Biografia
Nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro.
Poeta.
Poemas
34«Noutros Rostos» IX
trago da beleza obscura o alimento que me faz viver secreto
e tão distante...
«Noutros Rostos» XI
ou a vida é curta e antónimo de amor líquido
ou por agora recolhemo-nos na própria ideia de morte
«Noutros Rostos» IV
dever-me-iam ter dito que não existo e que nunca existi
neste mundo
ou antes um fragmento suspenso da escuridão estalasse a voz
ardente espalhando a criação na boca adentro
a boca purificaria as veias silenciosas das mãos a boca esmagaria
a ardência da carne a cantar bem perto no fundo do sangue
as células do sangue mover-se-iam entre o universo e a fala
rasgariam as palavras eternas desta boca tão feliz
jamais me deveriam ter dito coisa alguma
talvez me pudessem ter dito para eu correr absorto
todo nu sem voz submersa no meio da carne pura
a esconder-me dos gemidos da noite calva
os gemidos a esconderem-se de mim distraídos
e os movimentos amplamente puros cheios de luz e pó
passariam a água sobrenatural
como sombras transformadas a arranhar esta doida cabeça
dever-me-iam ter dito que os mortos caçam as manhãs
as tardes as noites – as horas em inércia
«Noutros Rostos» XIV
porque durante o silêncio da noite tudo respira tranquilo
na mais breve insolvência musical
e na cama ouço a inocência das eternas servidões...
«Noutros Rostos» X
amo a substância da dor
sombras em pranto correm de um lado para outro sem olhar
para trás ou para os lados ou nem sequer a pressenti-la
de frente só me apaixono pela ferida daquela transparência
que incide na oculta beleza
«Noutros Rostos» VI
perdesses o medo gritarias toda a noite sem um arranhão sequer
erguerias numa taça de flanela o tamanho do medo miudinho
e saberias que a tua memória se desfarela menor ao medo
que te consome e controla a força com que te deitas
ou se morres vertiginosamente
«Noutros Rostos» XV
cá vais tu de vértebras nos braços a correr pelo estrangulamento
do ar que te leva que te faz voar com o sangue como asas opacas
mas brilhantes
de boca na cabeça e pulmão na barriga tentas seguir uma travessia
exemplar sem erros sobrenaturais
os rios são pretos as árvores rasgam as nuvens as plantas sangram
por entre as casas que vais vendo
a vida é foneticamente fodida puta da vida mesmo virada de patas
para o ar em labaredas
e a vida floresce-te sabiamente...
«Noutros Rostos» I
pus-me a espremer a atmosfera coberta por um sabor a frutos
selvagens caminhei de tronco nu em cima desses enormes
campos silvestres
era manhã ainda e os pássaros de uma espessura incrível rodavam
o vento cinza ao contrário
decidi erguer as pernas como a brincar com a névoa que toca
suavíssima na linha do céu azul liquefeito e beijei essas aves
junto às rajadas de chuva que estremecem no meu coração
depois deitei-me por baixo das suas asas em giesta e escorro
como uma nascente abandonada pelas estrelas no quebra-mar
as aves atravessam agora um aglomerado de bosques sombrios
muito húmidos frescos com cheiro a nuvens carbonizadas
flores a voar com hálito a sombras sugam abismos maciços
entre astros e cometas a roçarem-se numa mágica doçura comovente
durante a minha eternidade campos aves céu mar frutos nuvens
estrelas e bosques adivinham nas minhas mãos um olhar melancólico
onde danço em cima de pedras preciosas de tédio em tédio
e num só golpe trémulo nos lábios diamante a minha majestosa
harmonia desencadeia novos silêncios...
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