Emílio

Emílio

n. 1944 PT PT

n. 1944-06-25, Loulé

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Liberdade

Liberdade...

Ao me permitires passear no teu mundo

No teu território

Na tua pele

Na tua casa

Abri meu coração.



Adorei cada momento

Cada onda

Cada porta que abriste.



Prometo nunca te invadir

Adoro quem és

Quero a liberdade que há em ti

Para sempre.

(Emílio casanova, "Coisas do Coração" )

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Poemas

43

Copa minha

acordei com o sol brincando com meus cabelos
na cama,
senti seus longos dedos matinais primaveris,
acariciando meus olhos
sonolentamente preguiçosos, bocejei.
Decididamente larguei lençóis e almofadas,
sai para a calçada mais pisada da
adorada Copacabana...
Misturei-me com caríocas apressados
em caminhar, caminhar por caminhar,
muitos sem olhar
para a beleza do mar,
como carreiros humanos de formigas,
rotinados autómatos...
e as belas ondas do mar ali,
tão perto do olhar.
Passei por Drummond eternamente
sentado... por Dorival carregando seu violão,
poeta e músico que se deliciaram
com as curvas das belas e da princezinha do mar...
Levantei meu olhar até ao Pão d'Açúcar
invocando deuses e Iemanjá ,
lamentando a vã ilusão humana ... quando não temos
queremos quando temos não vemos...
Copa bela Copa
beleza como a tua não há...
Emílio Csanova, in "ninguém compra"
422

De mim III



tive um "Zé" como vô

pequeno magro e teimoso

tinha um olho castanho outro esverdeado

nutria amor pela república

era laico por fervor

anticristo sem temor

e odiava salazar ditador,

fazia sapatos

plantava couves cenouras e batatas

andou pelas linhas da

ferrovia,

enviuvou d'uma viúva

com quem se juntou

que lhe dizia...Zé faz isto...

faz aquilo...Zé não fazia...

fez-lhe três filhos uma vez

como quem diz...aqui tens...

morreu feliz aos noventa e seis

apertando-me a mão

como quem pede perdão

por males que não fez...

Emílio Casanova, in "Coisas do Coração"
448

amei-te uma noite

amei-te uma noite...
quando a janela se abriu estilhaçando
silêncios monotonias e pausas...
corri apressadamente com inimigo
vento na mente,
a calma da aurora queria silenciosamente
sossegar a agitada noite dos amantes,
deixei-te enleada na alvura de lençóis
amarrotados pelo esforço caloroso
da noite comungada nos nossos corpos
vivos de alegres amorosos,
fechada a janela como quem guarda
um segredo ...
voltei a ti voltei a mim
na procura do silêncio descansado
do amor partilhado,
reencontrei-te na encruzulhada de uma paz
de repouso, e de ãnsia de uma nova refrega.... entregámo-nos como se o dia fosse acabar,
nem os vidros estilhaçados da janela
que o vento matinal primaveril,
quebrou união poderosa de dois corpos em extâse
Emílio Casanova, in "Maria
467

De mim II



Na minha infância conheci

um padre ladrão,

roubava almas,

tinha alcunha de pata larga

e queria que lhe beijasse a mão.

Uma vez mãe manuela pediu-lhe conselho

...que fazer com joaquim estudar ou trabalhar...

...estudar qual quê...melhor é ir trabalhar...

...vai para oleiro....

afirmou padre sem arrepio

que da olaria era senhorio.

Bisavó maria afiançava que ele

no forno da olaria de satanás ardia.



Emílio Casanova, in "ninguém compra".
555

Insónia

Insónia

no silêncio das minhas noites claras

faço longas travessias sem destino

nas esquinas escuras do meu quarto

revejo caras e corpos

uns familiares outros opacos

deformados por nunca vistos

galopam sentimentos ritmados

ao compasso do brilho
dos néons iluminados

que penetram as frestas das janelas

dobras de lençol ondulam meu corpo

almofadas envolvem meu rosto

tac tic tic tac dança o tempo

noite branca sem rosto quente

que aspiras da minha insónia

angústias arrependimentos

remorsos por falta de coragem

não sabes que a humana liberdade

é prisioneira da minha mente

odeio teu poder que me impede

de adormecer
508

Perdeu

Acordei com pressentimento de quem perdeu,

Amargo sabor de estado desejado,

Inalcansado.

Sentimentos cruzados num labirinto fechado

Qual fervor imaterial que pereceu.

Partiste musa minha,

Alicerce de meus devaneios poéticos,

Âncora de amor querido,

Partiste pelos caminhos da realidade,

Rompendo a magia de flashes de felicidade.

Te encontrar não preciso,

Existes no meu sangue

Circulas em mim em espirais eternas

Que florescem em renovadas primaveras.

Quem te perdeu...não sei, sei que não fui eu.

Emílio Casanova, in "Graça"
590

Rosto

Gosto do teu gosto,
das palavras desafiadoras
do rosto do teu rosto,
espelho do teu eu,
das emoções duradouras,
vizinhas completas
das viagens de pombas
guerreiras, na caminhada
para o teu céu...longe de
assédios irracionais,
frutos instintos
de históricos ancestrais,
de espinhos que a beleza traz.

Emílio Casanova, in "ninguém compra".
625

De mim





Tive uma avó como toda a gente,

uma bisavó como ninguém

tinha saias até ao chão,

cheirava rapé,

nasceu no século desanove

e não tinha vintém.

Ensinou-me a acreditar

que deus não existe,

os santos também não,

que o diabo atenta,

e que fátima só

acredita o cristão.

Pediu-me pra
não roubar,

pra não matar,

pra não maldizer,

e nunca humanos, animais e plantas

desconsiderar.

Abriu-me portas de catedrais

palácios de conviver,

deu-me asas de longo alcance,

visão de pássaros urbanos,

iluminou-me os vales do saber,

contando-me histórias

de quem não sabia ler.

Amou-me como minha mãe,

despediu-se como se voltasse,

encontro-a vezes e vezes

nas retas da decisão,

Maria foi seu nome,

vai e vem nas vagas do tempo

nas curvas do coração.

Emílio Casanova, in "ninguém compra".
511

ilusão

trago em minha mão
na palma gravado
curvas lidas
por sinasde incompreensão
sulcos de solidão

trago no meu rosto
rugas de cansaço
que inundam meus olhos
buscando no seu traço
leitos de rios navegados
cúmplices de prazeres
na memória do tempo

trago na minha boca
o sabor amargo doce
dos teus lábios
feridos de solidão
marcados de ilusão
em ilusão

Emílio Casanova, in "Coisas do Coração"
467

Tudo

Tudo trago no meu peito

Todas as pessoas que conheci

Todas as ambições que sonhei

Todos os erros que cometi

Todas as paixões que adorei

Todos os lugares por onde passei

Todos os portos onde desembarquei

Todas as ilusões que alimentei

Todas e todos estão sempre em mim

Bem dentro do coração

Tão cheio que está sempre aberto



Emílio Casanova, in " Coisas do Coração"
488

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