Flávio Gomes da Silva

Flávio Gomes da Silva

n. 1968 BR BR

Canto versos sem me perguntar, sem procurar, sendo o quanto há de ser sem algemas

n. 1968-09-09, Rio de Janeiro

Perfil
7 304 Visualizações

MINHA DOCE MENINA

De tudo o que importa nessa vida
Sua lembrança em meu último suspiro
Minha Lua, doce Lua minha
Em sua estrada havia atalhos
Que Fizeram meus olhos caminharem em seus olhos
Quando você nasceu, morri
Minha vida esvaiu-se
Vi seu choro me abraçando
E o seu olhar me beijando.
E te abracei como nunca,
Te beijei como nunca, Lua Estrela!
Ah, quem me dera te ver correndo
A perder de vista encontrando a felicidade!
Quem me dera te ver correndo
Para os meus braços nesse mundo frágil…
Você foi minha guerreira imortal
A luta não foi em vão
Linda é sua coroa!
Fez-me ver o invisível
E era tanta luz a te envolver!
Nasceu para cumprir a eterna felicidade
Para banhar-me de luz
E eu estando morto, revivesse
Sempre te alcançarei minha menina
Até então te vejo de longe
Para te encontrar sempre
Sempre e sempre andaremos juntos…
  *(em memória)
Ler poema completo

Poemas

40

RETA VELHA

Deu a mim as cousas boas…
E eu as tratei tão corriqueiras...
Serenamente sobre a palha das esteiras
Me esquecia desse mundo de pessoas

Caneca velha carregada de lembranças
Pão na manteiga e aquela atenção
Do seu Jacinto me falando ao coração
Sábias falas, como as bem-aventuranças

Naquela roça aprendi simplicidade
Com a família desfrutei da vida boa
Lá vivi com dona Zeca em pessoa
Uma mulher de riso fácil à liberdade

Família grande; que aperto, uma saudade
Da Reta Velha tão batida e sem luz
Dessa herança minha memória produz
Uma vontade de voltar na minha idade
206

PRÓXIMO DE CASA

As vezes que saio ao mercado
Passo por um lugar estranho, próximo de casa
Uma esquina que leva desprevenidos à cova rasa
E no fim da rua fica um de feitio fechado
Creio ser o coveiro bebendo água na esquina
No caminho do mercado, estranho também aos gatos
Lugar (em sua maioria) dominado pelos ratos
Está dona Margota encostada no muro: a sua sina

Nesse lugar estranho, tem o que não diz ‘boa noite!’
Porém, seu olhar acompanha uma alma até o cemitério
Tal como a coruja compenetrada num mistério
De alguém correndo do estalar de um açoite

Estranho não ver mais o gambá na madrugada
Anormal que se tornou habitual nesse lugar estranho
À meia-noite, passeava, talvez para um banho
Ou quem sabe, para encontrar a amada

O sol queima no verão sem sombra
A alma insola nesse lugar que assombra
De tanto andar, meu corpo dá câimbra

O que a mim não é estranho são as donas de casa
Andam com um sorriso largo nas maçãs do rosto
Vão e vem, bailando, vivendo com bom gosto
Nesse lugar, não se preocupam com a cova rasa

Tem também nesse lugar aquele que diz:
— Você vai ganhar na loteria hoje
Outro:
— Hum! Você está magrinho
E outra:
— Você não tem onde cair morto
E tem o manco, uma fingidora, o bêbado, as más línguas,
O carro do ovo, da fruta, do pão, do gás, do...
E.
29

POESIA

Essa me faz escapar: conforta
Rompe a barreira da dor: sorrio
Do cansaço se cansa no estio
Essa me faz descansar e exorta

Em versos de raios da aurora
Que o fulgor a mim me cega?
Essa me faz enxergar: entrega
E o sentido da vida me aflora 

Na sua lida me desinflama
Do mal, mais que toda a matéria
Na alma me afasta da miséria
Essa é a existência que clama

215

NÃO ME ABANDONE

Céus, esperança!
Não aprontes comigo
Se fores embora
Deixares minha vida
Quem de mim cuidará?
220

CARNE FRESCA

às pressas veio e sorriu
sem dó, foi-se, partiu
sangrou a carne fresca
e não olhou para trás
malvadeza, por que sorriu?
por que deixou tua presa 
às moscas?
na agonia, no delírio
anêmico, amarelado
necessitado do sangue teu?
a sede do teu suor
por que me deste
de beber a tua seiva?
prometido foi seu corpo e alma
guilhotinada a promessa
encapuzada, com pressa
sem piedade

carne fresca sem idade
sem chão, prisioneiro
no tempo aprisionado
pisoteado pela saudade

por que me escolheu?
por que a mim?
por que não chocolates?
por que cortou minhas asas?

ralei-me a andar
não te achei
o deserto ressecou
meus olhos
não mais te vi
secou minha garganta
não mais gritei
secou meu coração
não mais te amei

amei-te muito
com o sorriso teu
teu, era teu
viu minha liberdade
e quis voar                                                                                                                        
me amarrando
ao pé da tua vontade

porque minha carne
era fresca
era doce
era inocente
era necessitada
de tudo
você era tudo  
eu, o efêmero
descartado no tempo
levado no vento

no torto caminho
eu no tempo
tempo seco
rachava o chão
estéril nos ventos
levado ao ermo

se tu não viesses
não me farias um homem
não me farias um verme
não me farias um reles
não me farias um troço
estaria chovendo
as cores voltariam…

mas se te culpo
por que te culpo?
eu sou o culpado
fiz-me tudo isso
por ter amado
consentir
o teu sorriso
e ir às pressas
ao teu encontro

      

 

      

 

224

O PESSIMISTA

Há um defunto sempre pronto na boca de um pessimista
Ah, morte morte certa é a morte!
Oh, vida vida breve é a vida que segue de forma atabalhoada!

Entre mais ou menos ou quem sabe, toca-se as horas
Mas tudo é nebuloso, emperrado e incerto
Nesse mundo difícil de dar certo
E quem pensar o contrário é louco varrido
220

BAILARINA

Como tu danças!
É arte, e fazes dela (ofício)
O tempo é teus pés flutuando 
Na música que te convida
A celebrar a vida

Como te soltas nos passos!
Faz-me como ante o mar
Sentindo as ondas
Me levar nos movimentos

Transladas como a Terra 
Trazendo as estações
E a paixão que libertas
Encontra outra dimensão
A Alma repleta
No pórtico da arte

Como tu vives!...
202

AMOR ANALFABETO

Se eu pudesse em uma palavra abrandar seu dia
Se num pequeno gesto eu fizesse você sorrir
Sentiria sua ternura e meu prazer conseguiria
Ser maior que minha tristeza no porvir 

Porque desejo a suavidade de um momento
Paz no coração ao suspirar sua beleza
A leveza de andar em contentamento
Vencendo a real vida com destreza

Desejo a plenitude da sua serenidade
Impelir o dia ruim a sair do meu caminho
Desejo os ares livres da maldade
Vendo o sol realçar-te de puro linho

Tão delicada! Suas mãos me tocando como veludo
Tão amada! Sua inocência me conquistando por completo
Pois, que ao conseguir abrandar seu dia transmudo
Ao fazer você sorrir, sinto o meu amor analfabeto 

195

A NOSSA VERGONHA

Tanta coisa para fazer
Correr, correr sem saber andar
Assim começa a vida para muita gente
E como machuca tentar!
Sair de um buraco que mais parece um poço sem fundo
Profissão: enxugador de gelo
Desistir jamais, esperança sempre
Porque é hora de preparar o solo seco e torrado
A chibata do sol castigando a pele que já virou couro Curtido
Semeia olhando para o céu pedindo “Misericórdia, Senhor!”
E a autoridade do outro lado da cerca na dúvida se almoça lagosta ou salmão
Sugiro que pule a cerca e veja a lavoura do enxugador de gelo
Mas há quem prefira ficar e ouvir Ivan Dzerzhinsky
De qualquer forma essa gente continuará correndo
Porque sobreviver é preciso.
220

TODOS OS DIAS SÃO DIAS

Tão logo aponta o dia, o cantar do pardal
Escolho o destino deste mundo, que me vem em retalhos 
E me diz a rotina dos dias, do levantar-se e cursar

Começo a remendar uma estrada
Para caminhar do bocejo ao sono
Um tapete vermelho
Quero um tapete vermelho sobre os remendos
Um sossego, sossego de rei
Ao saborear a alegria do povo
Um banquete diário quero
Um caminho notável
Aconchego da igualdade

Remendo meus dias, uso linha forte…
São dias de renovo, dias de arrepender-se 
Dias de perdoar, sim, de esquecer 

   BOM DIA!

Dias de acolher e descansar
   De dizer palavras mágicas
Dias de acalentos
   Incansáveis dias
Diariamente  
   Dias de criança
Inesgotáveis
   Afáveis
Inefáveis, escolho

 
205

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.