Filipe Marinheiro

Filipe Marinheiro

n. 1982 -- --

Nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro. Poeta. http://www.chiadoeditora.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1518:marinheiro-luis-filipe&catid=62:m

n. 1982-07-30, Aveiro

Perfil
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«Noutros Rostos» XVI

sei de teres um saco que fala sobre o sono ainda misturado

num copo em brasas

curioso por bater

com a minha sombra diante à criatividade desse saco

nele intercepto mensagens alheias das noites cheias de fins

ou acasos

todos nos dizem para cantar sob o carreiro gélido

onde verdes árvores lá fora se revelam na voz de silicone

por trás das portas a despenhar-se sobre cadeiras retiradas

contra os buracos negros

enquanto mesas se entrançam no ar às voltas

como respiro e interrompo

trepando o fumo trôpego dos garfos e talheres confusos

a romperem os sóbrios guardanapos de tecido diamante

derretendo-se na luz que flutua leve

talheres no princípio

garfos no cume empoleirados no pano rústico preso à jarra

que toca a melodia desaparecida

que esmaga as mesas

que torce a voz contra as portas

que toca a própria mão alastrando o saco

e se bebe na loucura nocturna

o soalho de madeira rubi ressente-se entre os rolos de árvores

e baloiços de folhas afrodisíacas

a amolecerem espantadíssimas nas sobrancelhas queimadas


com imagens panorâmicas do saco

como a rodar nos rodapés que explodem dentro dos vernizes

a espalharem-se p’la poeira das vidraças terríveis

os relógios fumam os céus indignados aceitando-se corajosos

e reles vistos à lupa

o sol de aço corta a vista como os seus raios de fogo cortam

as mãos

o fogo cresce

aumenta o sangue largo

enquanto labareda a roçar no coração

e o coração insufla e inflama o corpo que se ergue

e estanca o lume

manuscritos voam em cima dos pratos

os pratos compostos por tintas em escada finalizam-se à vista

sombrios e tristes

desde a força profunda das mesas

até se coserem às secretas portas

que fervem o trilhado coração do saco aos pedaços

de fibras entranhadas

escorrendo à volta dos corpos

desenhos de luvas

peúgas originais retratos folhas plantas

gaiolas por baixo de alcatifas submersas

cigarros dentro uns nos outros onde a água trabalha

e escalda esse pressagioso ofício

um castanho cavalo gira perto do iminente sofá

e o cavalo cavalga dentro das paredes

a estoirar a ventania obscura

e engole

uma almofada de acre vinho

e no próprio relinchar como desabrocha!


tapeçarias de névoas esvoaçam entre fragilidade e angústias

via o saco a inundar-se no arame farpado

com que o ergo

até sufocar o amanhecer fusiforme

a saltitar nos nós de sangue

uma breve leveza de ofício

e rasgam-se fissuras na carne como outra carne funda

e ensanguentada

em estado de choque

assim irei aprender também trigonometria astrofísica

dos cometas às galáxias inundadas de gravidade

enquanto saco é elevado

nós somos elevados

e arrastamos as imagens de uma ponta à outra

devoramo-nos

na engrenagem atómica

em frente aos vertiginosos olhos anda o saco a pensar nas coisas

o saco desmancha a doçura do pescoço

sangra-o nas mãos vagarosamente

à raiva tão veloz

canta nas fracturas da terra na cabeça movida por circunferências

saco chato dorme a alumiar a escuridão

uma chatice mortal!...

mexe-se aquele saco com pensamentos inquietantes

sei-o inquietante

é mestre e eu o aprendiz

com a cabeça no fundo dos meus joelhos a estilhaçar

devassa os astros

explodindo-os de encontro às estrelas

e todas as altas estrelas bailam na ponta dos dedos pretos prata

a deslizar na coxa dissolvida


contra espirais cadentes os astros são a sonoridade

cantam flores e jarras

e as estrelas o ritmo maldito feito de cera luminosa

em que as trevas vagabundam

nos espelhos rápidos

dentro da penumbra pendidas nos aromas megalíticos

que vão de sabor para sabor

pela aragem abaixo

a levitar na sua matéria enlouquecida

e morde a luz

porque os perfumes celestes

se despedem e diluem o espaço e o tempo

como num avanço e recuo doce

estremecendo as distâncias em tempo irreal

deixo-me cair anterior a esse saco entrançado nas veias adentro

e racho as mãos à velocidade de um galho precioso

na dúvida

alastram-se as abas que dançam

enquanto o saco sufoca numa janela contorcida

deambulo

na opacidade dos espelhos e vidros

que nunca mas nunca falam dele ou de mim

– o saco, por exemplo...

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Biografia

Nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro.

Poeta.

http://www.chiadoeditora.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1518:marinheiro-luis-filipe&catid=62:m

Poemas

1

Sem Título 58

Repeti:
o sol rebenta-me
nas mãos afastadas seja a escolha
ou a luz relampejante
absorvi-me numa vida ímpar
onde se dança com espanto a beleza.
Dum cândido jardim mimoso
em rodopio ao dióxido de carbono a ser delicado,
devido à intocável experiência metafísica
sob a poeira a derreter-se entre alfinete fritado
na memória poética sonho de criação.

Justamente vivo numa bondade
sem interferências.
Assim precedente como uma doçura fecunda
a alastrar-se-me infinita
por um cremoso recife simples
que provém das entranhas a enrodilhar
lá do fundo e pronto.

O mesmo se passa no quanto escrevo
a ideia do feio que teimam falar
ante pé a ante pé interessa-me
porque o tóxico é a meia repulsa
e também atrai.

Tento explicar doutro modo
os espinhos severos das coisas rachadas.
Outro modo desvairado mas suave.

Quando menos esperam fluo
como o rigor duma pedra preciosa
ou como as chuvas tremendas a entrar nos céus vivos
em torno do silêncio da treva arqueada
e toda a gentileza
sobe-me pelos dedos acima
extasiando um perfume no fundo a propagar-se.

Imagino o mundo. Imagino as pessoas.
Imagino a sua fala.
Imagino o que dizem para fora para dentro.
Imagino girarem as suas inteligências terríficas.
Imagino a cantarem-se para os espelhos estilhaçados,
a penderem-se nas flores húmidas
como um pedaço de espírito enlouquecido.
Imagino o seu sentir. Imagino a verem os outros.
Os outros como eles mesmos o são.
Imagino a verem-se estremecidos.
É sempre outro terror - tantas dores.
Imagino pois homens e mulheres a puxarem
do seu cigarro. A olhar os gestos dessa obsessão cruel.
Por vezes, imaginam-se no próprio podre cigarro
a tecer o fogo como degraus mergulhados
na mortalha no ar fabulosos.
Imagino-os a fumarem esquinas, ruas, avenidas,
terras, países, continentes
noites, dias, tardes e como enrolam no fumo
as esquecidas estrelas, a lua arder, o sol a misturar-se
com o mar alcançado.
Toda a matéria de que é feita a eternidade
completamente interior. O mar leva na corrente as suas
máculas.

Imagino a ruminarem ao universo desses impulsos
e a não se perdoar
na linguagem no espaço e tempo absolutos. Julgo eu!
Quem sou eu? Afirmo sensato. Direi sensata ironia
deste infinito a ingerir-se esquecido. Lá longe e futuro
sensacional.

As frases divergentes a esconderem-se
porém a subir
no sopro feminista
sequer ingénuo da crescente explosão cognitiva
a entrar-me como uma força interior que nada sei dela
a rasgar-me os lados dos lábios cadentes
perfurando as artérias num pânico animal.
Concentro-me ali. Concentro-me nisso
ao mesmo tempo que me desloco
no sofrimento desse incêndio
aniquilando-o com o perfil das pagãs folhas
reescritas. Nada feito, estou em mim,
fora deste infinito berro atirado ao acaso.

São as metidas poesias
deixam-te nauseada, arreliada,
mas em alerta máximo
porque vai contra a docilidade
mágica dos astros e galáxias ou constelação
a desmancharem-se aquando escuto da deslocação
entre as vigas dos predicados
e fungos da retórica a suar.

Será isto que me importa entender?
Desalentador. Enquanto escuto
esse sol em passos vagarosos
numa armadura crudelíssima.

Talvez a orgânica imperfeita dos tempos
onde me encerro à margem da lei,
lei insegura perscruta-me,
mostra-me a sua agulha
indolor.

Irá permanecer uma sensação estranha
como se o doloroso olhar apoiado no antebraço
da retina cavalgasse
dentro da minha
e atira-se a mim com agudeza, estranheza,
aspereza melancolia visceral
para o amor vindouro, eterno, macio.
Belo esse momento
em que nos conhecemos...

Estremeci do fígado desanimado
logo passei a acordar a cabeça desobedecida
aos pés dessa cabeça decifráveis,
depois selado percebi
que ias ser o paraíso de levar no peito embrulhado
pouco indício de uma macabra alma.

Olhei-te afoito porventura defeso
por de trás desses astronómicos olhos
uma primeira vez a réplica dos corredores
de xisto a desproporcionar as leituras ensurdecendo-as
e soube-te ate à espécie da morte.

Talvez não decifrem as alegorias,
tanto sarcasmo como sofrimento
isso remonta à minha láctea poesia.

Quem não aprecia ou compra
poderei oferecer um caixote do lixo altamente breu
para vomitarem as canonicidades
e a seguir reciclarem-se no mesmo paraíso
cuja semeada estância nem sabem
aonde fica.
De estrofes esmigalhadas a escutarem
hoje, ontem e amanhã vazios
desloco a inspiração para inspiração
partindo-a no fundo instantâneo.

Nessa inspiração
gravitam-se sons e imagens a engaiolarem
à pancada as cores e mesmo tons a inquietar
o violento ofício da própria poesia.
Poesia sempre a despedir-se duma alucinação perturbadora
como um ramo grosso a estalar quando se parte
no dia a dia vertiginoso.
Nela coroa as terras e pessoas sem identidade
com safiras por cima a cobrir.
Contudo seus nomes ressoam
como num trovão a esquartejar cavernas de nuvens
a escorrerem, mesmíssimo desse marulho acutilante,
gravitacional das inóspitas desgraças.

Como se vêem as pupilas
a chorar sabedoria abaixo
rodeando as flores debruçadas nas faces extintas,
descaídas dos "mosquitos" estupefactos
com as luzes amarradas
aos violinos que ainda sabem tocar canções de embalar.

A noite tórrida de superelegantes musas a arder
nos vidros dos olhos longilíneos
e o sol tamanho deste universo passageiro,
digestivo
deflagra-se-lhe nas têmporas a ferver
contra a encosta do queixo ingratas
e o universo inimaginável ferve indisposto
frente ao sol esmigalhado revestindo-se no próximo sismo
para inspirar os terceiros raios doutro igual sol repetido.
As mãos essas servirão
para desabotoar raro verniz se entretanto estala
dessa maneira perceberão
que abriram os meus poemas do avesso.
Totalitariamente Errado! Erraste! Errarei!...

Cerro-me num ponto sensível
acima do rasgo desta veia arrastada
p'la vara da nossa vida imperfeita escassamente muda.

Apenas mais folclore depenado
mas a minha inacessível busca
magoa muito.
Magoa o quanto basta.
Magoa o sangue em cúpulas
doutros sangues cuja vitalidade,
oculta o outro sangue a estilhaçar-se
sem razão alguma.
Como mendigo vence-me mansamente
durante puríssimo coar.

Finalizo:
Abalo-me como quantas janelas estranham
novas mãos a tocarem no vidro
a tornar-se líquido das chuvas apaixonantes,
é uma questão de amores e vontades estéticas.
Percebam isto duma vez por todas.
Por enquanto,
em vão
recomeço toda uma nova poesia.
(Ponto final mude de página)




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