quero a lágrima de cristal
percorrendo
um rosto esculpido em pedra-sabão
perfeita então
quero descubrir esses monumentos
que hoje, somente hoje,
me comoveram tanto...
o belisco,
a Praça Paris,
o teatro municipal plagiado do francês
a marselhesa da Piaf...
tudo hoje me comove tanto
que chega me
sufocar...
aonde entro, em qualquer lugar
as emoções transbordam e,
jorram em meus olhos
contínua e lentamente...
de repente me ocorre
uma estúpida lucidez de tudo
mais tão nítida que me assusta...
fico
perto da morte,
e me imagino no meu próprio velório
vejo a montanha de
artigos que escrevi,
as poesias que desenhei,
os quadros que pintei
todo meu legado é exatamente o quê?
uma lágrima de cristal esculpida num
rosto de pedra-sabão
Professora universitária, pedagoga, advogada, mestre em Direito, mestre em Filosofia, Doutora em Direito. Pesquisadora-Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas.
Articulista e colunista das principais revistas jurídicas e sites jurídicos.
Matamos o mosquito
Eliminamos matas e florestas
Diminuímos a vida do planeta
Desarticulamos ecossistemas
Crueldades e tragédias tornam-se banais
Como o bater de portas ou janelas,
Vulcões em erupção, terremotos e
tsunamis
O mundo se revolta com o poder humano
E força da natureza lhe sussurra a sentença
animal,,,
Matamos insetos e o vizinho
Providenciamos guerras santas
Por razões bastardas
Entramos nas cabeças humanas
como trepanação
Lavamos suas idéias, opiniões e
olhos
E, diante da mais absoluta cegueira
Poupamos a luz, como se tudo
já não fosse treva ou ilusão
Poupamos o caminho, como se tudo não
já fosse vácuo
Poupamos afeto
Como se tudo não fosse indiferença.
Desumanizamo-nos.
Trancados no mais caro patamar da
civilidade.
O veneno intragável de não poder ser
apenas natural.
554
Esses Versos
Há nesses versos muito de mim
De meu hálito, suor e sangue
Mas principalmente
lágrimas
Em especial,
as que não derramei
Há um cais vazio e repleto
Mutilado por navios perdidos
Há luz e escuridão
Há pausa e o dínamo
Veloz e eloqüente
Do pensamento poético
A percorrer os perímetros possíveis
E irrazoáveis da paixão humana.
Há o alvorecer silente do outono
Há uma Guernica em chamas
Gritando por misericórdia
Que ninguém entende.
E, pior que ninguém atende.
Há uma soleira branca
A espera do primeiro passo
Há uma janela entreaberta
A espera do primeiro raio de sol
E mesmo que não haja sol
Há nesses versos
Miríades de estrelas cadentes
Pontuando segredos,
publicando idéias inconfessáveis
Há na chuva a redenção da água
Lavando tudo, enxaguando tudo
E ainda assim, resta o resíduo de mim
Nesses versos sem rima e com algum lirismo
Suicidas compulsivos
Se jogam numa rede e sem serem
pescados
São garimpados dormentes e permanecem
Vivos pelos suspiros e reticências de quem
Os lê...
448
Cárcere
Havia sofrimento impresso nas paredes
Nas frestas exalando solidão e tristeza
Havia mistério desenhado nas sombras
E medo estampado nos olhos
A porta era um umbral inatingível
A chave era milagrosa
sorvia o abismo e o instante
Engolia toda minha esperança
E me sorria ao som do tilintar
Havia apenas penumbras e escaras
na pele, na alma e nos sapatos
O desconforto não era sentir,
perceber e esconder
sob o silêncio dos olhos
o tom hepático e amargo da dor.
A compulsiva dor corrosiva
a dilacerar tudo, boas lembranças,
esperanças e até mesmo o amanhã...
No cárcere os dias não passam
Apenas falecem num monastério oculto
O sol é negro e está de luto.
No cárcere as noites não terminam
Apenas se tornam latentes
e são estranhamente esculpidas
na escuridão da sala.
As janelas, as grades e a impossibilidade de fugir
É apenas mais uma estratégia da loucura,
embalsamada na angústia de perder
a capacidade de amar,
De perder um tempo vivido
e que nunca voltará
No cárcere, o tempo é castigo.
O espaço é inútil
E as palavras azedam bolorentas
Pois foram guardadas dentro do livro
do ressentimento.
No cárcere, a chave não é solução
É a pequena ponta do abismo
a desafiar nossa imaginação e permitir
alguns instantes de ilusão de liberdade...
Por onde a alma vagueia...
Por onde entranham os ventos
Por onde se esfregam
até largar o cheiro...
O cheiro de cárcere
Preso às vestes
e atado aos destinos.
No cárcere o número é
a fantasia do finito.
474
Refém
Capturei sua alma
dentro da essência deste perfume
nesse vidro minúsculo
Embora soubesse que sua alma é imensa
Capturei sua alma
Nos quadros que retratam sóis, chuvas, mar e
embarcações vazias a deriva no horizonte
Sinaletes de sua presença
Atentos a denunciar-lhe na sala
Capturei sua alma
Na trama dos tecidos,
Na teia emboscada das esquinas
No texto de sua lavra
Que vai esgotando tudo,
Sorvendo tudo,
E com seu toque
Humanizando os impossíveis limites
da realidade.
Capture sua alma
Contemporânea
Em cena medieval e romântica
rompendo preconceitos,
rituais e mitos
Por amor à causa.
Ou por causa do amor.
Sua alma é refém de minha poesia,
de meu coração
Somente eu literalmente a possuo
Pois você, não a reconhece
Pois você, não se libertou de seu ego
Dos excessos risíveis...
Somente eu, após libertar sua alma
Poderei fazer com que conheça a liberdade ou
então, a vaga sensação de tontura
Pois a altura lhe dá vertigem
ou será o desconhecido?
E nada é, o que apenas parece ser
Ir além, é um sequestro
Ir além, é livrar-se de ser refém
Correndo todos os riscos e assumindo o visgo
de viver impunemente.
de viver o viés da vida.
575
ser o outro
Não se apressem a responder
as perguntas
Não se apressem a sanar
as dúvidas
Pois estas permanecerão
São mais eternas que os homens
Mais perenes que os sentimentos,
Que todas as lembranças ou memórias
Diante das perguntas
Há um segundo de silêncio e de inquietação
Há angústia plasmada na saliva
Que lubrifica a palavra
Que recheia a boca e a digestão
Não se apressem a ter o que dizer
O que sentir,
O que fazer ...
Pois os discursos, as emoções e os atos
São finitos, limitados, circunstanciados,
Paridos e premidos pelo momento,
Pela genética, pelo inconsciente
Que traiçoeiro
Deixa você responder
Aquilo que jamais pensou
Cogitou, ou revelou diante do imenso
abismo que existe entre dois seres.
O intransponível lugar do outro.
Ser o outro é a única maneira
de dar a resposta
exata.
Na proporção e na ótica correta...
Ser o outro, sem abandonar-se ou renegar-se
Ser o outro por alteridade e compaixão.
Ser o outro apenas para impedir que o silêncio
Mumifique o eterno.
Ou que transforme toda consciência em pó.
591
intertício
A palavra
A eterna prisão de signos
e semântica
As cordas presas do consciente
Os labirintos incompletos do inconsciente
A fonética diafragmática
A corruptela da dor e lágrima
O silêncio nostálgico dos corredores
O alarido das folhas ao vento
O rufar dos tambores
A prenunciar a sentença
Cabeças rolando junto com os pensamentos
E, o perdão surgiu como um tropeção
Como um cadafalso a espreita de sua vítima
Nada faz mais sentido
A dor, a palavra ou sentimento.
Só essa pausa.
Essa única pausa.
Intertício de passado e futuro.
537
amor fatal
Tenho a alma rachada e trincada
Rolou rimbanceira abaixo
E se pendurou na beira do abismo
Minha alma descuidada
vive a viajar ao sabor dos ventos
E morre de frio em invernos imaginários
Sob o sol inclemente da tarde moribundaHá cacos de mim, espalhados em quadros pintados à óleo,
Em partituras, nos teclados e nas palavras
Escolhidas na salada dos momentos
Hoje na fonética miúda dos monossílabos
Só falei não...Ver e sentir por vezes é corrosivo e cruel demais
É melhor apenas imaginar e sonhar
Do que tocar nas sancas da crueldade
Que rodeiam a realidade.Não há arte em viver sem consciência
534
Explícita
Tenho a alma rachada e trincada
Rolou rimbanceira abaixo
E se pendurou na beira do abismo
Minha alma descuidada
vive a viajar ao sabor dos ventos
E morre de frio em invernos imaginários
Sob o sol inclemente da tarde moribundaHá cacos de mim, espalhados em quadros pintados à óleo,
Em partituras, nos teclados e nas palavras
Escolhidas na salada dos momentos
Hoje na fonética miúda dos monossílabos
Só falei não...Ver e sentir por vezes é corrosivo e cruel demais
É melhor apenas imaginar e sonhar
Do que tocar nas sancas da crueldade
Que rodeiam a realidade.Não há arte em viver sem consciência