gabrielperalta217

gabrielperalta217

n. 1997 BR BR

Ás vezes escrevo um pouco

n. 1997-07-15, Canoas

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Sobre a pouca vida que tive

a pouca vida que se vive
permito que a lua ilumine
tragédia de infinitas cores
algumas linhas já define

a pouca vida que pude viver
nela estive pouco tempo
o passado surge hoje
me roubando o momento

á pouca vida que chamei vida
não sei se posso assim dizer
as poucas pessoas que ficaram
ficaram sem me ensinar a viver

há pouca vida restante
repousa no vazio da mente
parte procuro discernir
parte está no presente

a pouca vida que está por vir
como um dia todos se vive
algum dia estive na vida?
duvido que em algum deles estive

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Poemas

33

É tudo falso

Não me sinto bem hoje
Há uma inquietação sob meus pés
Alguma noção trágica e sem sentido
Resquícios do que não está mais aqui

Sempre me surpreendo assim
Sentindo a presença do que já se foi
Como a dor de um membro já amputado
Como a dor de uma ferida cicatrizada

Sinto uma tristeza intensa
Uma constante falta de sentido nas coisas
Até em mim
Principalmente em mim

Me sobe um calafrio
Algo não está certo
Penso que deveria contar a alguém
Mas todos já sabem

Qual a diferença entre mim e eles?
Eu não consigo ignorar esse círculo vermelho
Que fica no canto das telas
Não consigo ignorar essa sensação
De que tudo é falso
Tudo isso é uma mentira
Não passamos de personagens de uma comédia sem graça

164

Exatamente nesse momento

É nesse momento
vendo esse verme lhe roendo as entranhas
a poeira social nublando a visão

Sim. É exatamente nesse momento
quando não há ninguém para culpar além de si mesmo
quando você percebe que tinhas esperanças e as jogou fora
teve oportunidades e as deixou passar

é nesse momento
a vulgaridade do cotidiano lhe deixa um gosto ruim na boca
o amargo do café ainda preso nos dentes

toda essa crueldade é real
não pense nem sequer por um momento do contrário

160

Apenas mais uma

É uma das partes mais reverenciosas da nossa arte
a inutilidade berra
enquanto a utilidade cala

Até quando as coisas que amamos
precisarão passar por essa rígida seleção
e até quando nosso coração irá suportar
perder todos os dias essa luta
de bater sem parar
num corpo a muito já falecido?

165

Antigamente eu era eterno

No meu ser há um paraíso
Forjado a punho somente
Martelo e cinzel
De meu próprio inimigo

No meu ser há um abismo
Cavado com angústias
E quase no fundo me vejo
Eternamente
Subindo
 

167

Alguém

Alguém que te faça sonhar
Alguém que te faça refletir
Alguém com quem chorar
Alguém com quem sorrir

Pela vida inteira ei de esperar
Por alguém que me faça repousar
Em teu seio eu vou me deitar
Ouvir por dentro a sua vida pulsar

Vê essas estrelhas de tão fino brilho?
Essas colinas decorando o caminho?
Esse mar infinito como o meu amor?
Essas cores aguardando o sol se por?

Nada se compara à tua perfeição
Traços bordados e cosidos
Pelo mais habilidoso artesão
Nunca em minha existência
Senti assim uma ausência

Título do mais belo livro
Palavra escrita com afinco
Uma mensagem em cada entrelinha
Este poema para chamá-la de minha

191

A escuridão me atacou

Hoje a escuridão me atacou
Refletiu-me a luz da lua
Em sua presença me desfaço
Como se minha alma já fosse sua

Quanto mais luzes acendo aqui embaixo
Menos eu vejo as lá de cima
Tanto me acostumei com a noite
Ajo como se ela já fosse minha

Procurei luas no meu horizonte
Somente estrelas vieram até mim
Foi assim no início
E será assim até o fim

O problema é essa intensidade no ar
Ventos que levam o que não consigo ver
As estrelas me mostram meu futuro
Mas estou longe demais para ver

Hoje a solidão me achou
Não sei se é certo ou errado
Sei que minha vida é bobagem, é nada
Perto desse céu estrelado

Pontos brilhantes ao longe
Derramam em mim seu olhar
Olham minha amada também
Aquela que nunca deixei de amar

O que mais vou querer?
A mesma lua que me cuida, a cuida também
O mesmo sol que me aquece, aquece ela também

O cotidiano é duro e pegajoso
Meu único consolo é o luar
Minhas mãos frias tremem
Quando lembro daquele olhar

Imensidão castanha onde me perdi
Jamais vou me encontrar
Para que objetivos na vida?
Para que sonhos a alcançar?
Minha vida está em suas mãos
Meu sonho é ao seu lado ficar

Sonho esse
Somente sonho será
Sonhos são ilusões lindas
Nunca acontecerá

177

Das folhas à raiz

há lembranças, memórias
opiniões perigosas
que melhor ficam
aprisionadas
túmulo das ideias
nunca reveladas

há no solo de terra escura
entre as folhas algumas gravuras
os traços mudam com os ventos
eterno epitáfio desses sentimentos

bem no fundo do baú há uma carta lacrada
palavras que não posso dizer em voz alta
contam da minha alma o que se perdeu
frases tão confusas quanto eu

contorno as palavras para poder dizer
aquilo que não deixo ninguém ver
escondo nos versos sem sentido
a dor que guardarei sempre comigo

as várias facetas da obra são necessárias
o mundo inteiro é pura interpretação
dentro da pele escondo muitas marcas
usada para revestir o próprio artesão

nunca ninguém entendeu
morrerei uma incógnita
dentre todas as geleiras
fui sempre a mais sólida

não se preocupe
nem peça perdão
pois nem mesmo eu 
entendi de antemão

além fui há muito
nada tenho de meu
minha alma é escura
no coração somente breu

meu chão vibra com essas ideias
me fortalece e me mantém vivo
sou assim das folhas à raiz
mesmo que não faça nenhum sentido

208

Poesia do século passado

Sinto algo no vento
Há uma falha perversa
Sinto nessas atitudes
E nesses momentos
personagem que regressa
o sinto por não sentir
leve neblina que desceu 
á altura dos olhos está
está sim, o percebo ferir
regressa pois não morreu

distante me encontro de todos
vês o horizonte? lá estou
ameaçando essas barreiras
sou assim desde moço
memórias que um dia perdi
relembro onde tudo começou
por pensar dessa maneira
afundo em meu poço
mas que ainda estão aqui
jamais sairei desse calabouço
 

259

A prisão que liberta

Vê-me aqui novamente
a desfilar sobre as circustâncias?
a escrita soma á minha vida
certo aroma ás essências

aroma esse que eleva
traz a lua e me deixa mirando as estrelas
durante as máximas de linhas e pontos
difere alguma ou são as mesmas?

cada livro é um abismo
cada capítulo uma danação
em cada frase eu afundo
e em cada letra há uma renovação

não me fio a um objetivo
nem espero algum final
minha anatomia me define
casca de um humano
sobre a carne de um animal

a realidade me cansa
há muitas pessoas por aqui
nessa ilusão eu me prendi
e a chave eu perdi

celas com barras de metal
vejo entre elas
cabeças baixas
corpos moribundos
passos sem direção
olhares de olhos fundos

deixe-me aqui
observando o cotidiano
dentro de mim ainda sou jovem
lá fora envelheço 
décadas a cada ano

232

Diamante

Em qual estrada perdi-me, eu andarilho
a terra passa por mim como se de vento eu fosse
e se não fosse
apenas eu a ir nesse trilho
e nessas vias lotadas de olhares vãos

o diamante é único pois não morre
o amor é duro, pois sofre
a vida é falha, porque não és meu diamante
a brilhar na ida incessante,
na indefinida volta.
talvez a ida seja apenas o retorno
lapidei na calada da noite
onde meus olhos viam teu vulto
a se mover em meio ao ambiente escuro

quisera que não houvesse volta
se minha ida for a teus braços
quisera ser apenas um ponto
perdido em seus espaços

minha vida em uma outra existência
baseada no fruto da obediência
em minha ciência há tantos versos
refrões inteiros mas desconexos

quisera não haver despedida
se minha ida
a deixar entristecida

quisera não haver paz
se na lápide que aqui jaz
morreu um soldado sem lutar
faleceu de tanto te amar

quisera poder te ver
ao longe a certeza de ser
aquela boca a tremer
e dizer
que saudade sinto de você

quisera ser o luar
te iluminar
fazer sua noite brilhar
e da umidade do meu chorar
te beijar as faces
com o orvalho que a manhã traz

quisera poder acordar
virar para o lado e pensar
que lindo anjo a sonhar
até em teus sonhos irei te guardar

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