quero a lágrima de cristal percorrendo um rosto esculpido em pedra-sabão perfeita então
quero descubrir esses monumentos que hoje, somente hoje, me comoveram tanto...
o belisco, a Praça Paris, o teatro municipal plagiado do francês
a marselhesa da Piaf... tudo hoje me comove tanto que chega me sufocar... aonde entro, em qualquer lugar as emoções transbordam e,
jorram em meus olhos contínua e lentamente... de repente me ocorre uma estúpida lucidez de tudo mais tão nítida que me assusta... fico perto da morte, e me imagino no meu próprio velório
vejo a montanha de artigos que escrevi, as poesias que desenhei, os quadros que pintei
todo meu legado é exatamente o quê? uma lágrima de cristal esculpida num rosto de pedra-sabão
Professora universitária, pedagoga, advogada, mestre em Direito, mestre em Filosofia, Doutora em Direito. Pesquisadora-Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas.
Articulista e colunista das principais revistas jurídicas e sites jurídicos.
Tenho a alma rachada e trincada Rolou rimbanceira abaixo E se pendurou na beira do abismo Minha alma descuidada vive a viajar ao sabor dos ventos E morre de frio em invernos imaginários Sob o sol inclemente da tarde moribundaHá cacos de mim, espalhados em quadros pintados à óleo, Em partituras, nos teclados e nas palavras Escolhidas na salada dos momentos Hoje na fonética miúda dos monossílabos Só falei não...Ver e sentir por vezes é corrosivo e cruel demais É melhor apenas imaginar e sonhar Do que tocar nas sancas da crueldade Que rodeiam a realidade.Não há arte em viver sem consciência
536
Explícita
Tenho a alma rachada e trincada Rolou rimbanceira abaixo E se pendurou na beira do abismo Minha alma descuidada vive a viajar ao sabor dos ventos E morre de frio em invernos imaginários Sob o sol inclemente da tarde moribundaHá cacos de mim, espalhados em quadros pintados à óleo, Em partituras, nos teclados e nas palavras Escolhidas na salada dos momentos Hoje na fonética miúda dos monossílabos Só falei não...Ver e sentir por vezes é corrosivo e cruel demais É melhor apenas imaginar e sonhar Do que tocar nas sancas da crueldade Que rodeiam a realidade.Não há arte em viver sem consciência
484
Naufrágio
Tudo afundando
Lentamente
Num mar de enigmas e silêncios
E sumindo, perdendo a forma
Contornando sinuosas curvas
Da imaginação
Tudo afundando
Em lama, em água
Infiltrando-se em sólidos
Insólitos
Pérfuros-contundentes
Cortando, molhando
Dispersando toda a essência
No mar de inquietude e
angústia
Tudo afundando de forma vertical e
Adernada
Solene e
progressivamente apagando-se
Do limiar do horizonte
O risco do arco-íris,
a promessa do cais aberto
Os punhos em riste
E, a palavra imaculada na garganta
Encravada na madrugada
Só a luz permanecera ali
A pairar sobre o mar,
soberana perante a lua e as vagas
Tudo afundando em sangue
Em vermelho pulsante
E coagulando
Escurecendo
Às vistas perdendo imagens
Como lágrimas
As vistas perdendo imagens
Num branco absurdo e opaco
No absurdo da luz no fim das trevas.
Tudo afundando
Em solidão e se perdendo em
retilíneas vertentes
E, quando as retas chegam ao infinito
Descobrimos com saudades
da geografia,
da etnia,
da melodia
encantada do naufrágio
lirismo imaginário das sereias,
da cor improvável das areias
da realidade encoberta de máscaras
de iniqüidade.
Tudo afundando no raso da tarde
Num copo d'água
A sede, o rancor e o porre.
517
Pássaros
Os pássaros estão presos
na gaiola do tempo
Eles voam no presente
pensando no passado
As nuvens fazem parte
do passado
São gasosas e espessas
Esperam as lágrimas
para inundar de tristeza
a reflexão
Os pássaros cantam
E mentem sobre o dia, pois de manhã
Com o horizonte ainda em chamas
Anunciam um dia que
mesmo assim poderá ser chuvoso.
As vezes podemos esquecer....
As vezes podemos lembrar
É tudo é em flash,
É um átimo
Segundos mágicos que
Trazem à memória
a imagem do que foi...
Das lembranças restam apenas
Fagulhas,
Cinzas,
Resquícios
embriagados de lirismo
ou nostalgia.
A ciranda,
A rosa no jardim,
O sino da igreja
O sapato novo
A bicicleta e a conquista
E a velha angústia no peito
De saber que os caminhos
Já foram traçados...
Vou rasgar o rascunho da verdade
E criar a ficção com a fantasia
Recolhida
de um baile de máscara.
769
Lágrima de cristal
quero a lágrima de cristal percorrendo um rosto esculpido em pedra-sabão perfeita então
quero descubrir esses monumentos que hoje, somente hoje, me comoveram tanto...
o belisco, a Praça Paris, o teatro municipal plagiado do francês
a marselhesa da Piaf... tudo hoje me comove tanto que chega me sufocar... aonde entro, em qualquer lugar as emoções transbordam e,
jorram em meus olhos contínua e lentamente... de repente me ocorre uma estúpida lucidez de tudo mais tão nítida que me assusta... fico perto da morte, e me imagino no meu próprio velório
vejo a montanha de artigos que escrevi, as poesias que desenhei, os quadros que pintei
todo meu legado é exatamente o quê? uma lágrima de cristal esculpida num rosto de pedra-sabão
742
Estações
Quando as palavras faltam... Sobram as reticências
Quando os ventos faltam Sobra um imenso horizonte Uma nesga de sol a refletir o final da tarde
Quando os homens faltam, Sobram desertos quentes ou gelados
Inóspitos, Repletos de vidas mortas ou moribundas
Quando as palavras falham Os sentidos completam e Furtam dos gestos a vontade
De ser sutil.
Quando os segredos se esgotam Os mistérios das mil veredas Abertas ao mundo, Abertas nas veias Abertas em feridas
Esgotadas as lágrimas Ainda restam as dores
E como posso parar,
Parar, Estancar o que nem sabe sangrar
Quando as flores murcham
num última primavera quando as folhas vagam num último outono
Quando os amores falham num último verão.
703
Palavra
A palavra é minha aia Minha serva cega e surda A perseguir laboriosamente O que devo dizer,
O que devo sentir, O que devo verbalizar.
Mas há coisas indizíveis
Coisas de silêncio ritual, Coisas que são substanciais Absolutas
E condensadas em si.
Como oxigênio Como suspiro E poesia espalhada no pólen
E levada pelos passarinhos pelos descaminhos da vida.
A palavra é minha aia Nasce com alvorecer E, mesmo quando estou rouca
Lá está a palavra incrustada no corpo, Cristalizada na alma
Como amálgama Como véu que deixa ver e esconde Como o vento que sussurra Estranhos segredos em silêncio.
Observa a aia.
Reverencie a aia Seu labor, seu som, sua cor E sobretudo sua história. Conte as palavras mais importantes de Sua vida. Serão crenças, Serão valores Será você mesmo picado entre fonemas, E disperso no vento.