas de desejo
Gozei sofrido perseguindo um tempo cruel desumano
Fomos felizes no momento de outros tempos.
Emílio Casanova
419
sem título
Sufocas-me com teus sentidos
absorventes
vigilantes desconfiados incrédulos
caminhas no sentido da contramão
interiorizaste nos propósitos a postura
inflexível dono patrão.
Coloca os inversos na tua mente
percorre-te pelo teu consciente
passado o labirinto terás a coragem
assumir os erros passados
passar adiante confiante.
Não te percas no ciúme
na posse
no só para mim.
Terás eternos amores
se acolheres a dádiva do perdão
liberdade dos sentimentos
frontalidade da verdade,
se não enganares teu coração.
Emílio Casanova
478
metade
da minha liberdade...sou uma metade
metade é minha sombra
metade é minha luz
que me completam
por ela arrasto melancolias
que me confundem o fim de tarde
onde morrem os dias
metade verso
outra metade inverso
arrastando a noite
aguardo a metade dia
Emílio Casanova
558
Avião de lata 1950
Brinquedo de lata digno de pequeno príncipe
avião colorido de meninice
asas largas cinzentas de prata
riscas largas amarelas e verde
da cor da mata.
Ele volta e rodopia
com seu trem de rodas grossas
na cauda esbelta a cruz vermelha pintada
na ponta das asas bolas encruzadas.
Trumtremtrumtrimtrum
roda a chave da manivela da corda
zumrzumzumrzumrrrzum
descola meu sonhado monomotor
rodando as hélices mágicas.
Ensaia saltos sobre voltas
que voltas...meu pai
como desesperei para o ter
quantas saudades tenho para o ver...
Emílio Casanova
826
sobressaltos
no horizonte ilha refúgio vem à mente
deliciados instantes de recolhimento
inércia almejada de cansados neurónios
por longa e intensa jornada de meios séculos corridos
construtor de castelos de sonhos frustrados fui
muralhas de fantasia em areias desérticas movediças ergui
templos prazeres orgias rodearam-me em espirais triangulares
olhos ciliares de idolatria ciúme ódio mordomia vi
elevadas pírâmides efêmeras débeis doentes subi
dantescos labirintos em desumanas labaredas atravessei
na procura de puras almas que salvei
décadas sobre décadas caminhando
perfeito Ulisses navegando minha Ilha sem regresso busquei
peregrinando sonhos ideologias a quatro continentes aportei
tudo percorri na procura de mim
agora ilhado em Ilha do sem fim
liberto nas asas das palavras insubmissas da poesia
cálices de sentimentos submersos cristalizados no Tempo
em paz transbordam de mim
Emílio Casanova, in "palavras ninguém compra".
548
Ofício do Verso
Estranho perturbante mesmo, desafiador...
Que me fez pegar num livrinho estreito
de cento e trinta e seis páginas,
relato de uma lição de J.L.Borges sobre esse ofício do verso,
para ocupar meu tempo da barca entre a Ilha da poesia e a Praça XV ?
Saber que temos a mesma idade eu, que agora o leio,
ele que nesse tempo o escreveu.
Como ele eu acredito...poesia é paixão...poesia é prazer...
como eu penso que a minha vida hoje é poesia...
ele escreve a vida é feita de poesia...
E como ele, sei que a poesia salta sobre nós no instante...a qualquer instante.
Que bom Jorge Luís Borges ter-te encontrado numa esquina do tempo
enquanto fazia a travessia lendo tua lição inglesa do verso à poesia...
Coincidência Jorge ? Não !
Já te conhecia.
Emílio Casanova
499
amor amor amor
amor amor amor
de que tu és feito?
brigas zangas amuas
tão imperfeito amor..
esqueces voltas perdoas
tão perfeito...só tu amor
que sabor teria a vida
sem ti...AMOR
Emílio Casanova. in "Coisas do Coração"
547
Navego
Navego...
sem chama navego...
navegar eu preciso...
com chama naufrago...
naufragar não preciso...
com tanto vento e tanto mar...
vou navegar...navegar eu preciso !
Emílio Casanova, in "ninguém compra
488
Copa minha
acordei com o sol brincando com meus cabelos
na cama,
senti seus longos dedos matinais primaveris,
acariciando meus olhos
sonolentamente preguiçosos, bocejei.
Decididamente larguei lençóis e almofadas,
sai para a calçada mais pisada da
adorada Copacabana...
Misturei-me com caríocas apressados
em caminhar, caminhar por caminhar,
muitos sem olhar
para a beleza do mar,
como carreiros humanos de formigas,
rotinados autómatos...
e as belas ondas do mar ali,
tão perto do olhar.
Passei por Drummond eternamente
sentado... por Dorival carregando seu violão,
poeta e músico que se deliciaram
com as curvas das belas e da princezinha do mar...
Levantei meu olhar até ao Pão d'Açúcar
invocando deuses e Iemanjá ,
lamentando a vã ilusão humana ... quando não temos
queremos quando temos não vemos...
Copa bela Copa
beleza como a tua não há...
Emílio Csanova, in "ninguém compra"