Lista de Poemas

O Poeta Ferido

E entretanto o poeta foi silenciado
Seus dedos uns nos outros suturados
Sangrando das falanges inanimado
Os desejos reescritos em segredos.

A musa oculta despindo atrás do biombo
O que apenas do poeta se esconde
Ele grita: "Herege da paixão em assombro!"
Enquanto ela desnuda dita: "Onde?"

E detrás do biombo ela dança e sorri
A contínua valsa dos amantes jocosa
Onde a musa dá apenas imagem de si.

Entremeado o poeta compõe a fleuma
Cada semi-breve da sinfonia silenciosa
Sangrando dos dedos! Sangrando da alma!

Filipe F. 2016

427

Flatulência Poética

"Y que tendes vós tanta flatulência,
Alguma vez cagasteis Poesia?"

Filipe F. 2016
496

esconderijo verdejante

Esconderijo Verdejante

De volta a este esconderijo verdejante
Onde somente ecoa a Natureza
E se pode estar degentando distante
Lembrando das amantes a beleza
Que aqui se despiu delirante.

Este recanto da solidão pacífica
Em que se enche de mágoas o açude
De cada paixão eternamente ilícita
Entre o verso a que se alude
E a corrente imensidão física.

Que te trarei agora então a seguir
Que não tenha já cá estado
Nessas águas que correram a diluir
As memórias vivas do passado
Que aqui não cessam de se confundir.

Filipe F. 2016

403

o amor de perto e de longe

O amor é vago e incessante
A luz que raia e penetra
Os olhares de suas vítimas
Em breve brota lágrimas
Escorridas de sentimentos
Equidistantes
Vagos e incessantes
Da alma tormentos
E no entanto além
Lá vai outro alguém
Que diz que ama
E mais além ainda
Vai outro dizendo
Que assim é feliz
Em amar
Vago e incessante
O amor distante.

Filipe F. 2016

439

um poema mal parido

UM POEMA MAL PARIDO

Vós não sabeis
O que é ter letras em vez de dedos
Palavras na vez de mãos
Frases na vez de braços
Estrofes em vez de coração
E poesia em vez de razão.

Vós não sabeis!
Não sabeis sequer quanta poesia
É preciso escrever para parir um filho!

Sim! Vós que zombais da poesia!
Vós que jamais haverieis sido paridos
Se não fora o acaso da epifania!

Sim vós!
Vós que não sabeis que foram bestas
Bestas como aquela que aqui vos escreve
Para parir a poesia de que um poeta ferve.

Que foram as bestas emanadas de raiva
De amor e de ódio
Da nostalgia e do Futurismo
Que vieram ao mundo para vos parir a todos!
Sim a Vós! A Vós mesmos meus versos!

Filipe F. 2016

477

Verdant Hideaway

Back to the verdant hideaway
Where only Nature echoes thee

371

lábios de uma mulher de sonho

Esta noite sonhei aconchegado contigo
Que nos beijavamos adormecidos
Resguardados nestes lençóis compridos
Em que nunca te havias deitado comigo

Logo na volúpia dos teus lábios carnudos
Esta noite não sei quem eras mas estavas aqui
Entre estes cobertores de sonhos profundos
Aguava somente nesses lábios roxos de ti

Ao abrir doxolhos em busca do restante de teu rosto
Perdi-te os lábios e a formosura suave da almofada
Acordei! Deixei de te sonhar e escapou-se-me tosco

Como se de uma pintura impressionista imaginada
Aquele estado morno de quem beija o mosto
De uma mulher rubra que ainda não foi amada!

Filipe F. 2016

468

Do Poeta Convexo

A noite cai e o Poeta está em clausura
Prepara um tacho põe dois pratos
Que a vida além da solidão é mais crua
O Poeta acende a lareira com antigos versos
Que apodreceram na gaveta de madeira
Essa contida fogueira da memória
Onde se recolhem nostalgias falidas
Oh noites em vão perdidas!

Sente-se o cheiro envelhecido dos papéis
De espasmos escritos ao vento
De maior loucura que sonheis
Pelo menor dos idos eventos.

O Poeta descreve a ementa ó se lhe agrada
E sopra-lhe o recomeço a brisa suave
Daquela inocência criança que a contém
E que ocupa todas as gavetas do quarto.

Esta a pura musa da vida reflexo
Da metade do Poeta Convexo
Que hoje em clausura se despede
Num até breve amargo e de sede.

Filipe F. 2016

420

Pequeno Arrependimento


Como te desejo...

Ser dentro de ti...
A pele que acaricio o mais
Que o tempo me dá...
O rosto que admiro o mais
Que um olhar dará...

E sou dentro de ti aquilo que sou,
E saceio meus desejos
Tocando-te simplesmente...
Olhando-te...

Como me envolvo meu amor...

Filipe F. 2006 in "Os Poemas Que Nunca Leste"

583

Num Dia


Um dia aberto,
Desnudo, sem hierarquia de sangue.
Sai à praça, concreto
O que se vê, ao longe.

Gente.

Na multidão um indiferente.
Vagabundo, vestido indecente.
Vidros em baixo, descalço
Aberto de mente.

Caminha entre clareiras
Pelos espalhos de chão
Buscando-se do que sobra à multidão,
Rasgadas as nuvens

Abertas em vão.

Filipe F. 2014 in "5 Poemas de Outubro"
469

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