Para fazer um presidente
1 copo de estupidez
1 colher de leite dos tetos do poder
2 golpes de azeite sacro
3 cubos de insensatez
5 xícaras de língua presa
8 taças de burrice
Misture tudo e deixe maturar por trinta anos, sovando de tempos em tempos com doses de palavras maldosas
Rende 4 porções
Poema de José
Ninguém queria ser José
Ninguém almejava ser José
Nem queria filhos Josés
Ninguém dava de comer a José
Ninguém dava de beber a José
Nem queriam que dessem aos Josés
Ninguém lia José
Ninguém escrevia a José
Nem queriam que lessem Josés
A pergunta que fica é:
Será que José é?
Para isso, artes superficiais
Do jardim de Baudelaire colhi as flores do mal.
Na morada de Byron vi todas as voluptas humanas.
Desviei das pedras de Drummond, embora tropeçasse
Vez ou outra.
Dos Anjos, veio-me o Eu podre e ignavo.
Que sou eu então? Construido a partir das obras de outrem.
Danem-se as flores de Baudelaire.
Danem-se as orgias byronianas.
Danem-se as pedras no caminho
E que se dane Eu.
O artista, ao ser precedido de gigantes, sente-se pequeno
Sente que sua arte é copia
Mas… é cópia?
Não é possível que outros homens colham flores
Que outros homens façam orgias e
Que outros homens vejam pedras em seu caminho?
Ao inferno com as comparações!
Minhas flores têm o mesmo perfume do mal
Minhas orgias têm a mesma volupta
Minhas pedras são tão poéticas quanto
E meu Eu é podre como qualquer um
E nessa sina de originalidade vive o poeta
Todas as suas artes parecem artificiais
Droga! Mais uma de Baudelaire.
Valha-te o inferno!
Dir-me-ia na mais pura verdade
Que a situação se esvaíra,
Que na verdade era mentira
A situação do gordo frade.
“Valha-te o inferno!”, Dir-lhe-ia
[toda a cidade.
Sinto que ao mal o frade se unira,
Mas a situação que outrora sentira
Levara-nos a aceitar tal podestade
“Valha-te o inferno!”, dir-te-ei em um sismo
“Não te jogas ao buraco porque te persegue
[ o imaginário.
Te jogas porque te anima o ideário
Que o espera ao fundo do abismo!”.
Em meio às pedras agora chora.
A escuridão que o encobre hodierno,
Rota e pérfida, não mais o namora.
Mesmo que me encontre igualmente, agora,
Dir-te-ei irritado e sem demora:
“Valha-te o inferno!”
Soneto da Natureza violada
Dríades puras que vagueiam pela mata,
Pelos seus corpos nus escorre o orvalho,
Na alvorada quando saem do carvalho,
Cantando e dançando a lira sensata.
Corre o sátiro ardil e ouve a sonata,
Por donde vai deixa podre soalho,
Acha as purezas e brande o cisalho:
Estupra e destrona e desfolha e mata.
Nada mais se ouve no pós-agonia;
Agem os algozes com inocêncio,
Tal como ignorantes de quem sofria
Pregam hipocritamente Prudêncio,
Não do modo que o cristão prescrevia.
A floresta, purgada, está em silêncio.
O truvão cabe no meus trem
Fico imaginando a dor do gramático ao ouvir meus trem
Meus truvão, minhas coisa e meus toró
Dói nos ouvidos maternos as gírias do filho
Que tudo tá ok pra gente
Dói no ouvido do paulista e do carioca
Quando o nordestino fala das terra e dos cabra do sertão
-Fala certo, mineiro!- Grita-me o gramático
-Fala certo, filho!- Berra a mãe ao jovem
-Fala certo, nordestino!- Berram paulistas e cariocas
Fico no meu canto, aceito gíria, nordeste e mineiro
porque os meu truvão cabe no meus trem
Complexo de deus
É estranho o poeta muito religioso
Que cria um mundo indecoroso
De pura magia indiscreta
Na qual ordena e manda, mesmo
[de forma indireta.
E nessa de criar os seus
Embora identifique-se como Prometheus
E com fogo acredite ajudar humanos, os meus,
Faz-se, de certa forma, também deus.
Criam mundos, destroem as vidas.
Tornam a existência de seus eus-líricos,
Pontos em impuros mostos satíricos,
Na qual as égides de seus valores são corroídas.
Chega a não se importar com as vidas cálidas
Criadas para seus propósitos teóricos,
Acredita que em seus textos pictóricos
Não existem existências válidas.
Darei por findo meu discurso infinito
Ao retratar por imagens escritas o que fora dito
Demonstrando a ti as coisas hipócritas
Estruturadas em críticas às teorias demócritas
Do poeta que em sua hipocrisia, ao criar os mundos seus
Faz-se ditador das vidas, tornando-se também deus.