Filipe Marinheiro

Filipe Marinheiro

n. 1982 -- --

Nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro. Poeta. http://www.chiadoeditora.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1518:marinheiro-luis-filipe&catid=62:m

n. 1982-07-30, Aveiro

Perfil
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«Noutros Rostos» XV

cá vais tu de vértebras nos braços a correr pelo estrangulamento

do ar que te leva que te faz voar com o sangue como asas opacas

mas brilhantes


de boca na cabeça e pulmão na barriga tentas seguir uma travessia

exemplar sem erros sobrenaturais


os rios são pretos as árvores rasgam as nuvens as plantas sangram

por entre as casas que vais vendo


a vida é foneticamente fodida puta da vida mesmo virada de patas

para o ar em labaredas


e a vida floresce-te sabiamente...

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Biografia

Nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro.

Poeta.

http://www.chiadoeditora.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1518:marinheiro-luis-filipe&catid=62:m

Poemas

34

«Noutros Rostos» II

cá vais tu de vértebras nos braços a correr pelo estrangulamento

do ar que te leva que te faz voar com o sangue como asas opacas

mas brilhantes


de boca na cabeça e pulmão na barriga tentas seguir uma travessia

exemplar sem erros sobrenaturais


os rios são pretos as árvores rasgam as nuvens as plantas sangram

por entre as casas que vais vendo


a vida é foneticamente fodida puta da vida mesmo virada de patas

para o ar em labaredas


e a vida floresce-te sabiamente...

835

«Noutros Rostos» III

abrigaram-me na palavra paciente e sincera


envolver-me nas lágrimas de girassóis a gemer é como prolongo

a vida


até à palavra se amar doce e inocente

como quando corro inesperado seduzindo as letras uma por uma

e sufoco a fecunda escrita na melancolia que é tão minha...

1 003

«Noutros Rostos» I

pus-me a espremer a atmosfera coberta por um sabor a frutos

selvagens caminhei de tronco nu em cima desses enormes

campos silvestres


era manhã ainda e os pássaros de uma espessura incrível rodavam

o vento cinza ao contrário


decidi erguer as pernas como a brincar com a névoa que toca

suavíssima na linha do céu azul liquefeito e beijei essas aves

junto às rajadas de chuva que estremecem no meu coração


depois deitei-me por baixo das suas asas em giesta e escorro

como uma nascente abandonada pelas estrelas no quebra-mar

as aves atravessam agora um aglomerado de bosques sombrios

muito húmidos frescos com cheiro a nuvens carbonizadas


flores a voar com hálito a sombras sugam abismos maciços

entre astros e cometas a roçarem-se numa mágica doçura comovente


durante a minha eternidade campos aves céu mar frutos nuvens

estrelas e bosques adivinham nas minhas mãos um olhar melancólico


onde danço em cima de pedras preciosas de tédio em tédio

e num só golpe trémulo nos lábios diamante a minha majestosa

harmonia desencadeia novos silêncios...

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«Noutros Rostos» IV

dever-me-iam ter dito que não existo e que nunca existi

neste mundo


ou antes um fragmento suspenso da escuridão estalasse a voz

ardente espalhando a criação na boca adentro


a boca purificaria as veias silenciosas das mãos a boca esmagaria

a ardência da carne a cantar bem perto no fundo do sangue


as células do sangue mover-se-iam entre o universo e a fala

rasgariam as palavras eternas desta boca tão feliz


jamais me deveriam ter dito coisa alguma


talvez me pudessem ter dito para eu correr absorto

todo nu sem voz submersa no meio da carne pura

a esconder-me dos gemidos da noite calva


os gemidos a esconderem-se de mim distraídos

e os movimentos amplamente puros cheios de luz e pó

passariam a água sobrenatural

como sombras transformadas a arranhar esta doida cabeça


dever-me-iam ter dito que os mortos caçam as manhãs

as tardes as noites – as horas em inércia

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«Noutros Rostos» V

a sabedoria levanta-se e a raiz cheia de ignorância vem à tona
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«Noutros Rostos» VI

perdesses o medo gritarias toda a noite sem um arranhão sequer


erguerias numa taça de flanela o tamanho do medo miudinho

e saberias que a tua memória se desfarela menor ao medo

que te consome e controla a força com que te deitas

ou se morres vertiginosamente

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sem título 56

A loucura é tão inexpugnável o quanto lhe depositamos de
delírio e da clareza ante o preconceito renascer insana.
Existem loucuras na introspecção doutras loucuras!
As pessoas imaginam a imprópria loucura doutras loucuras
dentro da loucura movediça, mas a loucura também pensa
das pessoas! Se estiver do seu lado esquerdo adormeço, do
lado direito acordo, de trás desmaio, de frente salto, por
cima ilumina-me, por baixo obscura-me, no seu ventre
musical, sou a sua clave!
É isso a loucura? Uma mera quimérica diferença em tropel?
Então deixem-me lá continuar louco, um louco
inabalavelmente feliz e lúcido. Lá Lá Lá... Hurra Hurra Hurra...
759

sem título 1

Livram-se de súbito
árvores dormidas
no barlavento
de mágoas íngremes
frente aos cotovelos
que te desprendem
ao sorriso
desses rios passageiros.

Mais à noitinha
a sua curva de ervas doiradas
desvairam-se longamente
cheias de cheiros graves e furtivos.

Ganham voo esquecido
mesmo que emparelhados
atrás do cesto de frutas a escorregar
contra a espiga do peito férreo
apodrecidas.

Ervas roucas urgentes
de um verde prata inimaginável.

Cheias de ervas
a sede.

Sede gémea
às luzes arrastadas
pela pele curável da tua sombra,
só tua até doer.

Húmida essa ferida noite
sem permanecer sobre nada
e soltas uma sílaba de paixão
falando-te puro
aos ricos pastos dentro
do raso silêncio.

Vai doer-me ver-te
porque sou assim
virado para ti
ó natureza comovente...

E quando pouso toda a alma
no que é teu e meu
ouvimos essa brisa melancólica
só nossa só nossa.

Escuto a aflição da dor anoitecida.
Alegre dor da noite navegada
em redor do lume da foice
perdemo-nos
nas ondas feitas de vento
a entrar e sair soletrado.

Ingenuamente as colinas limpas
sem orientação
e preconceito invisíveis
no amor de ti encostado contra
as faces
virado de costas.

Deves tudo isso
aos nossos lábios úteis.
Corremos novos na roupa
das estepes paradas
por cima do estremecimento da palavra
doutras searas então vigilantes.
Fossem ignorantes
nossas também.

Nunca poderão partir
os lamentos dessa pouca
exaltação.

Mas relembro-te
para fechares
extenso alguns cristais abandonados
das tuas veias galácticas
e a tremer como uma sonâmbula
alvorada nua.

Sais pela raiz da lua fora
porque a sua amável cara de criança
vem-te beber da terra flutuante
num encontro interdito
a essas belíssimas
mãos tão fielmente
compostas.
936

sem título 55

Balanço-me feito túnica
de cortinas a cordas de violino a estalar,
marco o compasso entre véus a sopros de flauta
e nesses púdicos lugares eternizo-me dançarino.
934

sem título 3

fecho os olhos
abro-me nos teus como uma balada impune no seu sangue
oscilante

entretido percorro-te, estremeço-me nas veias singulares
depois com a ponta da língua
afável caligrafia reponho as cordas giratórias

e andas no meu imenso chão
um chão embalado p'los nossos sorrisos de cetim
só teu, só meu a transformar-se

porém nunca a concluir ou terminar salvo esse romance
nada súbito a apertarem violetas durante
jactos perfumados

decerto uma bondade eterna
eis donde chegam os meus afectos

e nas artérias de seda cristal
crias novas meigas cores novos ligeiros ares
novos amantes tons
novos endurecidos ruídos
novo auroreal amor para eu continuar a ver

a ver-te debruçada sobre mar transparente
com veludo de orvalho entre os poros
a ver-nos encalhados continuando a moldar
brancos banhos

como numa nossa gargalhada
a dormir no cume de videntes astros adentro
só dessa maneira
estaremos destinados a tais grandes coisas
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