A fila do domingo - Conto
Todo domingo era a mesma rotina. Levantava-se ainda de madrugada, preparava a comida, se maquiava, vestia o "uniforme" e ia visitá-lo na cadeia. A rotina já durava quase um ano e apesar do cansaço de uma semana inteira de trabalho duro e mal remunerado, ela se sentia feliz em poder encontrar ainda que semanalmente o amor de sua vida.
Ele estava mudado, não era mais aquele homem grosseiro, intransigente, autoritário e violento de antes. Agora escrevia lindas e longas cartas, dizendo o quanto a amava e como sentia-se arrependido por não ter lhe dado o devido valor enquanto ainda era um homem livre. Ela lia tudo e sonhava com o dia em que seriam felizes novamente. No fundo se sentia culpada, afinal, ele fez o que fez para dar a ela a "vida de rainha" que ela tanto queria.
Chegou o dia de voltar pra casa e ela estava lá, toda arrumada e perfumada para levá-lo pra casa e enfim viverem o sonho que ele a prometeu. Mas no primeiro dia em casa, ele optou por comemorar com os "parceiros" e a deixou sozinha e esperando até amanhecer o dia, com o jantar ainda na mesa, preparado com todo amor e expectativa para uma noite de amor.
Quando ele entrou em casa, o cheiro de álcool e a péssima aparência denunciou a ela o retorno do marido, tal qual ele sempre foi.
E ela voltaria à fila aos domingos, era só questão de tempo!
(Gi Oliveira)
Migalhas cíclicas.
Era filha de mãe solteira, que deixou de estudar pra trabalhar e dar o que comer a criança, que depois de crescida jurou que sua vida seria diferente da vida da mãe. Estudaria, faria faculdade, seria alguém importante.
Mas então conheceu um jovem e por ele enamorou-se, e jurou que seriam felizes, porque ele a amava e a tratava como uma princesa. Cuidava dela, tomava as decisões por ela, assim ela não precisava se preocupar com nada. Até adivinhava seus pensamentos. Quando ela engravidou, ele não fez como seu pai, que sumiu, ele a levou pra morar com ele. Na pequena casa que ele dividia com a mãe e mais dois irmãos. Não era exatamente como ela tinha sonhado, mas ela estava feliz. Quando a barriga estava muito grande, ele achou melhor que ela abandonasse a escola, afinal, era muito cansativo e o bebê poderia nascer a qualquer momento. Mas depois ela voltaria, claro.
O bebê nasceu, ela nunca mais voltou pra escola, não trabalhava, ele não permitia, afinal, teria que ganhar um excelente salário pra valer a pena deixar o pequeno com alguém, mas sem estudo, só teria pequenos trabalhos com salários mínimos e ela estava feliz, não queria contrariá-lo.
Cada vez que precisava de algo, pedia ao jovem marido que nem sempre podia dar. E com o tempo, ele passou a se irritar cada vez que ela lhe pedia algo. E pra não precisar ouvir as "lamentações" da esposa, saia do trabalho e ficava no bar até altas horas e quando chegava em casa, a esposa e o filho já dormiam. E seguiram a vida assim. Ele fugindo e oferecendo migalhas, enquanto ela se lembrava de quando sonhava em ter uma vida diferente da vida que a mãe teve.
(Gi Oliveira)
Na casa da vó Ana.
Na casa da vó Ana
Tem um pé de banana
Tem caldo de cana
Tem a cadela Moana.
Na casa da vó Ana,
Tem doce e tem salgado
Tem vestido de babado
E tem abraço bem apertado.
Na casa da vó Ana,
Tem mimo e brincadeira
Tem jogo de "pega bandeira"
E tem sempre um bolo na assadeira.
Na casa da vó Ana,
Tem tudo que há de melhor em mim
Tem uma bela sombra no jardim
Lá não me alcança nada de ruim.
(Gi Oliveira)
A última hora!
Faça o que tiver pra fazer
Enquanto o tempo permitir
Não deixe pra se arrepender
Na hora de partir
A vida parece longa
Mas isso é uma ilusão
Hoje você está aqui
Amanhã pode ser que não.
(Gi Oliveira)
O eterno fingir!
Você finge estar bem
Finge que ama
Finge no trabalho
E finge na cama.
Você finge tão bem
Que chega acreditar
Que tudo está bem
Só que não está.
Mas quem te conhece
Finge não perceber
Que todo seu fingimento
É só um meio de sobreviver.
E fingindo todos estamos
Uns sem querer, outros querendo
E seguimos a vida assim
Num eterno fingimento.
(Gi Oliveira)