Filipe F.

Filipe F.

n. 1980 PT PT

PT: Filipe F. nasceu em Portugal, na cidade do Porto, em 1980. Viveu entre Porto, V.N. Gaia, Arcos de Valdevez, Braga e Ponte da Barca desde 1981 até 2000.

n. 1980-07-21, Porto

Perfil
12 364 Visualizações

De uma nau naufragada

ó valente nau deste oceano perdido
Naufragada num banco-de-areia esculpido,
Teu casco de pinho flutuante arrombado
Te deixou aí abandonada ao passado

E já nem ondas te devolvem ao mar.
ó nau das altas velas correndo no vento
Com a tua proa erguida ao horizonte
Para tão somente um dia naufragar.

Tu, da descoberta do mundo de lés-a-lés,
Ficas aí agora jazendo as tuas cicatrizes
Do ego dos homens e das meretrizes
Que foram amadas no teu largo convés.

ó nau naufragada no silêncio dos tempos
Que jamais voltarás ao mar do horizonte
Restando-te na memória do teu Capitão somente.

Filipe F. 2016

Ler poema completo

Poemas

26

um poema mal parido

UM POEMA MAL PARIDO

Vós não sabeis
O que é ter letras em vez de dedos
Palavras na vez de mãos
Frases na vez de braços
Estrofes em vez de coração
E poesia em vez de razão.

Vós não sabeis!
Não sabeis sequer quanta poesia
É preciso escrever para parir um filho!

Sim! Vós que zombais da poesia!
Vós que jamais haverieis sido paridos
Se não fora o acaso da epifania!

Sim vós!
Vós que não sabeis que foram bestas
Bestas como aquela que aqui vos escreve
Para parir a poesia de que um poeta ferve.

Que foram as bestas emanadas de raiva
De amor e de ódio
Da nostalgia e do Futurismo
Que vieram ao mundo para vos parir a todos!
Sim a Vós! A Vós mesmos meus versos!

Filipe F. 2016

488

A memória dos lençois

Tantas vezes me lembrei de te procurar
Pero receei sempre que não recordasses
Do que já fomos sem poder voltar a ser
As noites infinitas de amor em que me amaste
Abraçando-me como se abraçasses o mundo inteiro
Para logo mudar os lençóis da cama em que te deitaste
Pondo os velhos e usados naquele tanque de lavar
Onde a água é sempre a mesma
Que não diria suja nem mesmo poluída
Simplesmente infecta daquele sabão-rosa
Que roçado naquela roupa de cama
Libertou o sebo e o suor que neles deixamos
Para se diluir e estagnar dentro desse poço sem fundo
Onde a água não é mais potável
E os lençóis ficaram inevitavelmente manchados.

Chegaram outros dias de os voltar a estender
Quando terei mesmo tentado manchá-los
Com outros sebos
Outros suores
Mas não era possível tirar o odor daquele sabão
Por mais que esfregasse naquele tanque de cimento
Desgastado pelo tempo
E pela contínua fricção
Que alisou aquele atrito e não mais desbastou
Aqueles lençóis onde deixamos a nossa infusão.

Filipe F. 2016

416

Verdant Hideaway

Back to the verdant hideaway
Where only Nature echoes thee

381

esconderijo verdejante

Esconderijo Verdejante

De volta a este esconderijo verdejante
Onde somente ecoa a Natureza
E se pode estar degentando distante
Lembrando das amantes a beleza
Que aqui se despiu delirante.

Este recanto da solidão pacífica
Em que se enche de mágoas o açude
De cada paixão eternamente ilícita
Entre o verso a que se alude
E a corrente imensidão física.

Que te trarei agora então a seguir
Que não tenha já cá estado
Nessas águas que correram a diluir
As memórias vivas do passado
Que aqui não cessam de se confundir.

Filipe F. 2016

413

Mote para Homem Morto

"No dia em que nascemos a primeira novidade é que estamos vivos, a segunda é que um dia morreremos. O que não contamos, é que ao longo da nossa vida iremos morrer muitas vezes, mesmo antes de falecer definitivamente e de termos os átomos que nos compõem dispersados por outras quaisquer formas, sejam de vida ou não, aliás, será pertinente questionar se a vida não é mais que a composição de cada átomo que forma a imensidão expansível do Universo, mas tudo será relativo ao ponto de vista de cada um e de como encara, a Vida."

----------------------

Filipe F. Costa - in "Homem Morto e 5 Poemas de Outubro"

ISBN
1523434864

445

A Nebulosa Infantaria

Sonhei que via um militar de infantaria
Carregando as munições e a baioneta
Pronta a espetar num mero inimigo pária
Sem perdão nem pelo mais puro asceta.

Entre o nevoeiro ele caminhava com direção
Avistava o mais recôndito ermitério da montanha
Decifrando daquele estado gasoso em evaporação
Uma silhueta de um eremita sem senha.

E ó quem vem lá! Estremeceu o troglodita
Ao ouvir os passos enterrando-se na neve
Naquela gelidamente sonhada manhã maldita

Em que se lhe acabou espetada num instante breve
Aquela longa e afiada baioneta descriminante
De um nebuloso e ordenado militar andante.

Filipe F. 2016

422

o amor de perto e de longe

O amor é vago e incessante
A luz que raia e penetra
Os olhares de suas vítimas
Em breve brota lágrimas
Escorridas de sentimentos
Equidistantes
Vagos e incessantes
Da alma tormentos
E no entanto além
Lá vai outro alguém
Que diz que ama
E mais além ainda
Vai outro dizendo
Que assim é feliz
Em amar
Vago e incessante
O amor distante.

Filipe F. 2016

445

O Poeta Ferido

E entretanto o poeta foi silenciado
Seus dedos uns nos outros suturados
Sangrando das falanges inanimado
Os desejos reescritos em segredos.

A musa oculta despindo atrás do biombo
O que apenas do poeta se esconde
Ele grita: "Herege da paixão em assombro!"
Enquanto ela desnuda dita: "Onde?"

E detrás do biombo ela dança e sorri
A contínua valsa dos amantes jocosa
Onde a musa dá apenas imagem de si.

Entremeado o poeta compõe a fleuma
Cada semi-breve da sinfonia silenciosa
Sangrando dos dedos! Sangrando da alma!

Filipe F. 2016

437

Poema de 'Homem Morto'



Encontrei-me em labirintos,
Em procuras infrutíferas
Circundando por esferas
Na decadência de alentos...


Silêncios angustiados de incertezas,
Os meus em turbidez mascarada
No meio de fogueiras acesas,
Inconsequência praticada...


Filipe F. 2004 in "Homem Morto"
632

Num Dia


Um dia aberto,
Desnudo, sem hierarquia de sangue.
Sai à praça, concreto
O que se vê, ao longe.

Gente.

Na multidão um indiferente.
Vagabundo, vestido indecente.
Vidros em baixo, descalço
Aberto de mente.

Caminha entre clareiras
Pelos espalhos de chão
Buscando-se do que sobra à multidão,
Rasgadas as nuvens

Abertas em vão.

Filipe F. 2014 in "5 Poemas de Outubro"
475

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.