Filipe Marinheiro

Filipe Marinheiro

n. 1982 -- --

Nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro. Poeta. http://www.chiadoeditora.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1518:marinheiro-luis-filipe&catid=62:m

n. 1982-07-30, Aveiro

Perfil
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Biografia

Nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro.

Poeta.

http://www.chiadoeditora.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1518:marinheiro-luis-filipe&catid=62:m

Poemas

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«Noutros Rostos» III

abrigaram-me na palavra paciente e sincera


envolver-me nas lágrimas de girassóis a gemer é como prolongo

a vida


até à palavra se amar doce e inocente

como quando corro inesperado seduzindo as letras uma por uma

e sufoco a fecunda escrita na melancolia que é tão minha...

1 004

«Noutros Rostos» XII

em todo o andar doido dos pais

escorrega sempre um sorriso leve entre os braços puros

e as cabeças dos filhos deslocam-se

os corações ao alto

como tremem e tremem por dentro

como são tão silenciosos corações e deliciosos sorrisos

e os pais envolvem comovendo-se

os braços apaixonados

os rostos dos pais

inundam-se nos lados das suas bocas

pelas veias e sangue arterial desentupidos

e os filhos rodopiam nos dedos formosos

no chão escorregadio

os filhos abertos ao novo amor sentam-se nos colos calmos

dos pais sentindo todo aquele momento visceral

e eterno

movem-se em silhuetas vivas

atentas a tudo o que se passa e mexe à sua volta

procuram o manso amor a florescer

na cadência absurda das coisas inseparáveis e escorregam

nos pequenos corpos celestes

enquanto a paixão surge numa sombra uma paixão quente fria

os pais têm urgência

nesse amor são do dia para a noite

progressivamente maiores e mais fortes


todos os filhos a certa altura perdem-se

nas brincadeiras para que os pais os encontrem e dancem

a levitar junto ao tecto

junto às janelas que batem noutras janelas

que batem por cima nas cortinas loucas por voarem

com a brisa daquele minúsculo vento levíssimo

a transbordar de imagens suores

e flores deambulantes

mas amplamente perfumadas

e o vento a respirar

dos movimentos doidos dos filhos encavalitados nos ombros pérola

dos pais

são vestígios desse doce amor

a erguer-se dentro de todos os órgãos

até chorarem os corações e os sorrisos fora

os seus lábios estão na fímbria do andar pontual dos pais

mas os pais atravessam a morte desértica

pelos seus filhos

os pais são realmente heróis anjos de guarda que mergulham

no magma da terra adentro

e esmagam-se no seu interior por eles

os pais devem ser as coisas mais frágeis e dóceis do mundo

porque os filhos deformam a expressão

do próprio mundo

e alagam os pulmões e cabelos dos pais nos brinquedos de fogo

e nos jogos adúlteros um pouco mais tarde

os filhos sabem aos pais

andam à velocidade das ruas intermináveis

dos becos frios

contudo confidentes


e os pais os mais elevados Deuses

chegam a rachar os seus próprios ossos através da saliva

e lágrimas dos altos filhos

amor mortal

amor a desaparecer no lusco-fusco

todo esse triste amor atira-se precipício abaixo sem pressentir

o desassossego espiritual dos filhos e pais recalcados

pelas submersas infâncias

todas as palavras que os filhos escoam pelo ar negro

arrancam a doçura do mar do sol

mas também das casas

dos quartos intensamente alagados pela força anterior

das belas memórias

como a interromperem-se num vazio corajoso e recente passado

os pais desenterram essas lembranças

como escapam nelas também

filhos e pais a queimarem-se melancólicos

depois certo dia os filhos

numa rara homenagem

escavam de novo o chão da sua casa e penetram solitários

dentro dos quartos

engolem toda aquela água d’alfinetes pretos

para se entrelaçarem nos velhos sorrisos dos pais

vêm à superfície

com os pais às cavalitas

e como brilham o recente caminhar!

sentam-se hoje nas mãos uns dos outros partilhando o choro nu

os pais embrulhados nas roupas dos filhos de alto a baixo

tocam-se em ambas as peles

nos ligeiros poros esvoaçantes beijam-se

nas faces viradas ao avesso com o relevo da luz

a asfixiar os seus reflexos


e as luzes solares inclinam as estrelas cadentes equilibrando

filhos e pais

num sorriso possível sorriso amante

nos pensamentos magnificentes

nada há na morte

pensam filhos e pais pois a vida incha toda a matéria que se mexe

com toda uma violência e alegria certas

germinando por si

o incondicional amor que nas profundezas loucas dos filhos

desentranham o coração manso dos pais

que desliza no sorriso

saboroso dos filhos

que desliza na sua doçura

deslizando na força do amor

que desliza na violência sonâmbula do medo

e crê-se

que o amor entre pais e filhos por fora e por dentro

deve acontecer

e ao acontecer devemos acreditar

que por fora e por dentro está todo o nosso leal amor

e todo o leal amor acontece

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«Noutros Rostos» VIII

vou contando todas as vidas tristes que se amadurecem

no fundo dos meus olhos a passarem atrás das coisas gastas

em cada rua vazia espero pelo seu sabor mudo


e desapareço naquele estremecimento que sai virgem do chão

por onde caminho novamente sombrio

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«Noutros Rostos» II

cá vais tu de vértebras nos braços a correr pelo estrangulamento

do ar que te leva que te faz voar com o sangue como asas opacas

mas brilhantes


de boca na cabeça e pulmão na barriga tentas seguir uma travessia

exemplar sem erros sobrenaturais


os rios são pretos as árvores rasgam as nuvens as plantas sangram

por entre as casas que vais vendo


a vida é foneticamente fodida puta da vida mesmo virada de patas

para o ar em labaredas


e a vida floresce-te sabiamente...

836

«Noutros Rostos» VII

vai caindo a manhã mortal

a bainha da sua luz está longe

mas enche-me a boca nua de folhas e poeiras que correm loucas

entre o sol a perder-se no oriente

e tubos de girassóis elementares únicos

a esquartejar o rosto

trancando os buracos dos ossos que se estrangulam a meus dedos

e de ponta a ponta da carne pulsa a beleza do ar se amo

eu fugia com o reflexo geológico a travar-me o sangue solar

escorrendo nos meus macios braços

por entre ribanceiras e encostas abaixo e acima

feito palavra delicada

corria como um violino d’água a pulsar inteiro

ao som do esquecimento das coisas dignas

estendo-me depois num mole poço de flores com os pulsos

mergulhados nesse sangue matinal estancando-o

enquanto o seu intenso perfume me batia

dentro da barriga

a barriga cheia de cócegas

saía fora dessa barriga doida

movia-se para o lado desta casta tarde

a morrer cansada

nestes lábios que sobem até tocar na noite

e dizer-lhe baixinho:

bom dia meu amor mais lindo!

837

«Noutros Rostos» XVI

sei de teres um saco que fala sobre o sono ainda misturado

num copo em brasas

curioso por bater

com a minha sombra diante à criatividade desse saco

nele intercepto mensagens alheias das noites cheias de fins

ou acasos

todos nos dizem para cantar sob o carreiro gélido

onde verdes árvores lá fora se revelam na voz de silicone

por trás das portas a despenhar-se sobre cadeiras retiradas

contra os buracos negros

enquanto mesas se entrançam no ar às voltas

como respiro e interrompo

trepando o fumo trôpego dos garfos e talheres confusos

a romperem os sóbrios guardanapos de tecido diamante

derretendo-se na luz que flutua leve

talheres no princípio

garfos no cume empoleirados no pano rústico preso à jarra

que toca a melodia desaparecida

que esmaga as mesas

que torce a voz contra as portas

que toca a própria mão alastrando o saco

e se bebe na loucura nocturna

o soalho de madeira rubi ressente-se entre os rolos de árvores

e baloiços de folhas afrodisíacas

a amolecerem espantadíssimas nas sobrancelhas queimadas


com imagens panorâmicas do saco

como a rodar nos rodapés que explodem dentro dos vernizes

a espalharem-se p’la poeira das vidraças terríveis

os relógios fumam os céus indignados aceitando-se corajosos

e reles vistos à lupa

o sol de aço corta a vista como os seus raios de fogo cortam

as mãos

o fogo cresce

aumenta o sangue largo

enquanto labareda a roçar no coração

e o coração insufla e inflama o corpo que se ergue

e estanca o lume

manuscritos voam em cima dos pratos

os pratos compostos por tintas em escada finalizam-se à vista

sombrios e tristes

desde a força profunda das mesas

até se coserem às secretas portas

que fervem o trilhado coração do saco aos pedaços

de fibras entranhadas

escorrendo à volta dos corpos

desenhos de luvas

peúgas originais retratos folhas plantas

gaiolas por baixo de alcatifas submersas

cigarros dentro uns nos outros onde a água trabalha

e escalda esse pressagioso ofício

um castanho cavalo gira perto do iminente sofá

e o cavalo cavalga dentro das paredes

a estoirar a ventania obscura

e engole

uma almofada de acre vinho

e no próprio relinchar como desabrocha!


tapeçarias de névoas esvoaçam entre fragilidade e angústias

via o saco a inundar-se no arame farpado

com que o ergo

até sufocar o amanhecer fusiforme

a saltitar nos nós de sangue

uma breve leveza de ofício

e rasgam-se fissuras na carne como outra carne funda

e ensanguentada

em estado de choque

assim irei aprender também trigonometria astrofísica

dos cometas às galáxias inundadas de gravidade

enquanto saco é elevado

nós somos elevados

e arrastamos as imagens de uma ponta à outra

devoramo-nos

na engrenagem atómica

em frente aos vertiginosos olhos anda o saco a pensar nas coisas

o saco desmancha a doçura do pescoço

sangra-o nas mãos vagarosamente

à raiva tão veloz

canta nas fracturas da terra na cabeça movida por circunferências

saco chato dorme a alumiar a escuridão

uma chatice mortal!...

mexe-se aquele saco com pensamentos inquietantes

sei-o inquietante

é mestre e eu o aprendiz

com a cabeça no fundo dos meus joelhos a estilhaçar

devassa os astros

explodindo-os de encontro às estrelas

e todas as altas estrelas bailam na ponta dos dedos pretos prata

a deslizar na coxa dissolvida


contra espirais cadentes os astros são a sonoridade

cantam flores e jarras

e as estrelas o ritmo maldito feito de cera luminosa

em que as trevas vagabundam

nos espelhos rápidos

dentro da penumbra pendidas nos aromas megalíticos

que vão de sabor para sabor

pela aragem abaixo

a levitar na sua matéria enlouquecida

e morde a luz

porque os perfumes celestes

se despedem e diluem o espaço e o tempo

como num avanço e recuo doce

estremecendo as distâncias em tempo irreal

deixo-me cair anterior a esse saco entrançado nas veias adentro

e racho as mãos à velocidade de um galho precioso

na dúvida

alastram-se as abas que dançam

enquanto o saco sufoca numa janela contorcida

deambulo

na opacidade dos espelhos e vidros

que nunca mas nunca falam dele ou de mim

– o saco, por exemplo...

930

sem título 3

fecho os olhos
abro-me nos teus como uma balada impune no seu sangue
oscilante

entretido percorro-te, estremeço-me nas veias singulares
depois com a ponta da língua
afável caligrafia reponho as cordas giratórias

e andas no meu imenso chão
um chão embalado p'los nossos sorrisos de cetim
só teu, só meu a transformar-se

porém nunca a concluir ou terminar salvo esse romance
nada súbito a apertarem violetas durante
jactos perfumados

decerto uma bondade eterna
eis donde chegam os meus afectos

e nas artérias de seda cristal
crias novas meigas cores novos ligeiros ares
novos amantes tons
novos endurecidos ruídos
novo auroreal amor para eu continuar a ver

a ver-te debruçada sobre mar transparente
com veludo de orvalho entre os poros
a ver-nos encalhados continuando a moldar
brancos banhos

como numa nossa gargalhada
a dormir no cume de videntes astros adentro
só dessa maneira
estaremos destinados a tais grandes coisas
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sem título 56

A loucura é tão inexpugnável o quanto lhe depositamos de
delírio e da clareza ante o preconceito renascer insana.
Existem loucuras na introspecção doutras loucuras!
As pessoas imaginam a imprópria loucura doutras loucuras
dentro da loucura movediça, mas a loucura também pensa
das pessoas! Se estiver do seu lado esquerdo adormeço, do
lado direito acordo, de trás desmaio, de frente salto, por
cima ilumina-me, por baixo obscura-me, no seu ventre
musical, sou a sua clave!
É isso a loucura? Uma mera quimérica diferença em tropel?
Então deixem-me lá continuar louco, um louco
inabalavelmente feliz e lúcido. Lá Lá Lá... Hurra Hurra Hurra...
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sem título 55

Balanço-me feito túnica
de cortinas a cordas de violino a estalar,
marco o compasso entre véus a sopros de flauta
e nesses púdicos lugares eternizo-me dançarino.
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sem título 1

Livram-se de súbito
árvores dormidas
no barlavento
de mágoas íngremes
frente aos cotovelos
que te desprendem
ao sorriso
desses rios passageiros.

Mais à noitinha
a sua curva de ervas doiradas
desvairam-se longamente
cheias de cheiros graves e furtivos.

Ganham voo esquecido
mesmo que emparelhados
atrás do cesto de frutas a escorregar
contra a espiga do peito férreo
apodrecidas.

Ervas roucas urgentes
de um verde prata inimaginável.

Cheias de ervas
a sede.

Sede gémea
às luzes arrastadas
pela pele curável da tua sombra,
só tua até doer.

Húmida essa ferida noite
sem permanecer sobre nada
e soltas uma sílaba de paixão
falando-te puro
aos ricos pastos dentro
do raso silêncio.

Vai doer-me ver-te
porque sou assim
virado para ti
ó natureza comovente...

E quando pouso toda a alma
no que é teu e meu
ouvimos essa brisa melancólica
só nossa só nossa.

Escuto a aflição da dor anoitecida.
Alegre dor da noite navegada
em redor do lume da foice
perdemo-nos
nas ondas feitas de vento
a entrar e sair soletrado.

Ingenuamente as colinas limpas
sem orientação
e preconceito invisíveis
no amor de ti encostado contra
as faces
virado de costas.

Deves tudo isso
aos nossos lábios úteis.
Corremos novos na roupa
das estepes paradas
por cima do estremecimento da palavra
doutras searas então vigilantes.
Fossem ignorantes
nossas também.

Nunca poderão partir
os lamentos dessa pouca
exaltação.

Mas relembro-te
para fechares
extenso alguns cristais abandonados
das tuas veias galácticas
e a tremer como uma sonâmbula
alvorada nua.

Sais pela raiz da lua fora
porque a sua amável cara de criança
vem-te beber da terra flutuante
num encontro interdito
a essas belíssimas
mãos tão fielmente
compostas.
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