E você
Pense o que bem quiser
Não posso lhe aprisionar
Na insanidade das minhas convicções
As mesmas que te querem livre
Brincando
Nos jardins da desordem
Dos meus sentimentos
Clarice
Primeira
Mesmo que tente
Não serei capaz
Entender o que quiseste
Nem em esforço
Saberia jamais
Entendo
Não é preciso entender
Sinto demais
E sentir o que foi dito
É muito além de entendimento
Quero nunca entender
Cessará o sentir
O sentido
A partilha
A novidade
A beleza
Que é só tua
De corpo e rosto
De frente e verso
De fase de lua
Regendo a maré
Do sentimento
Que vai muito além
Das linhas e entrelinhas
Segunda
Paixões
Desmedidas indesejadas
Ardem, brasas infernais
Quando pela razão
Deveriam ter
Simplesmente sabor
A carne
A bela
A confusa
São dor.
Paixões
Desmedidas e desejadas
Queimam, fogo celestial
Quando pela razão
Deveriam ser
Simplesmente êxtase
A poetisa
A musa
São nirvana.
Paixões
Doem
Aliviam
Enriquecem
Empobrecem
Paixões
São infelizes
São felizes
Introspecto...
Paixão desmedida,
Prazer de ferida
Alegria de dor
Paixões
São uma.
Você todo dia,
Única!
E sempre a mesma novidade.
Terceira
Não há palavra
Para o que quero
Eu
Espero
Uma Língua
Que tenha
Outra coisa
Que não seja somente
Palavra que defina
Ou de nome
Míssil
Eu,
Míssil teleguiado
Pelo desgoverno absoluto
Do descontrole
Do pensamento
Que explode
Quando se chocam
Ponta de caneta
Folha de caderno
Absurda explosão
Estúpida resolução
Destroços
Destroços estes
São estes mesmos
Estes versos
Grávida
Vejo-te e caminhas
Andar de esperança
Que sejam minhas
Tu e a bela criança.
Rebento vindouro
Surgido de momento
Dum grande estouro
De vultoso sentimento
Cuidado em ter-te
Agora, resta-me espera.
Agrado-me ao ver-te
Como flor em primavera
Surge nova formada
Teu corpo em frente e verso.
A traseira transformada
Meu olhar, nunca disperso.
Estarei contigo, presente.
Barriguda, de seios inchados.
Como mãe, meu ser não sente.
Dedicação e amor doados.
Seremos por hoje apenas
Uma família simples de dois
De almas não pequenas
Para ser de três depois.
Caleidoscópio
Cacos coloridos
Caídos de corpos doloridos
De toda sorte de dores
Sentimentos e cores
De amores roxos
Decepções amarelas
Alegrias azuis
Recolhidos aos montes
Acondicionados com cuidado
Na memória, minha história
De fantasia, linda sinfonia
Choro bom de alívio
De lágrimas opacas
Fracas, tão fracas,
Quase de força escassa
Insistentes em não se derramarem
Por saberem que estavam negras
Com medo de assustar quem as queria fora
Lágrimas de sangue...
Antes assim fossem
Sangue vivo e lavado
Mas assim escuras, levaram todas as cores
Mesmo as tristes que coloriam as dores.
Heteronímia
A ideia de heterônimos seduz-me até a alma.
Mas não é minha,
Nem a alma e nem a ideia,
E não tenho inteligência para isso.
Quero ser eu mesmo
E imitar quem leio
Talvez nem queira ser nem ler
E muito não imitar.
Gostar apenas,
Intransitivamente.
Não vou repartir-me
Nem comigo mesmo
Não quero reinventar-me,
Vai que dê errado
E resulte num assombro.
Isto é um assombro,
Ser eu mesmo comigo mesmo
Aguentando-me sozinho.
Um pseudônimo,
Talvez necessário.
Um disfarce de mim
Só com um nome
Para esconder meu nome,
Mas não quem sou.
Só de pensar nisso
Já me esqueci do meu.
Do pseudônimo ou do nome próprio?
Já nem sei mais,
Confundi-me completamente.
às vezes quero ser o outro
E não outro de dentro de mim mesmo
Com outro nome
Ou com um nome
Que não é meu
E nem é de ninguém.
Melhor se anônimo!
Socorro!
Não sei quem sou
Nem meu nome
Nem se sou heterônimo
Nem se homônimo de alguém
Ou se o pseudônimo será meu próprio nome
E meu heterônimo eu mesmo do avesso
Contradizendo-me o tempo todo
Sem mudar nome, sem mudar pessoa.
Do avesso
Eu existo é pelo avesso
Porque o que sou
Não pode ser visto
É desagradável, indesejável
Então me dou as próprias costas
Rasgo-me pela testa
Meto-me neste corte adentro
E mais um esforço
E estou pronto
Todo direitinho
Do jeitinho que querem ver
Comportadinho e direitinho
Mas por dentro mesmo
Todo do avesso
Avesso a tudo
Avesso ao direito
Avesso às normas
Avesso sempre
Vivo do avesso
Só assim vivo direito
Quer saber?
Vire-me do avesso
Que verás a mesma coisa.
Ajuda de Neruda
Peço-te licença,
Caro Neruda
Empresta-me versos
Preciso de ajuda
Os meus são dispersos
Na penumbra surgida
Em um crepúsculo
O sol tornado
Menos que inteiro
Metade
Menor
Ausente
Meu coração tomado, espremido
Por entre os dedos
Desta penumbra
Restada
Sobrada
Pós-beleza
Empresta-me este verso
Que pôs cheiro nas letras
Cores nas dores
E nomes nas penas
Resta-me o socorro em ti
Meu caro, agora ausente
Grato pela ajuda
Fez-me crepúsculo insistente
Na penumbra gélida e muda.
Quitanda (a Eça de Queirós)
Talvez deva mesmo
Abrir uma boa quitanda
Dedicar meu precioso tempo
Em algo útil, vender comida, fruta.
Lindas mangas, brilhantes de cor intensa
Subjugo meus sentimentos a outro
Que deveras não irá senti-los
Minhas doces mangas
Ah estas sim, sentirão de fato o sabor.
Entrego-me despido
Sem pudores moralistas
Pensando ser altruísta
Que alguém se identifique
E o que vivi lhe sirva de ajuda
Ledo engano
Vou é vender fruta
Mesmo.
'Bom dia senhora'
'Obrigado pela preferência'
'Tchau, até amanhã'
Quanta gentileza!
Apodreçam meus versos
Todos na gaveta
Amadureçam os frutos
Todos na prateleira
Um livro meu?
Só se for do fluxo de caixa
Da minha nova empreitada.
Minha prosa e poesia serão encaixotadas
Junto das berinjelas velhas
Chicórias murchas
Tomates podres
E depois jogados
À terra virgem
Para servirem de adubo
A algo que cresça
E sirva para alguma coisa
Minha quitanda vai chamar-se:
Livraria.
E vai ter livro com casca
E fruta com capa
E versos de cebola
E cachos de letras
E abobrinha do tipo prosa
E poesia do tipo goiaba
E verde...
Só Cesário.
E eu...
Vou ser empresário.
---------------------------------------------
Considerações :
De acordo com uma história que conheço... ao fim da vida, Eça de Queirós disse que teria sido mais útil a sociedade se tivesse aberto uma Quitanda.
Já pensaram?
Completamente livre
Vivo preso num hospício
Chamado 'meu corpo'
Aprisionado dentro da carne
Contido pelas amarras
Das necessidades fisiológicas
Vivo preso num manicômio
Que se chama 'minha mente'
Repleto de jardins,
Fontes e estátuas de musas,
Infindáveis rebanhos errantes
Nas colinas azuis dos delírios
Das árvores cheias de maritacas
Vivo completamente livre
Em um lugar chamado
Sociedade, livre do que quero
Livre do que espero
Livre das minhas idéias
Sou insano e comportado
Louco e consciente
Responsável e doente
Crente na anarquia
Que existe plena
Nas prisões em que
Sou plenamente livre