gabrielperalta217

gabrielperalta217

n. 1997 BR BR

Ás vezes escrevo um pouco

n. 1997-07-15, Canoas

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Sobre a pouca vida que tive

a pouca vida que se vive
permito que a lua ilumine
tragédia de infinitas cores
algumas linhas já define

a pouca vida que pude viver
nela estive pouco tempo
o passado surge hoje
me roubando o momento

á pouca vida que chamei vida
não sei se posso assim dizer
as poucas pessoas que ficaram
ficaram sem me ensinar a viver

há pouca vida restante
repousa no vazio da mente
parte procuro discernir
parte está no presente

a pouca vida que está por vir
como um dia todos se vive
algum dia estive na vida?
duvido que em algum deles estive

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Poemas

21

Eu não minto

não é esse o fato

não sou o único que desconhece a felicidade
não sou o único que caminha a esmo pela cidade
não sou o único a detestar o mal do mundo
não sou o único a pensar no absurdo

o fato é

ninguém conhece a felicidade
ninguém sabe onde estará
ninguém concorda com a maldade
ninguém deixou de pensar

a única diferença
é que eu não minto

193

Escrito nas paredes

As paredes estão sempre ali, todos os dias.
Faça chuva ou faça sol, imperturbáveis.
Quem sabe eu escreva nessas paredes,
Para as palavras viverem e ficarem sempre ali,
Faça chuva ou faça sol, imperturbáveis.
Eu escreveria:

Teus olhos vêem
Aquilo que querem ver
Os dias passam
Te fazem envelhecer

Deixe estar
Os dias vão passar
Seja entre ou através
Te escapando pelas mãos
Ou pelos pés

Uma crença teus dias encerrará
Todos são diferentes
Todos serão iguais
Me fazem ir pra frente
Me farão olhar pra trás

Palavras são apenas
Paredes caladas
Há muito para dizer
Mas não dizem nada

Não escrevo nas paredes
Minhas linhas são perturbadas
Hoje estão sérias
Amanhã já contam piadas

Escrevo em um caderno
Ele acompanha minhas viradas
Quando as linhas acabam
Me apresentam a próxima página

176

Em algum lugar

Em algum lugar está
Uma nau distante
Onde o vento arrasta
Um desejo cortante
De nunca estar
Sempre ser

Sempre serei
Navego pelo mar infinito
Observo a crista das ondas
Acordo com um grito
Pois não há nada a temer
Nada há para esconder

Onde vivia
Não constumava acordar gritando
Pois em cada janela
Há alguém escutando

Me sufocava essa tal liberdade
Que todos compartilhavam nessa cidade

178

Brancura as cabelos e mofo nas paredes

Quem sabe essas lembranças irão se pôr com o sol de amanhã
quem sabe essas meias verdades se tornem inteiras de algum modo
e esse chão colha somente as folhas da amizade e perseverança

quem sabe esse tempo dê algo a mais do que somente brancura aos cabelos e mofo nas paredes
quem sabe esse horror tenha seu fim mais breve do que esperado

e eu que tantas vezes me vi calado
esperando o momento de dizer
sempre observando os passantes
observando sem ser observado

nesse momento em que chove
chove? pois não ouço
sim. chove, mas não aqui
mas em algum lugar chove

há sempre sol em algum lugar
sempre chuva em algum lugar
onde, então, há alguém?
onde há pessoas que lembrem?

há, em algum lugar, uma morada
feita de tijolos, um sob o outro
com uma porta grande e pesada
que se encontra muito longe nessa entrada

estrada essa serpenteia pelos vales da alma
e sai na floresta da solidão
uma após a outra, as árvores vão
uma após a outra, nessa ida é tudo vão
tudo é dúvida e desencontro
tudo que construo, logo desmonto

e nessas idas e vindas da alma
estou sempre entre essa e a outra
a sensação de que tudo é falso
por dentro
a vida triste e cruel
por fora

195

Confissão de uma alma fria

Não me surpreendo com esse cansaço matinal
Nem com o frio que me invade os pulmões nas noites frias
Não espero nada diferente do normal
Não rezo por um milagre em minha vida

Não me surpreende o vazio dessa existência
Nem o vão entre cada palavra
O desgosto invade cada experiência
O desafeto está às margens da estrada

O vento canta com as decepções do dia a dia
Sonhos se perdem no emaranhado da minha agonia

Lá estava eu destinado a grandeza
Indo de encontro a felicidade
Mas escolhi os dias amargos
Escolhi o fardo implacável
Escolhi o peso da eternidade

176

Colhi flores no seu jardim

a imensidão sem fim
milhões de flores que colhi em seu jardim
perdi todas
hoje apenas convivo com a perda
e com o leve aroma da flor
ou será somente a lembrança
a pregar peças com a minha dor?

não sei mais

não digo mais o certo
pois minha certeza eram suas mãos
que me seguravam na escuridão
não me deixavam cair
na mais doce tentação

estou sempre de prontidão

elas se foram
deixando com elas a lembrança do toque
suave carícia da noite
como se fosse o vento

eu costumava jogar minhas palavras ao vento
seja ele quente ou frio
eu costumava brincar com o tempo
dizer amanhã ou depois
dizer ontem ou antes até

o tempo e o vento me acompanham

169

Noite

Não me desperte desse sono
Durmo sem hora pra acordar
As horas passam preguiçosas
Meu sonhos seguem eternos
Sem ter hora para parar

Minhas noites são eternas
É sempre noite para quem dorme
Em meu sonhos sou um rei, um deus
Um viajante sem ter onde ir

Ó noite sem lua e sem estrelas
A me velar por horas e horas
Dentre as deusas tu és a mais bela
Suas tranças balançam com o vento
Fique! Não quero que vás embora
 

201

Novos tempos

Em outros tempos há
Alguma coisa em que eu possa me basear
Uma vocação, um sonho, um amor talvez

Nos tempos daqui a vida está resumida
Em uma singela esperança:
Os novos tempos serão melhores!
Os novos tempos são sempre melhores

E nessas esperanças vazias construímos tudo
Base, paredes e teto
Janelas, portas e portinholas
E se precisarmos de mais um quarto futuramente?
Derruba-se uma parede e levanta-se outra mais pros fundos
Há sempre mais espaço em uma esperança vazia
Leva esses tijolos daqui até lá
É preciso mais cimento daqui uns dias

Só podemos carregar
Que nossos braços suportam
E os alicerces suportam uma certa quantidade de tijolos
Mas nesses novos tempos
Há mais quartos sendo construídos
Todos os dias

166

O mais vazio

O problema é o pedaço que você deixou
dentre eles, o mais vazio
e o tanto que ficou, onde está?
nas águas de um silêncio frio

a sinceridade corrói
aos poucos deixa oco
e o vazio das noites
aos poucos me deixou louco

165

O acaso me encontrou

Hoje o acaso me encontrou
não pediu nada
apenas abriu a porta
e se aproximou

sua presença não me assusta
mas sei o que significa
nada de esperança para mim
nessa vida injusta

trazei todos para assistirem
o espetáculo do momento
medo, choro, raiva e desespero
os acasos que me acometem

esses acasos me encontram
nada tenho do que reclamar
os pesadelos me invadem os dias
tudo está onde deveria estar

o que dizem sobre essa chuva
e sobre os ventos que invadem
em minha alma sempre chove
há sempre poças em meu jardim

os ventos sussuram
somente para os loucos
pobres mentes que adoeceram
para mim já falta pouco

o que aconteceu
molda o cotidiano
vivo somente de lembranças
mas esse sempre foi o plano

não tenho medo de sofrer
intermináveis eras passaram
fui centenas nesse mundo
estou ciente que me condenaram

as paisagens por onde passo 
são abundantes em seu florescer
pena não poder assistir
estou rápido demais para ver

pai, não me culpe por minha ausência
bendigo a ti e aos teus atos heróicos
como explicar o que ignoro?
como relatar desconhecendo os fatos?

não é por falhares no passado
falhas pois és humano
a renúncia é um gesto de fé
renuncio a todos aqueles anos

não é por religião
tampouco pelas histórias
te guardo sempre comigo
jamais sairá de minha memória

apenas vejo como tudo isso é falso
o mundo, os homens, as coisas
que por não existirem bastaram
não confio nas pessoas

método triste e sofrido
vivo nesse dilema
de noite sonho com o frio
de dia nada me esquenta

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