A Safra que Nunca Fomos
Te arquivei entre as pequenas derrotas que a vida coleciona...
Não como amor perdido,
porque para perder é preciso possuir alguma coisa,
e nós fomos apenas uma promessa
que aprendeu cedo demais a morrer.
Vieste a mim como semente,
e eu, pobre agricultor de afetos,
preparei a terra,
molhei os dias secos,
afastei as pedras que poderiam impedir teu crescimento.
Fiz do meu peito um campo aberto.
Esperei a raiz.
Esperei a flor.
Esperei o milagre simples
de ver algo permanecer.
Mas algumas sementes carregam dentro de si
a própria recusa de nascer.
E agora fico aqui,
com as mãos cheias de terra vazia,
colhendo o fruto amargo
de uma árvore que nunca existiu.
Tu foste embora sem tempestade,
sem aviso,
como quem abandona uma casa
que ainda tinha luz acesa.
E eu fiquei,
vendo meu ego desmanchar lentamente
diante da crueldade de perceber
que todo cuidado do mundo
não convence uma raiz a permanecer.
Não te culpo pelo fim.
Há coisas que nascem condenadas ao silêncio.
Mas há uma revolta em mim:
a de ter amado com tanta certeza
algo que escolheu existir apenas enquanto era conveniente.
Por isso te guardo aqui,
não no lugar das lembranças bonitas,
mas no arquivo das coisas inúteis que floresceram por um instante
e depois tiveram a coragem covarde
de nunca mais voltar.