De tudo o que importa nessa vida Sua lembrança em meu último suspiro Minha Lua, doce Lua minha Em sua estrada havia atalhos Que Fizeram meus olhos caminharem em seus olhos Quando você nasceu, morri Minha vida esvaiu-se Vi seu choro me abraçando E o seu olhar me beijando. E te abracei como nunca, Te beijei como nunca, Lua Estrela! Ah, quem me dera te ver correndo A perder de vista encontrando a felicidade! Quem me dera te ver correndo Para os meus braços nesse mundo frágil… Você foi minha guerreira imortal A luta não foi em vão Linda é sua coroa! Fez-me ver o invisível E era tanta luz a te envolver! Nasceu para cumprir a eterna felicidade Para banhar-me de luz E eu estando morto, revivesse Sempre te alcançarei minha menina Até então te vejo de longe Para te encontrar sempre Sempre e sempre andaremos juntos… *(em memória)
Deu a mim as cousas boas… E eu as tratei tão corriqueiras... Serenamente sobre a palha das esteiras Me esquecia desse mundo de pessoas
Caneca velha carregada de lembranças Pão na manteiga e aquela atenção Do seu Jacinto me falando ao coração Sábias falas, como as bem-aventuranças
Naquela roça aprendi simplicidade Com a família desfrutei da vida boa Lá vivi com dona Zeca em pessoa Uma mulher de riso fácil à liberdade
Família grande; que aperto, uma saudade Da Reta Velha tão batida e sem luz Dessa herança minha memória produz Uma vontade de voltar na minha idade
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PRÓXIMO DE CASA
As vezes que saio ao mercado Passo por um lugar estranho, próximo de casa Uma esquina que leva desprevenidos à cova rasa E no fim da rua fica um de feitio fechado Creio ser o coveiro bebendo água na esquina No caminho do mercado, estranho também aos gatos Lugar (em sua maioria) dominado pelos ratos Está dona Margota encostada no muro: a sua sina
Nesse lugar estranho, tem o que não diz ‘boa noite!’ Porém, seu olhar acompanha uma alma até o cemitério Tal como a coruja compenetrada num mistério De alguém correndo do estalar de um açoite
Estranho não ver mais o gambá na madrugada Anormal que se tornou habitual nesse lugar estranho À meia-noite, passeava, talvez para um banho Ou quem sabe, para encontrar a amada
O sol queima no verão sem sombra A alma insola nesse lugar que assombra De tanto andar, meu corpo dá câimbra
O que a mim não é estranho são as donas de casa Andam com um sorriso largo nas maçãs do rosto Vão e vem, bailando, vivendo com bom gosto Nesse lugar, não se preocupam com a cova rasa
Tem também nesse lugar aquele que diz: — Você vai ganhar na loteria hoje Outro: — Hum! Você está magrinho E outra: — Você não tem onde cair morto E tem o manco, uma fingidora, o bêbado, as más línguas, O carro do ovo, da fruta, do pão, do gás, do... E.
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POESIA
Essa me faz escapar: conforta Rompe a barreira da dor: sorrio Do cansaço se cansa no estio Essa me faz descansar e exorta
Em versos de raios da aurora Que o fulgor a mim me cega? Essa me faz enxergar: entrega E o sentido da vida me aflora
Na sua lida me desinflama Do mal, mais que toda a matéria Na alma me afasta da miséria Essa é a existência que clama
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NÃO ME ABANDONE
Céus, esperança! Não aprontes comigo Se fores embora Deixares minha vida Quem de mim cuidará?
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CARNE FRESCA
às pressas veio e sorriu sem dó, foi-se, partiu sangrou a carne fresca e não olhou para trás malvadeza, por que sorriu? por que deixou tua presa às moscas? na agonia, no delírio anêmico, amarelado necessitado do sangue teu? a sede do teu suor por que me deste de beber a tua seiva? prometido foi seu corpo e alma guilhotinada a promessa encapuzada, com pressa sem piedade
carne fresca sem idade sem chão, prisioneiro no tempo aprisionado pisoteado pela saudade
por que me escolheu? por que a mim? por que não chocolates? por que cortou minhas asas?
ralei-me a andar não te achei o deserto ressecou meus olhos não mais te vi secou minha garganta não mais gritei secou meu coração não mais te amei
amei-te muito com o sorriso teu teu, era teu viu minha liberdade e quis voar me amarrando ao pé da tua vontade
porque minha carne era fresca era doce era inocente era necessitada de tudo você era tudo eu, o efêmero descartado no tempo levado no vento
no torto caminho eu no tempo tempo seco rachava o chão estéril nos ventos levado ao ermo
se tu não viesses não me farias um homem não me farias um verme não me farias um reles não me farias um troço estaria chovendo as cores voltariam…
mas se te culpo por que te culpo? eu sou o culpado fiz-me tudo isso por ter amado consentir o teu sorriso e ir às pressas ao teu encontro
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O PESSIMISTA
Há um defunto sempre pronto na boca de um pessimista Ah, morte morte certa é a morte! Oh, vida vida breve é a vida que segue de forma atabalhoada!
Entre mais ou menos ou quem sabe, toca-se as horas Mas tudo é nebuloso, emperrado e incerto Nesse mundo difícil de dar certo E quem pensar o contrário é louco varrido
220
BAILARINA
Como tu danças! É arte, e fazes dela (ofício) O tempo é teus pés flutuando Na música que te convida A celebrar a vida
Como te soltas nos passos! Faz-me como ante o mar Sentindo as ondas Me levar nos movimentos
Transladas como a Terra Trazendo as estações E a paixão que libertas Encontra outra dimensão A Alma repleta No pórtico da arte
Como tu vives!...
202
AMOR ANALFABETO
Se eu pudesse em uma palavra abrandar seu dia Se num pequeno gesto eu fizesse você sorrir Sentiria sua ternura e meu prazer conseguiria Ser maior que minha tristeza no porvir
Porque desejo a suavidade de um momento Paz no coração ao suspirar sua beleza A leveza de andar em contentamento Vencendo a real vida com destreza
Desejo a plenitude da sua serenidade Impelir o dia ruim a sair do meu caminho Desejo os ares livres da maldade Vendo o sol realçar-te de puro linho
Tão delicada! Suas mãos me tocando como veludo Tão amada! Sua inocência me conquistando por completo Pois, que ao conseguir abrandar seu dia transmudo Ao fazer você sorrir, sinto o meu amor analfabeto
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A NOSSA VERGONHA
Tanta coisa para fazer Correr, correr sem saber andar Assim começa a vida para muita gente E como machuca tentar! Sair de um buraco que mais parece um poço sem fundo Profissão: enxugador de gelo Desistir jamais, esperança sempre Porque é hora de preparar o solo seco e torrado A chibata do sol castigando a pele que já virou couro Curtido Semeia olhando para o céu pedindo “Misericórdia, Senhor!” E a autoridade do outro lado da cerca na dúvida se almoça lagosta ou salmão Sugiro que pule a cerca e veja a lavoura do enxugador de gelo Mas há quem prefira ficar e ouvir Ivan Dzerzhinsky De qualquer forma essa gente continuará correndo Porque sobreviver é preciso.
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TODOS OS DIAS SÃO DIAS
Tão logo aponta o dia, o cantar do pardal Escolho o destino deste mundo, que me vem em retalhos E me diz a rotina dos dias, do levantar-se e cursar
Começo a remendar uma estrada Para caminhar do bocejo ao sono Um tapete vermelho Quero um tapete vermelho sobre os remendos Um sossego, sossego de rei Ao saborear a alegria do povo Um banquete diário quero Um caminho notável Aconchego da igualdade
Remendo meus dias, uso linha forte… São dias de renovo, dias de arrepender-se Dias de perdoar, sim, de esquecer
BOM DIA!
Dias de acolher e descansar De dizer palavras mágicas Dias de acalentos Incansáveis dias Diariamente Dias de criança Inesgotáveis Afáveis Inefáveis, escolho