Gisele Leite

Gisele Leite

n. 1972 BR BR

n. 1972-10-23, Rio de Janeiro - Brasil

Perfil
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Lágrima de cristal

quero a lágrima de cristal

percorrendo

um rosto esculpido em pedra-sabão

perfeita então



quero descubrir esses monumentos

que hoje, somente hoje,

me comoveram tanto...



o belisco,

a Praça Paris,

o teatro municipal plagiado do francês



a marselhesa da Piaf...

tudo hoje me comove tanto

que chega me

sufocar...

aonde entro, em qualquer lugar

as emoções transbordam e,



jorram em meus olhos

contínua e lentamente...

de repente me ocorre

uma estúpida lucidez de tudo

mais tão nítida que me assusta...

fico

perto da morte,

e me imagino no meu próprio velório



vejo a montanha de

artigos que escrevi,

as poesias que desenhei,

os quadros que pintei



todo meu legado é exatamente o quê?

uma lágrima de cristal esculpida num

rosto de pedra-sabão



Ler poema completo
Biografia
Professora universitária, pedagoga, advogada, mestre em Direito, mestre em Filosofia, Doutora em Direito. Pesquisadora-Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas.
Articulista e colunista das principais revistas jurídicas e sites jurídicos.

Poemas

3

Civilidade

Matamos o mosquito
Eliminamos matas e florestas
Diminuímos a vida do planeta
Desarticulamos ecossistemas

Crueldades e tragédias tornam-se banais
Como o bater de portas ou janelas,
Vulcões em erupção, terremotos e
tsunamis

O mundo se revolta com o poder humano
E força da natureza lhe sussurra a sentença
animal,,,

Matamos insetos e o vizinho
Providenciamos guerras santas
Por razões bastardas
Entramos nas cabeças humanas
como trepanação
Lavamos suas idéias, opiniões e
olhos

E, diante da mais absoluta cegueira
Poupamos a luz, como se tudo
já não fosse treva ou ilusão

Poupamos o caminho, como se tudo não
já fosse vácuo
Poupamos afeto
Como se tudo não fosse indiferença.
Desumanizamo-nos.
Trancados no mais caro patamar da
civilidade.
O veneno intragável de não poder ser
apenas natural.
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Esses Versos

Há nesses versos muito de mim
De meu hálito, suor e sangue
Mas principalmente
lágrimas

Em especial,
as que não derramei
Há um cais vazio e repleto
Mutilado por navios perdidos

Há luz e escuridão
Há pausa e o dínamo
Veloz e eloqüente

Do pensamento poético
A percorrer os perímetros possíveis
E irrazoáveis da paixão humana.

Há o alvorecer silente do outono
Há uma Guernica em chamas
Gritando por misericórdia
Que ninguém entende.

E, pior que ninguém atende.
Há uma soleira branca
A espera do primeiro passo

Há uma janela entreaberta
A espera do primeiro raio de sol
E mesmo que não haja sol

Há nesses versos
Miríades de estrelas cadentes
Pontuando segredos,
publicando idéias inconfessáveis

Há na chuva a redenção da água
Lavando tudo, enxaguando tudo
E ainda assim, resta o resíduo de mim

Nesses versos sem rima e com algum lirismo
Suicidas compulsivos
Se jogam numa rede e sem serem
pescados

São garimpados dormentes e permanecem
Vivos pelos suspiros e reticências de quem
Os lê...

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Cárcere

Havia sofrimento impresso nas paredes
Nas frestas exalando solidão e tristeza
Havia mistério desenhado nas sombras
E medo estampado nos olhos


A porta era um umbral inatingível
A chave era milagrosa
sorvia o abismo e o instante
Engolia toda minha esperança


E me sorria ao som do tilintar
Havia apenas penumbras e escaras
na pele, na alma e nos sapatos


O desconforto não era sentir,
perceber e esconder
sob o silêncio dos olhos
o tom hepático e amargo da dor.


A compulsiva dor corrosiva
a dilacerar tudo, boas lembranças,
esperanças e até mesmo o amanhã...


No cárcere os dias não passam
Apenas falecem num monastério oculto
O sol é negro e está de luto.


No cárcere as noites não terminam
Apenas se tornam latentes
e são estranhamente esculpidas
na escuridão da sala.


As janelas, as grades e a impossibilidade de fugir
É apenas mais uma estratégia da loucura,
embalsamada na angústia de perder
a capacidade de amar,


De perder um tempo vivido
e que nunca voltará


No cárcere, o tempo é castigo.
O espaço é inútil
E as palavras azedam bolorentas
Pois foram guardadas dentro do livro
do ressentimento.


No cárcere, a chave não é solução
É a pequena ponta do abismo
a desafiar nossa imaginação e permitir
alguns instantes de ilusão de liberdade...

Por onde a alma vagueia...
Por onde entranham os ventos
Por onde se esfregam
até largar o cheiro...


O cheiro de cárcere
Preso às vestes
e atado aos destinos.


No cárcere o número é
a fantasia do finito.


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