Noite O dia hoje tem cor de noite instável inseguro prenuncia chuva relâmpagos trovões fica-se assim como criança limitada na sua liberdade de infância. Desagua-se então como formigueiro no shopping das fantasias onde não há dinheiro mas luzes e alegrias. Pseudo, falsas sim. As verdadeiras só nos olhos das crianças... miram ... remiram brinquedos doces . Lembranças. quem veste a veste de pai natal neste e noutros natais quem ainda, haverá quem à meia noite espere ansioso pelo sapatinho. A noite fez-se dia só criança sorria.
Emílio Casanova
432
outro tempo
No teu perfume cobri-me de odores de mil e uma noites Fluí nas ondas étereas da magia de tua cama feita tapete Percorri florestas incandescentes pelos raios de sol do meio dia Borboleteei entre pétalas douradas com mil cores Abri minhas veias aos raios prateados da lua Cobri-me de mantos e mantos de véus da via látea Estrelados no deserto da escuridão com vaga lumes Naveguei por entremares pelo sonho pela ilusão Voei sem asas nas ondas da tua louca inspiração Entreguei-me nas tuas mãos trémulas sôfregas de desejo Gozei sofrido perseguindo um tempo cruel desumano Fomos felizes no momento de outros tempos.
Emílio Casanova
420
sem título
Sufocas-me com teus sentidos
absorventes
vigilantes desconfiados incrédulos
caminhas no sentido da contramão
interiorizaste nos propósitos a postura
inflexível dono patrão.
Coloca os inversos na tua mente
percorre-te pelo teu consciente
passado o labirinto terás a coragem
assumir os erros passados
passar adiante confiante.
Não te percas no ciúme
na posse
no só para mim.
Terás eternos amores
se acolheres a dádiva do perdão
liberdade dos sentimentos
frontalidade da verdade,
se não enganares teu coração.
Emílio Casanova
480
metade
da minha liberdade...sou uma metade metade é minha sombra metade é minha luz que me completam por ela arrasto melancolias que me confundem o fim de tarde onde morrem os dias metade verso outra metade inverso arrastando a noite aguardo a metade dia
Emílio Casanova
559
Avião de lata 1950
Brinquedo de lata digno de pequeno príncipe avião colorido de meninice asas largas cinzentas de prata riscas largas amarelas e verde da cor da mata.
Ele volta e rodopia com seu trem de rodas grossas na cauda esbelta a cruz vermelha pintada na ponta das asas bolas encruzadas.
Trumtremtrumtrimtrum roda a chave da manivela da corda zumrzumzumrzumrrrzum descola meu sonhado monomotor rodando as hélices mágicas.
Ensaia saltos sobre voltas que voltas...meu pai como desesperei para o ter quantas saudades tenho para o ver...
Emílio Casanova
829
sobressaltos
no horizonte ilha refúgio vem à mente deliciados instantes de recolhimento inércia almejada de cansados neurónios por longa e intensa jornada de meios séculos corridos construtor de castelos de sonhos frustrados fui muralhas de fantasia em areias desérticas movediças ergui templos prazeres orgias rodearam-me em espirais triangulares olhos ciliares de idolatria ciúme ódio mordomia vi elevadas pírâmides efêmeras débeis doentes subi dantescos labirintos em desumanas labaredas atravessei na procura de puras almas que salvei décadas sobre décadas caminhando perfeito Ulisses navegando minha Ilha sem regresso busquei peregrinando sonhos ideologias a quatro continentes aportei tudo percorri na procura de mim agora ilhado em Ilha do sem fim liberto nas asas das palavras insubmissas da poesia cálices de sentimentos submersos cristalizados no Tempo em paz transbordam de mim Emílio Casanova, in "palavras ninguém compra".
550
Ofício do Verso
Estranho perturbante mesmo, desafiador...
Que me fez pegar num livrinho estreito
de cento e trinta e seis páginas,
relato de uma lição de J.L.Borges sobre esse ofício do verso,
para ocupar meu tempo da barca entre a Ilha da poesia e a Praça XV ?
Saber que temos a mesma idade eu, que agora o leio,
ele que nesse tempo o escreveu.
Como ele eu acredito...poesia é paixão...poesia é prazer...
como eu penso que a minha vida hoje é poesia...
ele escreve a vida é feita de poesia...
E como ele, sei que a poesia salta sobre nós no instante...a qualquer instante.
Que bom Jorge Luís Borges ter-te encontrado numa esquina do tempo
enquanto fazia a travessia lendo tua lição inglesa do verso à poesia...
Coincidência Jorge ? Não !
Já te conhecia.
Emílio Casanova
502
amor amor amor
amor amor amor de que tu és feito? brigas zangas amuas tão imperfeito amor.. esqueces voltas perdoas tão perfeito...só tu amor que sabor teria a vida sem ti...AMOR Emílio Casanova. in "Coisas do Coração"
548
Navego
Navego... sem chama navego... navegar eu preciso... com chama naufrago... naufragar não preciso... com tanto vento e tanto mar... vou navegar...navegar eu preciso !
Emílio Casanova, in "ninguém compra
490
Copa minha
acordei com o sol brincando com meus cabelos na cama, senti seus longos dedos matinais primaveris, acariciando meus olhos sonolentamente preguiçosos, bocejei. Decididamente larguei lençóis e almofadas, sai para a calçada mais pisada da adorada Copacabana... Misturei-me com caríocas apressados em caminhar, caminhar por caminhar, muitos sem olhar para a beleza do mar, como carreiros humanos de formigas, rotinados autómatos... e as belas ondas do mar ali, tão perto do olhar. Passei por Drummond eternamente sentado... por Dorival carregando seu violão, poeta e músico que se deliciaram com as curvas das belas e da princezinha do mar... Levantei meu olhar até ao Pão d'Açúcar invocando deuses e Iemanjá , lamentando a vã ilusão humana ... quando não temos queremos quando temos não vemos... Copa bela Copa beleza como a tua não há... Emílio Csanova, in "ninguém compra"