SER ADULTO
A maior saudade do adulto
É do seu tempo de criança
Não pelos brinquedos
Não pelo tempo livre
Nem por não ter compromissos
Tampouco pelos sonhos
Muito menos pelos sorrisos
Sente-se falta do afago
Do colo da nossa mãe
Do consolo do nosso tio
Do estranho que se compadece
Da avó que limpa nosso pranto
De alguém que nos ponha no colo
E diga que ficará tudo bem
Pra ser adulto tem que ser forte
Tem que suportar a dor
Tem que sorrir, engolir o choro
Ir em frente e não reclamar da sorte.
Tem dias que
Tem dias que a alma se esgota
Que as palavras não bastam
Que gritos não são ouvidos
Que preces não são atendidas
Tem dias que não sabemos o que somos
E muito menos o que queremos ser
Dias em que nada consola
Que correntes d'aguas caem como cascata
E no entanto, nada molham
Pra esses dias não há ilusões
Nem se sabe se o senhor tempo
Poderá curar...
Ele, apenas, respostas dará
Para esses dias não nos consumir
Para essas dores que nada sara
Paleativamente só nos resta dormir.
SUAVE MISTÉRIO
Tão simples como uma flor
Tão calmo como um rio
Tão sério como uma águia
Traz calma ao meu ser
Ameniza minhas dores
Tão longe, e ainda sim tão perto
Solto e ao mesmo tempo preso
Olhos tão negros, tão serenos
Fixos e petrificantes
Um lago negro e profundo
Que mergulho sem medo
Embora não sinta os pés no chão
O aceito, simples, calmo e sério...
Pois pra sempre será...
Um tão grande mistério!
PEDRAS DA VIDA
Grandes pedras no caminho
Delas desviamos-nos facilmente
Gabamos-nos destes feitos
E mereçemos, pois tivemos força
Para não deixala tornar-se obstaculo
Mas as pequenas... Ah! As pequenas
Silenciosas e invisíveis no caminho
Turva-nos a visão, cega nos
Nelas tropeçamos, fere-nos os dedos
E quiçá até nos levem à queda
Fortes mesmos, os que delas desviam
Que de longe as veem
E não se deixam enganar
Pelo seu insignificante tamanho
Não são apenas fortes, acima disso, sábios
Porque o que se faz visto, é conhecido
Mas o invisível, abriga o perigo...
PERDE A RAZÃO DE SER
Na solidão noturna
Uma leve saudade
De um olhar sereno
Que trisca, mas não toca
Que lembra, mas não pensa
Que de vez em quando sente falta
Mas não chega a ser uma saudade
Um pouco morno, não quente
Um entrar na cachoeira
Apenas pela metade
Um sorriso a meia boca
Um não sei se vou ou se fico
Um suspirar cortado ao meio
Chove, e não molha
Não hoje, talvez amanhã
Ou que sabe depois de amahã
Semana que vem?
Tudo anda, e perde a hora de ser!
JANELA
Olhe olhos tão negros
Tal qual um lago profundo
Águas paradas, porém densas
Deu medo, causou arrepio
Taquicardia repentina
Esses olhos não estranhos
Já o vira outrora
Ou será que não?
Em outra face talvez
Certamente era o mesmo brilho
Não corri, não me escondi
Paralisei...
Tão sério, tão fixo
Tão sóbrios e marcantes
Uma música cuja letra não conheço
E uma canção serena na mente
Olhos negros e profundos...
PALAVRAS
Pergunto insistentemente
O que são palavras
Há tempos era a própria honra
Os conquistadores a usavam
Para seduzir lindas donzelas
Pra outros eram seladas
Com um fio de barba
Tem gente que nelas confiam
Sem nada questionar
Outros delas tudo duvidam
Folhas jogadas ao vento
Que quando está calmo
Quietas elas ficam
Mas basta um vento mais forte
São levadas embora
Perdem-se em si mesmas
Palavras inquietam-me a alma
Mas sozinhas, apenas uma coisa representam
Palavras, apenas palavras...
Palvras conquistam, de única forma
Com ações... precisam de ações
Porque sem ações, perdem-se pra sempre.
Pobre estrela tão alta
Pobre estrela tão alta
Brilha sozinha no seu céu tão escuro
De longe apenas observa
Outras estrelas a brilhar
Mas carrega a certeza
De que tamanho brilho como o seu
Em outra não há
Mesmo tão luzente e ardente
Sabe que só tem que ficar
Que o seu brillho tão lindo
é apenas para se contemplar
Pobre estrela tão alta.
SEGREDO
Um lugar que não sei onde
Um rosto que não defino
Um som que não posso ouvir
Um enigma a descobrir
Diferentes maneiras
De a vida perceber
Comum em algum sentido
Algum pensamento
Em alguma nota
Alguma leitura
Algum momento
Dois segredos
E uma intuição
CRISTAL
Calaram minhas palavras
Já não podem soar aos quatro ventos
Um prenúncio de boas novas
Que se desfez qual bruma
Um toque, trincou-se
O que era, já não é
Tentar reparar,
Quebra e sangra
Arriscar é preciso
Talvez se restaure
E não se despedace
Ou talvez vire pó
E não haja outro fim
Senão um canto qualquer
Que torne um lindo cristal
Guardado, esquecido