gabicarnavale

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n. 1998 BR BR

Gabriela Carnavale, 21 anos, estudante de Letras pela Universidade Estadual Paulista, amante da literatura e poetisa em busca do reconhecimento

n. 1998-11-10

Perfil
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AOS POETAS

O poeta é um bandeirante
Que desbrava o intelecto
Ele brinca com as palavras
Num jogo de afetos
Finge uma dor fingida
Sente o que não foi sentido
O poeta é feliz
E ao mesmo tempo um deprimido
Em sua rede de palavras
A arte se estrutura
O poeta é um artista
E uma errônea criatura
Escrever é eternizar-se
é futuro e passado
O poeta é atemporal
Ao infinito é lançado
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Poemas

14

MATERNIDADE


Como pode uma mulher não ser mãe, se até a lua dá luz às estrelas?

***

Me encheram de bonecas
Instigando a ser mãe

Dei luz às alegrias e tristezas
Cresceram bem
Hoje são sabedoria e mais nada

***

Meus ouvidos não cederam aos preconceitos
E meu ventre ignorou as velhas crenças

***

Mulher já nasce com um bocado de obrigações e deveres

Logo nós, que temos um pássaro cantando liberdade no peito.
443

DEUS É COMO O MAR


Sempre duvidei da religião
Mas, no fim, a bíblia estava certa
Deus é mesmo onipresente;

E escorre tristemente
Nos olhos do mundo inteiro.
464

QUASE ME ESQUECI DE QUE SOU TRISTE

Hoje quase me esqueci de que sou triste.
Ri até a barriga doer com uma piada de pontinhos.
Tinha até me esquecido do quanto meus olhos ficam pequeninos
e como minhas covinhas ficam aparentes quando rio
Hoje andei por aí me sentindo leve
E pela primeira vez o tique-taque do relógio não me deixou impaciente
Pelo contrário;
Aproveitei cada segundo com sabedoria
Os pássaros pareciam assoviar uma canção de Chico Buarque
e meus olhos refletiam uma luz maior
como a lua refletindo a luz do sol
Não sei bem o que é alegria,
mas deve ser o que senti hoje
E com o peito inflamado de desejos não-maduros
andei por aí exibindo meu sorriso de vidro
daqueles que quebram na primeira pancada
Mas ainda assim era um sorriso
Natural
Sincero
Feliz.
456

MEMÓRIAS

Quando criança
Eu pensava no que iria ser quando crescesse
Agora que cresci
Penso no que poderia ter sido

Eu poderia ter me dedicado mais às brincadeiras de roda
Poderia ter me escondido melhor no esconde-esconde
Deveria ter corrido mais no pega-pega

E agora que cresci eu cometo o mesmo erro:
Fecho os olhos para a minha existência,
como se ela não existisse

Dizem que a criança mora aqui dentro
Pois acho que a minha evaporou
Entre uma tragada e outra

E da inocência
Restou apenas a vaga crença
De que viver talvez valha a pena
456

O CÉTICO PERDIDO



Mamãe vai à missa todo sábado
Ingere a farinha como corpo de Cristo
Se ajoelha no amadeirado
Reza por seu filho
Durante a semana
Ela põe o copo de água benzida ao lado da televisão
Me pede para tomar a água
Me faz pedir perdão
Me pergunta o porquê eu fujo de Deus
Diz que Jesus me ama
-É por isso que fujo, mamãe
Não gosto de compromissos-

De segunda a segunda
Comungo no bar
Bêbados contando suas histórias tristes
Dizendo como as mulheres belas são cruéis
Ah, meu sagrado boteco
Templo sagrado dos perdidos
Lugar onde se unem até os inimigos
Cantando histórias de amores antigos
Que o tempo não abençoou
A vodka desce ardendo
A garganta grita
E então sinto a vida

É, mamãe
A senhora criou um cético perdido
Que faz questão de morrer todas as noites
Só pra acordar no outro dia
E ver que está vivo
501

OS RÉPTEIS



As costas estão leves
O peso se esvaiu
Os ombros são vazios
Mas isso não é bom;

Apenas indica
Que a arte da vida
Vazou pelos póros
Como um suor sorrateiro
A escorrer pela testa

Amigo, você bem sabe
Nós investimos muito na vida
Antes de decidir que não valia mais a pena

Vimos esperança nos esquifes tortos
Acreditamos na cura da doença que entristece
Entristece e enrijece os músculos do rosto
Até que esquecemos como é sorrir de novo

Avançamos no sinal vermelho
Porque sabíamos que não podíamos esperar
Provamos o gosto da natureza
Reconhecemos o cheiro das ervas
Só para termos certeza que não viram nada
E que no fim, apenas as cápsulas podem nos salvar

-Ou pelo menos adiar nosso fim-

Não há nada que se compare
Ao esforço de criar esse poema;
As mãos trepidando
Enquanto moldam estes versos
Que depois de prontos nos engolem
Feito um réptil a cruzar as águas em busca de carne

Os versos, meu amigo
São nós mesmos.
516

REALIDADE DÉBIL

Um pássaro voa de asas abertas e eu caminho na rua de mãos fixas nos bolsos. Os prédios que são muito grandes ou nós que somos muito pequenos? A realidade é débil,e qual a probabilidade de tudo ser um delírio? Talvez o louco sejao único são. Somos resultados de sonhos não realizados e expectativas não preenchidas. O sol queima para provar que somos fracos e vulneráveis. Caminhamos sob o mesmo céu e sobre a mesma terra fofa que no fim nos cobrirá e cortará as vísceras como um gume de veludo. A vida é tão previsível como um filme de romance. Leio que um homem qualquer liquidou-se. Matou-se. Ou amou-se demais para continuar neste mundo que sequer sabia seu nome; quem dirá o que sentia!
496

O QUE SERIA O POETA?

O poeta se fosse um animal
seria uma cobra a se enrolar e
se alimentar da própria cauda
e provar do próprio veneno
O poema se fosse um material
seria um ácido a corroer a pele,
a destruir a carne, a tornar
a massa disforme conforme os versos
Mas ao contrário, o poeta é um
homenzinho franzino, uma mulher
bem apessoada, ou na pior das hipóteses
um jovem sonhador
e o poema não passa de lágrimas
que a gente não consegue chorar
que crispa a alma e luta cara a cara
com o pior dos inimigos: nós mesmos
471

DEIXE OS MORTOS MORREREM

Dancemos a valsa da vida
enquanto não há terra sobre nossos pés
Travemos então uma conversa fiada
Enquanto o silêncio não cala nossas cordas vocais
Me chame para jantar
Antes que meu corpo seja alimento da eternidade

Pois depois de morto, quero morrer apenas.

Não evoque meu nome
Com palavras que deveriam ter sido ditas e não foram
Não importune meu ramo de ossos
Com lágrimas atrasadas

Deixe os mortos morrerem

Deixe-me viver minha morte
Sem nenhum consolo de vida

Pois a vida é todos os dias

Mas a morte é uma só.
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AS RAÍZES


O amor que criou raízes
Eu nunca pude esquecer

Ofereci como uma flor
a quem era digno apenas de pedras

A tristeza segue me lapidando
e não o contrário
Sou maleável como argila
E tomo a forma que a solidão deseja

-Às vezes sou um pássaro
Preso na gaiola da paixão
Outrora sou a própria saudade
Me encarando no espelho-

Certa vez me disseram:
-Não há luz no fim do túnel
para quem está cego de amor

Mas eu sou poeta!
E não há poesia
Sem essas sensibilidadezinhas

E assim nascem os versos
Que vou pichando
Nos becos escuros do coração

O outono pode chegar e derrubar todas as folhas do amor
Mas suas raízes seguirão intactas
Independente da estação
503

Comentários (3)

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Junior
Junior

Te adoro!

Luíz Almeida
Luíz Almeida

Olá, curti bastante esse seu poema. Gostaria de ver mais poemas assim! Gostei bastante, minha esposa também gostou bastante dos poemas. Boa sorte no seu trabalho! Rsrs

fernando
fernando

nossa que dahora esse poema nossa mt dahora oloco muito bom dahora