Iago R Carvalho

Iago R Carvalho

n. 2001 BR BR

n. 2001-10-18, Itumbiara

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O truvão cabe no meus trem

Fico imaginando a dor do gramático ao ouvir meus trem
Meus truvão, minhas coisa e meus toró

Dói nos ouvidos maternos as gírias do filho
 Que tudo tá ok pra gente

Dói no ouvido do paulista e do carioca
Quando o nordestino fala das terra e dos cabra do sertão

-Fala certo, mineiro!- Grita-me o gramático
-Fala certo, filho!- Berra a mãe ao jovem
-Fala certo, nordestino!- Berram paulistas e cariocas

Fico no meu canto, aceito gíria, nordeste e mineiro
porque os meu truvão cabe no meus trem
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Poemas

9

Mais um dia

Mais um dia
A noite obscurece o horizonte
Talvez não vejamos mais o céu,
Mas é verdade que ele ainda lá está

Mais um dia
Os deuses horrendos de nossa existência brincam
Com a desgraça tardia
E tentam com seu julgo impiedoso
Mostrar-nos o é que não o é

Mais um dia
Será que realmente poderia o ser?
O ser contempla sua mazela e
Abaixa a cabeça

Mais um dia
Enfia o dedo na chaga
Na esperança de que algo sinta
E possa livrar-se do torpor

Mais um dia
O que é a dor?
Não mais o sei

-Nada sinto nessa ofuscadora escuridão de incertezas
367

Medo

"Vc tem medo dq?"
Vi em um pixo
Na parte baixa de um muro
(Quase não o vi
Era um beco escuro )
Um pouco acima de um latão de lixo
Pensei muito nisso que li
Agora estou aqui
A filosofar
O que me dá medo?
Vou lhes contar:

Medo eu tenho
De quando o homem não se enxergar no outro
De quando o outro ser outro animal
Enviado ao abate
Que enquanto se debate
Vê no algoz um igual

Medo eu tenho
Do avanço indiscriminado da ignorância
Tornando a certeza uma inconstância
O abandono daquilo que é real
Em talvez algo mais sentimental
Subvertendo nossa circunstância
A razão torna-se, de novo, algo frugal

Talvez seja inocência minha
Ter medo de quando o humano
Em seu fervor insano
Tomar para si as rédeas do mundo
Fazendo com que este torne-se um lugar imundo
Nota-se o mundo moribundo
Sobe às narinas um cheiro nauseabundo
A podridão do homem
Em seu esplendor mais profundo

Medo então tenho
De que roubem os olhos seus
Tudo feito em nome de Deus
E assim acabem com a individualidade
Tratando os diferentes
Com mais iniquidade
Medo eu tenho
Do agora
347

Canção do Exílio

I

No vale de árvores mil
Encontro-me na paz feroz
Longe do açoite do algoz
Nesta terra o Brasil

Talvez eu seja um de mil
Que ao alimentar-se dessa noz
Lembre-me que um dia foram nós
Os habitantes de Brasil

É de natureza inverossímil
O som da cana moída por vós
Trabalho incumbido a nós
Pelos ditos senhores de Brasil

O medo faz-me tomar medida vil
Agora separar-me-ei de vós
Pois já escuto ao longe o algoz
Saindo de seu covil

II

O frio reconfortante
Embebeda-me com sua paz nauseabunda
Em meio à natureza profunda
Dessa terra estonteante

Como os fluídos do amante
Escorre pela coluna corcunda
Da cervical até a bunda
O suco de cheiro enfastiante

A dor pujante
Lembra-me da antiga rotunda
De uma tribo moribunda
Agora uma lembrança distante

Por sobre o rosto enfante
Vermes vindos da terra fecunda
Adentram a enclausura moribunda
De um espírito delirante

III

Como sinto falta da floresta!
Que um dia para nós fora
Uma irmã, mãe e protetora
Desta, agora nada resta

Encontro-me agora nesta
Retornando à fauna e à flora
Pela boca do verme que me devora
Para dar vida à Mãe-floresta

Talvez fique indigesta
Com o filho que agora
Sentindo medo de viver lá fora
Retorna de maneira funesta

O corpo que a natureza empresta
Ao nativo que vos fala agora
Nunca calçará a espora
Que deixa a natureza indigesta
361

Soneto

Oh! Como é doce a lira de um poeta
Que na calada da noite penteia
Prantos reticentes que a alma anseia
A dor como princípio e por meta

Assim como artefato de profeta
A poesia por minh'alma pigarreia
E quando a mente dela se enxameia
Faz trabalhar a mente do poeta

O leitor que pela poesia vã
Destroça em vida sua mente sã
De uma maneira mais vil e dantesca

Queira eu em minha vida de escritor
Nunca com minha escrita causar dor
Tira-me desta sina vilanesca
367

Epitáfio de um poeta

Sorrio, embora apodrecido. Temo continuar a ser quem sou: um raio de inconstância em um mundo estático. Abro mão do indivíduo e aceito o acalento vindo do inconcebível. A imaginação, que outrora fora rainha de nossa existência é hoje banida e maltratada, tornando amarga nossa vivência. O último desejo de minh'alma é o terno abraço da terra e o beijo podre dos vermes decompositores, almejo deitar para sempre ao lado da deusa esquecida de um mundo perdido. Aqui, meus amigos, jaz um jovem imaginador vencido.
346

O ofício dolente

Sou só mais um ser ignavo
que no meio da noite pranteia em segredo
A dor que permeia o triste escravo.

Enquimero-me nas peles putrefatas
daqueles que não tem voz
Sentindo a dor que pesa suas omoplatas.

Penso que sinto… nunca saberei
Abraço a desonra do trabalho
de rir-me do rei.

Quem serei?
Não sei
             -O poeta sofre no sofrimento que não lhe pertence
286

Mutilar-se

Mutilo-me
E das feridas escorre o sangue roto de um morto
                                                              [Que ainda vive
Vive?
A vida é uma mentira contada para as crianças
E as mesmas crianças
Ja na fase adulta percebem a mentira
E, como eu, mutilam-se
Mutilam-se para se adequarem ao que as açoita
O açoite abre chagas em suas costas
E das feridas escorre o mesmo sangue roto
Sangue esse que, atingindo a terra,
Desperta os demônios que açoitam meu espírito
E do sangue que respiga tornam-se os versos
Que entram no vazio de quem não sente
E dos versos de sangue preencho-me de poesia
287

Mutilar-se

Mutilo-me
E das feridas escorre o sangue roto de um morto
                                                              [Que ainda vive
Vive?
A vida é uma mentira contada para as crianças
E as mesmas crianças
Ja na fase adulta percebem a mentira
E, como eu, mutilam-se
Mutilam-se para se adequarem ao que as açoita
O açoite abre chagas em suas costas
E das feridas escorre o mesmo sangue roto
Sangue esse que, atingindo a terra,
Desperta os demônios que açoitam meu espírito
E do sangue que respiga tornam-se os versos
Que entram no vazio de quem não sente
E dos versos de sangue preencho-me de poesia
194

Trago a voz

Não vos trago flores
Muito menos os trôpegos amores
Dos quais os meus falam sobre
Não vos trago a alegria e felicidade
Sobre a qual erigiram redômas de ouro
Não vos trago a bondade inexistente
Nas almas humanas
Não vos trago a beleza ideal
Da bela dama que guia a liberdade
Não vos trago alvas tinturas
Que recobriam os desenhos de iluminuras podres
Não vos trago o semblante divino
De um alto ser piedoso
       -Aqui sou meu alto ser, maldito e indecoroso

Trago a vós o desespero
A dor e a agonia
Trago a vós a verdade sobre o mundo
As coisas nojentas da humanidade
Trago a vós maldições
Que não vos contam nas canções de amor
Trago a vós a representação do mal
Do desejo carnal que nos consome
Trago a vós a voz dos oprimidos
Dos servos putrefatos da miséria humana
Trago a vós a sensação de horror
Que simboliza vossa vida
Trago a vós a realidade
Não a estupidez da ignorância
Trago a vós sobretudo a verdade
O fado horrível da humanidade
Trago a vós o sentimento de desespero
A luz fétida do conhecimento
Trago a voz a noção da ignorância
A percepção de nossa inconstância febril
Trago a vós os fatos
A elegia contemporânea
Trago a vós a noção mundana
Sem a idealização do sentimentalismo natural
Trago Voz aos povos
       -Esquecidos pela arte e pela verdade dos mais novos
285

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