Helio Valim

Helio Valim

n. 1959 BR BR

Alguém interessado em usar a poesia como uma crônica poética do cotidiano, com realismo e imaginação. Possuo mais de 30 anos no magistério superior tendo lecionado em Instituições de Ensino no Rio de Janeiro.

n. 1959-10-03, Rio de Janeiro

Perfil
21 618 Visualizações

Esconderijo


A pequena porta desbotada,
na fachada do sobrado decadente,
em uma cidade extenuada
esconde tesouro eminente.

Suas prateleiras empoeiradas
guardam inestimável memória,
em livros e brochuras emboloradas,
ornados com intensa glória.

Como pérolas perseguidas,
não há um bom livro que me escape
ou um grande autor que eu resista.

Sendo frequentador costumaz,
no sebo de livros me satisfaço.
No sebo de usados me sinto em paz.
Ler poema completo
Biografia
Alguém interessado em usar a poesia como uma crônica poética do cotidiano, com realismo e imaginação. Possuo mais de 30 anos no magistério superior tendo lecionado em Instituições de Ensino no Rio de Janeiro. Sou mestre em Engenharia, pós-graduado em Metodologia do Ensino Superior e graduado em Engenharia Civil e Arquitetura.

Poemas

64

Seu cheiro de tangerina (Miniconto)

Meu nome é João, um jovem brasileiro, que foi pesquisar a cultura do norte da África, um amante de civilizações antigas. Entre uma civilização e outra, apaixone-me por Isis. Uma linda colega de curso de história na Universidade que frequentava.

Ela, sem que eu soubesse, era filha do líder religioso local. Certo dia, voltando do curso, o pai da garota encontrou-nos, juntos, abraçados.

Não falando a língua portuguesa, começou  discutir em espanhol, língua que dominava devido à ligação com a península Ibérica, através de Gibraltar no Mediterrâneo, e, transtornado, repetia sem parar: “Mira con los ojos no con las manos” ou “Olha com os seus olhos, não com as suas mãos”.

Sem a intensão de ser irônico, mas correndo algum risco, respondi: “En la verdad no. El contemplar completo involucra todos los sentidos. Visión, sentido de escucha, olfato, tacto y el sentido del gusto.” 
Ou seja, “Na verdade, não. A contemplação plena envolve todos os sentidos. Visão, audição, olfato, tato e paladar”.

Só, mais tarde, percebi o quanto minha petulância e insensatez o incomodou. O pai de Isis, não se conformando com a situação, retirou-a da Universidade e proibiu-a de ter qualquer relação comigo.

Confirmando a minha opinião, sobre aqueles cuja profissão de fé é castrar o sentimento dos outros e em nome de uma santa moralidade impõem burcas sobre a humanidade, crendo preservar a castidade.

Apesar de toda a pressão, nos encontramos na casa de um amigo, que aceitou ser nosso álibi. Cada momento compartilhado era intenso e nada mais importava. 

“Bastava a candura do seu olhar
para expor o contato já denunciado
no aroma de tão doce menina,
a impactar e envolver meu olfato
com seu cheiro de tangerina.”

Os encontros clandestinos continuaram até o meu retorno ao Brasil, com o fim dos estudos. Continuamos em contato, por algum tempo, mas a distância e a vida foram esvanecendo desejos “muy calientes” e os nossos caminhos seguiram seus rumos.

Hoje, já não tão jovem, quando recordo esse tempo, lembro-me com saudade do “aroma de tão doce menina, com seu cheiro de tangerina”.
375

Sufocando a cor


Segrega-se, humilha-se... mata-se!
A odiosidade impele a humanidade,
joga-a, sem qualquer dúvida,
no fim da fila das iniquidades.

Não é um pensamento individual.
É uma mácula estrutural,
manchando o cerne da sociedade,
rompendo o frágil tecido social.

Sangrando, imolando... sufocando
a voz da comunidade.
Que, oprimida, revolta-se e grita,
Rebela-se e briga.

Mas, não basta o clamor legítimo das “ruas”,
não basta o calor intenso das chamas.
Deve-se atingir o âmago das almas,
corroídas pelo ódio do preconceito...

Resgatando, então, a humanidade perdida
na fila do descaso e da arbitrariedade,
germes dessa eloquente barbárie.
Agora rechaçada pela “rua” ensandecida!
373

É Arte


Arte é liberdade...

A Arte com a sua subjetividade
completa a humanidade,
recupera nosso inconformismo
e liberta a tão ilibada racionalidade.

Arte é solidariedade...

Uma nação resiliente
não desiste de seus artistas,
não humilha, nem ofende,
aqueles que são tão altruístas.

Arte é caridade...

Doam suas “calientes” almas,
em intensa dramaticidade calma,
dissimulando exuberante emoção
que extrapola qualquer razão.

Arte é criatividade...

Objetos, cores, sons, palavras e luzes.
Quadros, esculturas, palcos e partituras.
Obras sobre diversos dramas e matizes.
A Arte é a vanguarda das loucuras.

Arte é toda arte...
387

Embuste pra todo lado


Nosso mundo tá falido...
Tem embuste pra todo lado...

Vive-se em crise com a verdade.
São tantos farsantes falando em catarse,
criando ruídos, ofuscando a sociedade.
Impostores atordoando a serenidade.

Entrou-se em colisão com a sanidade
de modo a absorver o fim da sinceridade,
mas nem os plácidos, ainda, suportam  
essa perpétua falta de razão.

Os lhanos perderam espaço
para os argutos de plantão,
que vendem pontes, aos incautos,
quem sabe até Plutão.

Oferecem estereótipos pálidos
a uma imensidão de tolos cálidos
que os consomem crédulos,
sem qualquer dúvida, nada céticos...

Nosso mundo tá falido...
Tem embuste pra todo lado...
351

Quadrilha: Uma releitura de Drummond (Miniconto)


Três amigos adolescentes, tão unidos que pareciam uma “quadrilha”, embora possuíssem comportamentos bem diferentes, todos tentaram namorar Lili, uma colega de colégio.

João com um temperamento sanguíneo, era  otimista e impulsivo. Comunicativo queria estudar cinema em Hollywood nos Estados Unidos. Mas tamanha impulsividade, superficialidade e exagero assustaram Lili que não aceitou namorá-lo. Hoje João mora na Califórnia e leciona teatro numa High School no condado de Santa Bárbara.

Raimundo era intenso, colérico, explosivo e impulsivo. Além de muito impaciente. Após pressionar Lili por uma decisão, recebendo resposta negativa, ficou tão transtornado que sofreu um acidente de carro e faleceu.

Joaquim, dos três era o mais sensível, tímido, curtia música e pintura. Mas sendo introvertido, tipicamente melancólico, tinha dificuldade em expor seus sentimentos à Lili. Dos três era aquele que Lili mais gostava. Mas não amava. Frustrado, não resistiu à decepção. Foi encontrado, sem vida, em seu quarto. Morto por overdose. Até hoje fala-se em suicídio.

Nessa mesma época um aluno transferido é incorporado à turma. Fernandes, sem dúvida, fleumático, paciente e disciplinado. Seu equilíbrio e confiança atraíram Lili, que por ele se apaixonou. Namoraram e se casaram logo após à formatura. Portanto, como no poema “Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade, Lili se casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.
178

Orchidaceae


Natureza em forma de quadro,
modelos suaves como num retrato.
Imagem que se fez torpor.
Pura mensagem de amor.

Tamanha fragilidade
revela tua vida efêmera,
quando floresces, sutilmente,
com extrema delicadeza.

Perfume não emanas,
mas com tuas cores encantas
o desatento apaixonado,
que por tua beleza é fisgado.

Tua flor é beijo capturado,
eternamente preservado,
em cromáticas pétalas solares
que se consomem em infindáveis olhares.

Até os embriagados pelo clamor urbano,
atordoados pelo profano,
perdem a eternidade em um segundo
entorpecidos pelo teu etéreo mundo...
173

Amor inacabado (Miniconto)


Paraty, cidade no Rio de Janeiro, cheia de histórias de outras eras, de um tempo mais lento, hoje destino turístico com lindo casario, natureza exuberante e ótima gastronomia. Mas este conto não é sobre gastronomia.

Viajei a Paraty, fora da temporada, para aproveitar um instante de relaxamento. Hospedei-me em uma pousada no Centro Histórico e fui envolvido em uma história fantástica.

Paraty por ser o porto onde o ouro das Minas Gerais era embarcado para Portugal, parte da antiga Estrada Real, a Estrada do Ouro, também, era o local preferido por corsários, piratas com carta de corso, a serviço da rainha da Inglaterra, para capturarem seus tesouros.

Conta a lenda que um comandante corsário após a conquista do seu butim foi perseguido pela Guarda Real, mas durante algum tempo conseguiu se esconder, abrigado por uma dama da sociedade local.

Apaixonaram-se e viveram intensos momentos de amor. Até que o comandante foi encontrado, preso e sumariamente enforcado. A dama sem saber do ocorrido, continuou a escrever cartas de amor, encaminhadas ao Intendente Geral que as devolvia, sem explicações, até a sua morte.

Hospedado no quarto principal da pousada. Sem saber que era o quarto dos amantes. À noite, em um momento na madrugada, ouvi um tortuoso lamento. Percebi um vulto, a silhueta de uma mulher na penumbra, que apontava para a soleira da porta do quarto e chorava. Quando me aproximei ela sumiu e não mais apareceu.

Ao amanhecer, examinando a soleira, encontrei um compartimento secreto, onde, amarrado por um laço de cetim, hibernou por séculos, um maço de cartas de amor.

Conhecendo a lenda, imediatamente, levei-as ao cemitério do Forte Defensor Perpétuo em Paraty e coloquei-as sobre o túmulo do comandante. Enfim, a Dama de Paraty pôde descansar ao lado do seu amado.

Pesquisando a história daquela dama, descobri que ela havia casado, apesar de não ter esquecido o amor corsário, e constituiu uma família, tendo filhos, netos, bisnetos, trinetos... Para minha surpresa, e de vocês, vim a saber que ela era minha antepassada, de um ramo familiar há muito esquecido. Pois é, a vida é escrita assim!
195

Agonia e folia


Colombinas, Pierrôs e Arlequins,
fantasias vestindo a realidade,
enuviando o coração da cidade
com um festival de amores,
um enxoval de luzes e cores...

Explosão de alegrias,
exaltação de emoções
de pessoas e intensões,
de mundos e rotinas,
na ilusão de novas vidas.

Com um sorriso brejeiro,
aproveita seu dia, a bela passista,
marcando seu passo guerreiro,
no compasso de um samba enredo,
puxado na voz rouca do jovem parceiro.

Abafados pelo murmúrio do surdo
ou pelo repenicar ligeiro
do tamborim folheiro.
gritos e sussurros reprimidos,
afloram em amores aguerridos.

Tamanha tensão e agonia
represando tanta loucura
que extravasa em extrema folia
nos quatro dias de carnaval
ou num carnaval de qualquer dia.
183

Lamento a jusante


Incomodados com minhas curvas
retificaram minhas margens,
canalizaram o meu leito
e tornaram as minhas águas turvas.

Enquanto corria livre no meu vale,
alternando minhas voltas,
construíram uma cidade
sobre a minha várzea
sem nenhuma piedade.

Cercearam meu bailar maroto,
interromperam meu respirar,
me empurram seu esgoto
e ainda dizem me amar.

Quando me revolto,
minhas águas eu não controlo...
Transbordo!
Portanto, qualquer chuva apertada
vira, logo, enxurrada.

Então, me xingam,
querem me aterrar,
esquecendo que um dia
em minhas águas foram nadar...
182

Decisão no milharal

No continente do norte,
em um condado do sul,
no milharal encravado,
reúnem-se em dia ensolarado.

Confraternizam em churrasco
com molho, milho e melaço
e veem as eleições presidenciais
segundo suas certezas regionais.

Deliberam o destino
de uma nação
e de um mundo em desatino
com tal situação.

Mais que reacionários
são orgulhosos retrógrados
que se intitulam conservadores,
mas são apenas hipócritas.

Portando a cruz sulista
no braço tatuada
e, na mão, uma espingarda,
sempre carregada.

Rednecks decidem as eleições,
convictos do desígnio divino
que os tornam guardiões
de sua pseudodemocracia.
196

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.