Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

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OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

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Poemas

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PEQUENA ODE PAULISTA

São Paulo! Salve, Mário de Andrade!
Meu coração é como os ferros da Estação da Luz!
Das horas da minha curta e solitária infância
Trago na boca o teu sabor amargo.
Mas de que valem as mãos se não para acenar
E de que vale a boca se não para dizer adeus?
Mas de que vale o coração
Se não para nos seus recônditos abrigos
Guardar uma saudade impertinente?
Saudade sim, das tuas molduras de concreto,
Do teu céu de chumbo e do teu rosto indiferente.
O que seria de mim se não fosse a tua solidão,
São Paulo?
A estrada da vida não é feita de asfalto
Não obstante, nela a grama já não cresce.
Nas ruas nadam peixes de metal
Rumo ao mar que nunca alcançam.
Olhos de vidro das janelas
Passam mirando minha melancolia.
Sou filho dos teus rudes trejeitos, São Paulo.
Da fina garoa que reflete
A tristeza que guardo no meu peito
E as feias flores que crescem na sarjeta
São minhas tristes irmãs neste destino.
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A LÍNGUA DE ÁCIDO

Eu sou a chaga no ânus de Afrodite;
Eu sou a mão que joga pedra na cruz;
Eu sou a nuvem trazendo a tempestade,
Sente o fumo profético de Delfos, ó príncipe.
Eu sou o anjo mal enviado por Deus,
A lira furiosa em mãos de aço e sangue;
Eu sou a mancha na face dos heróis
E a flecha mortal no calcanhar de Aquiles;
Eu sou a estrela na mão dos operários,
Meu brado de fogo afugenta os fantasmas;
Eu sou o titã estremecendo os céus
E as tropas dionisíacas invadindo o Parnaso;
Eu sou o silêncio nos lábios do poeta morto
E a voz que fica presa em por túmulos alheios;
Eu sou o martelo que esmaga os ídolos,
Eu vim pra reviver as ninfas do Tietê;
A minha língua é ácido para os ouvidos
De quem só vê beleza nas telas do passado.
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A NAVE DO PASSADO (SAMBA)

Tenho andado tão calado
Cabisbaixo e desolado
Pelos cantos da cidade.

Já não tenho mais o alento
Dos teus beijos ou os do vento
Nem o abraço da amizade.

Tenho andado tão sozinho
E assim, no meu caminho,
É difícil de seguir.

Sou refém dessa saudade,
Um órfão da felicidade
Que não tem mais onde ir.

Tenho andado desolado
Mas a nave do passado
Explodiu de vez no ar.

Mesmo sendo tão escuro
Ponho os olhos no futuro
E tento continuar.

Se você sentir saudade
E ao andar pela cidade
Vir a vontade de chorar

Saberá que a minha vida
Tão amarga e tão sofrida
Foi difícil de levar

Que eu fui feito uma criança
Cuja única esperança
Era um dia acordar

Em um mundo ensolarado
E na nave do passado
Sem remorsos embarcar.

Mas nós somos estudados
E sabemos que o passado
Ele não existe mais

Sei que tudo que existe
É só um presente triste
Onde os dias são iguais.
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JARDIM SECRETO

Saia do meu jardim, Sol intruso e deixai
Que a noite esconda dos ladrões
As flores que plantei.

Ainda que apenas os beijos do tempo
Arranquem-lhe o perfume e a cor,
Ainda que os morcegos venham violá-las
Como bárbaros em guerra,
Ainda que as crianças pisoteiem
Com os pés da negligência o coração dos lírios
E ainda que sucumbam ao peso
Insuportável da esperança,
Deixai-as longe dos olhos dos ladrões.

Deixai apenas que um soluço brando
Brilhe como uma seta no silêncio-escuro,
Fazendo mãos de gelo se mover no espaço
- O semelhante encontra o semelhante...

Deixai que o beijo incerto de um fuzil
Apontando para a face da noite
Encontre meus olhos repletos de insônia,
Velando o jardim secreto onde enterrei meus deuses,
Onde escondi meu pranto, onde encontrei meu corpo
E onde plantei meu coração.
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