Francys Charlie

Francys Charlie

n. 1988 -- --

n. 1988-04-23

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O braço do fazendeiro - parte 1

Eu anelava o findar do dia. De repente uma sombra veio e cobriu-me. Então ouvi a voz de um dos empregados do fazendeiro:

"O patrão quer falar com você."

Sebastião era um sujeito ruivo, barbudo. Deveria ter quase os seus quarenta anos. Ereto, ele montava um grande cavalo marrom do outro lado da cerca, provavelmente o seu cavalo favorito. Usava uma camisa de algodão aberta na altura do peito, de onde saiam espessos tufos de cabelo.

"Comigo?", balbuciei.

Ele assentiu, baixando a aba do chapéu e ocultando um rosto severo. Moveu as rédeas e as pernas e deu meia volta, afastando-se. Eu, por minha vez, terminava de ordenhar a última vaca. Sequei a testa. Coloquei o balde de canto, assim como os demais. Deixei os meus ombros magros caírem e respirei fundo.

"Só irei tirar a lama das botas primeiro", eu respondi com um sorriso ao mesmo tempo forçado e tímido.

Fiz conforme o prometido. Mais tarde bati na porta com os nós dos dedos. O som de passos, e então a maçaneta girou. Dois olhos apareceram na fresta. O fazendeiro abriu-me a porta, e usava um belo cachecol listrado. Uma mesa do lado esquerdo da sala.

Disse-me: "sente-se" e eu me sentei, como um cachorrinho. Tentava me controlar. Encurvado, as mãos trêmulas sobre a mesa, evitava olhar para o seu rosto.

"Que tal uma bebida?", perguntou ele num tom amistoso.

"Não, obrigado, senhor", foi a minha resposta.

"A bebida é minha", ele disse erguendo a taça cheia e pousando a outra mão sobre o peito. Enfim uma bebericada. "Já ouviu falar em meritocracia?", perguntou.

"Não", respondi. "O que é isso?", perguntei, tentado parecer verdadeiramente interessado.

"Quer dizer que cada um merece o que tem", ele disse. "Existem direitos invioláveis... Eu mereço tudo o que tenho, não mereço?"

"Claro, claro!", eu me apressei em dizer. "O senhor é muito trabalhador, desde... desde... desde sempre!"

Seus olhos estavam vermelhos devida à bebida. Sua boca exalava um forte cheiro de álcool, capaz de embebedar um exército.


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Poemas

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Plano para enriquecer N° 1

Eu moro em um barraco e só tenho uma bicicleta, mas conheço muitas pessoas que usam carro com frequência. Pensando um pouco, talvez quase todas as pessoas nessa cidade, nesse estado, nesse país usem carros. Carros poluem, bicicletas não poluem. Parece-me portanto que se eu quiser, posso processar as pessoas que poluem o ar com os seus carros. Parece-me também justo que eu possa cobrar pelo menos dez Reais de cada uma delas como indenização ou como uma pequena tarifa, já que o ar impuro que sou obrigado a respirar, entre outras coisas, afeta a minha saúde, algo que para mim possui um valor incalculável. Por fim, depois de cobrar dez Reais de cada uma terei uma quantia considerável. O que pretendo fazer com essa quantia? Comprar um carro e uma casa no lado rico do Rio. Se eu for tarifado ou receber um processo de outro ciclista, como terei feito antes disso, eis que perderei apenas Dez Reais. Ainda é um baita lucro!

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Plano para enriquecer N° 2

As pessoas possuem direitos sobre o próprio corpo. É difícil definir os limites do corpo. Portanto, também é difícil definir os limites dos direitos relacionados ao corpo. A perna robótica de um deficiente físico é parte do seu corpo? Achamos que sim, ainda que seja artificial. Reflitamos. O corpo da mãe de repente se transforma no corpo do filho e ela, progressivamente, vai perdendo o direito sobre ele. Então, num dado momento, não mais poderá abortá-lo, como se fosse seu corpo, e não mais poderá dizer: "meu corpo, minhas regras". Do mesmo modo, penso eu, depois de um tempo o trabalhador e os meios de produção se fundem com vigor, a ponto de confundirem-se e tornarem-se uma única coisa. Quebrando o silêncio, de súbito grita uma costureira no meio da fabrica: "eis que esta máquina de costura se tornou uma extensão do meu corpo!" E, de fato, passados muitos anos naquele lugar, sentada, inclinada, quieta, a máquina de costura se torna parte dela. Não só a velha máquina, como também a tesoura, o tecido, os botões, a linha, as paredes, etc. etc.

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