até há pouco sentia toda a chuva que caía como que em mim
nos dias actuais o recolhimento é recompensa pelos trabalhos passados penados sob borrascas e intempéries frias geralmente mas sei que nada me garante que não voltarei em breve a sentir a pesada solidão de caminhar à chuva sem destino
até há pouco sentia toda a chuva que caía como que em mim
nos dias actuais o recolhimento é recompensa pelos trabalhos passados penados sob borrascas e intempéries frias geralmente mas sei que nada me garante que não voltarei em breve a sentir a pesada solidão de caminhar à chuva sem destino
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Sete horas
Sete horas da tarde deste Inverno, sete são só as lojas que fecham, sete tantos doutores vestem terno, sete amores passam e me deixam.
Está escuro na luz amarela, a vida vem da caixa do dinheiro, a calmaria já desce esta viela que antes foi das formigas um carreiro.
Por detrás desse prédio, nada sei. Por detrás de um escuro vidro quente, escuro quente vidro, nada olhei, um quente escuro vidro que me mente.
Quem acaba o trabalho agora sai, quem na rua passa dele agora vem. Quem no prédio entra só cansado vai. Quem sou eu ! Nem sair nem entrar também
É triste as sete horas desta rua. Vaidosas portas às sete fechadas pondo decentemente e pura nua a estrada onde há sóbrias fachadas.
Sem nada melhor p’ra fazer, ‘stou só, sentado na cadeira e solidão vejo a vida girando numa mó onde sai só pó do meu coração.
Nesta rua tudo passa, só eu não. Mas sou só eu a olhar e a rever nela que eu queria estar nessa situação de ser visto na rua pela janela.
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A cidade sangra
A cidade à mercê dos elementos E eu às voltas com pobres redondilhas, Desgastam-se telhados pelos ventos E as calçadas por muitas sapatilhas.
... e eu... pelo cimento
A pedra arremessada, vidro e aço, Tudo fica mais pobre de frescura. Espraia-se o tempo pelo espelho baço, Ganha pó, ganha grão, ganha textura.
... e eu... deslizo lento.
As arestas suavizam-se modernas, A vida já mágoa sem mais ajudas. Nestes asfaltos vis cansam-se as pernas, Nas faixas do bus caem histórias mudas.
... e eu... sou desatento.
E proliferam certas carripanas, Carregam o turista a ver a vista. Nem toda a gente gosta de bifanas, Pregos, sopas ou teatro de revista.
... e eu... cá me contento.
Mas a cidade é feita cada dia Pelo envelhecimento das pessoas. Já a morte representa uma avaria E os nascimentos são notícias boas.
... e eu... sem ligamento.
Edifícios e vias, animais, flora, Verdades, suor, mentiras e mentiras, O sangue da cidade é o Hoje - Agora -, O tempo que envelhece. Cenas giras!
... e eu... sempre tormento.
Mas a cidade sangra a vida triste! Vive no coração, quem é feliz, São poucos, sua coragem lá resiste Ao tempo, ao pó, à má e dura cerviz.
... e eu... sem batimento.
E a fibra de carbono, ferro e plástico Circula como células vermelhas, No pulsar de um pulmão doente e elástico, No respirar asmático das telhas.
... e eu... descobrimento.
Quando chove, só chovem automóveis, Assadrinham-se em latas nos vagões, Pobres diabos só vêem seus telemóveis, Marrecas as futuras gerações.
... e eu... já sonolento.
Dorme como um sonâmbulo a cidade Comatosa de espasmos luminosos E ninguém a conhece de verdade, Nem os guias ou taxistas mais manhosos.
... e eu... sou talvez vento....
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Tentativa com arestas
Desejo ser diferente, ter um outro sentimento, ser mais calmo e mais contente, inteiro a todo momento.
Fluência tem que ser treinada, não há obras instantâneas. É uma guerra instalada contra as pausas momentâneas.
Como é difícil, meu Deus, fazer uma quadra boa, mas se às normas digo adeus, nada digo e vogo à toa.