Isabel Pires

Isabel Pires

n. 1964 PT PT

Amar o abismo da descoberta. Sem cair.

n. 1964-01-30, Lisboa

Perfil
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Às vezes basta

às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti

para a vida prosseguir


Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.


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Poemas

6

coordenadas

muito para além das tuas palavras,
é no intervalo delas,
na sedução do que não dizes,
que descubro a luz de todos os verões
para ver o rasto aveludado dos amores imperfeitos
a fazer o chão que me falta.
e falta tanto chão. e casa também.
não é o tempo que falta, é o lugar.
centro fotográfico álvarez bravo | oaxaca de juarez, oaxaca, méxico

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Celebração

é nos dias longos e opacos
que mais me aproximo da tua imagem.

com as mãos abro uma estrada no negrume
que me leva ao mar dos teus olhos
e encontro os teus braços feitos barcos de outubro
a fazer riscos no céu para roubar as estrelas
iguais ao meu vestido, mas que tu não te lembras,
tal era a pressa de me iluminares.

num quase finados
numa quase noite
a disfarçar a timidez com movimentos de lábios
cumpriu a purificação
que lhe escrevera
a ondulados
no lindo lençol de seda negra.

Herbert List | Liguria, Itália, 1936



860

Floral

Há sempre uma imagem que nos fica mais colada à retina. Seja dos locais em que passamos de fugida, seja dos sítios em que repetimos experiências. Pensar na colónia de férias que frequentei durante uns dez anos seguidos traz-me à memória as colchas da camarata. Diria que aquelas cobertas, todas do mesmo padrão florido - seriam rosas ou camélias? - em que só mudava a cor de fundo, eram o elo unificador entre a alegria, o aborrecimento, a festa, os amuos. Não era que passássemos o tempo todo na camarata. Não é nada disso; nós até estávamos lá com a finalidade de ir à praia.

O dia começava com um apito. Levantar às oito. Se não estivéssemos a pé em poucos minutos, vinha um monitor com um púcaro de alumínio cheio de água fria. Era para nos deitar na testa. Ainda experimentei!

O cumprimento das actividades diárias resultava de uma planificação rigorosa e apertada em termos de horários. Todo um encadeado que, hoje, ao pensar, associo a uma linha de montagem. E era, só que com recurso exclusivo a mão-de-obra.

Primeiro, havia a missa. Ninguém ousasse faltar à missa. Seria logo accionado o sistema de penalizações mais pesado. Esfregar aquele chão de madeira, por exemplo. O chão em que assentavam os beliches com as colchas floridas.

Seguia-se o pequeno-almoço, preparado por uma equipa extraída do nosso conjunto e que se revezava conforme uma escala pré-definida. Esse grupo de trabalhadores, que éramos nós, os miúdos, com mais três adultos, arranjava fatias de pão escuro com manteiga e canecas de leite para todos e ainda tínhamos que pôr a mesa. E os outros? Não, não estavam de folga. Faziam as camas e ajudavam nos balneários.

Por muitos dias que passassem, por muitos anos que repetíssemos, acusávamos sempre enfado por aqueles trabalhos, que sentíamos como forçados, embora não soubéssemos usar essa expressão.
Quando chegava a hora de nos sentarmos à mesa, esquecíamos tudo. Não era só a vontade de comer que nos fazia esquecer. Havia as brincadeiras, o pão que se roubava ao miúdo do lado e, ai, os pingos de leite na roupa e, "está quieta, olha aí a manteiga!".

Duas vezes em cada turno, tínhamos uma noite especial. Uma festa em que todos participávamos. Havia sessões de magia - para além da magia de todos os dias! -, declamação de poemas, jogos e, sempre sempre um número com animais em fila, qual arca de Noé ao comprido, que formava um comboio com as colchas floridas das nossas camas.

Tudo isto a juntar àquelas histórias do Miguel e da Clara que nós, os mais pequenos, nunca percebemos bem. Soubemos que aqueles crescidos, quase a passarem para monitores, tinham ido para as rochas - "ai, ninguém podia!", e fazíamos o gesto de tapar a boca - e ouvimos falar de beijos na camarata. Uau!

Então, com tal entrosamento com o dormitório, como podíamos nós esquecer aqueles tecidos verdes, azuis, vermelhos e amarelos, com grandes flores? Afinal, as nossas colchas tinham rosas ou camélias? Vês, também não te lembras...


Robert Doisneau
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Descoberta

Mesmo que transmutada

em palavras

ou ondulações de beijos a marcar as marés

ou até em filamentos geométricos de sorrisos

é sempre a tua luz que encurta a minha solidão.


Jordan Sweke

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Às vezes basta

às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti

para a vida prosseguir


Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.


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No amor


no amor
não é a paixão que leva a melhor,
mas sim o que se extrai do amar lento que não exige nada um ao outro,
a não ser a honestidade,
e em que sabes que estás e ficas e queres continuar,
mesmo que seja a tentar,
porque isso continua a acrescentar-te.

Dominique Issermann




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Comentários (1)

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davinci

muito bom o seu poetar...