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AMOR ONÍRICO

Em pequenas palavras exponho meu mundo,
Transbordado de graça, ao ver-te chegar.
Com efêmero riso em sal me inundo,
Ouvindo a porta, ao teu ir, se fechar.

Recorro aos meus sonhos pra te reencontrar,
E no onírico ponto eu quero estancar;
Pois não quero, jamais, que teu único amante
Pereça de enfado a te esperar.

Itamar F S

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Biografia
'' Por mais que eu me esforce a vida será apenas uma breve lembrança de tudo aquilo que na verdade gostaria de viver.'' _ Itamar FS

Poemas

16

MEU INFERNO

Pelas janelas oculares do meu crânio,
Percebo contos, desencontros e encontros.
Pelas veredas de saudades que eu ando,
Deixo pra trás, poemas, versos e encantos.

Só não persisto em entender esse meu pranto,
O qual me fez acreditar num céu bonito.
Sem harmonia e com tristeza leve, canto:
- Eu vou fazer do meu inferno um paraíso!

Itamar FS
373

ESPELHO


Ao ver-te assentar em minha porta,
Com essas penas e dessa forma,
Animo-me em receber tua visita.

Não penses que não sei de tua história,
És só mais um, que na memória
Sentiu o horror da despedida.

Entra, assenta perto desse louco,
Diz se o que vês é só agouro
Ou se é só mal da solidão.

Nota que o teu medo não é novo,
Também sou eu, um mesmo entojo,
Não és tu, só, a Escuridão.

Então, o que viestes aqui fazer;
Viestes pra me ver morrer
Ou só pra não ficar sozinho?

Conheço bem esse desejo de querer
Olhar nos outros o sofrer
E aliviar o próprio caminho...

Quando o nosso Pai te disse: filho,
Guarda o teu mal ao teu juízo -
O que levou a tua queda?

Foi o segredo que devera não ser dito;
O querer mais descabido;
Ou estava cheio aquela terra?

Ó, inquilino miserável, vens a mim
Como um culpado, assim,
Querendo meu conselho!?

Nunca o terás, Hediondo Querubim,
Somos um só, e pronto, em fim:
Duas faces, um espelho...

Logo tu, que em cima d'uma macieira
Fez-nos saber da verdadeira
Razão de nossa existência;

Por que, Diabo, tua sina derradeira
É tão igual a nossa, e deixa-
Nos iguais na penitencia!?

Dúvida minha, é apenas parcimônia 
Que teima queimar, ness'acrimônia 
- Doudo desejo. Fomos vencidos...

Tu és meu sono e eu tua insônia,
Festins d'antiga Babilônia:
No fim, seremos esquecidos

Em tão cruel tentação de'star ferido
E agonizar, cego, perdido
À procurar um céu aberto...

Por isso tudo que eu sou levo comigo,
Somos um só, e, igual, Amigo:
Ardemo-nos no mesmo inferno! 


Itamar FS

326

AO SERVIÇAL ABUTRE

Voa, mesquinho serviçal de asa umbrosa!
Segue o destino tão banal de tua sina,
Banqueteando-se em vil carnificina,
Desse entulho bestial que decompora.

Chama o rebanho esfomeado, dá seus gritos
Para pousar com frêmito arquejo gutural;
Põe-me as entranhas estendidas, invital,
Há de servir de inspiração para teus filhos!

Ave negreira, irrevogável pestilenta,
Vem espalhar o teu turíbulo necroso,
Fazer do ar nossa memória agourenta...

Mostra a brancura desse ser choruminoso
Sobre o contraste sepulcral de tua pena,
E dá-lhe a chance de brilhar ao sol, de novo!

Itamar FS
323

INSÔNIA

Grita ao meu ouvido esse monstro -
Me desperto; é noite, já é tarde,
Algo me observa, então, covarde,
Eu finjo sono, mas não o encontro.

Cubro-me, e agora estando absconso
Penso: fora só sonho que agora evade, 
Não há segredos, nem há conclave;
Somente eu, sorrindo insonso...

Em vão, me deito... Vou refletir: 
Que besta é essa, sempre a surgir
Quand’olhos fecho, quando descanso?! 

Porque que o sono eu não alcanço?!
E a besta sempre a me exaurir...
Aconteceu que amanheceu e eu não dormi!

Itamar FS
333

ULTIMA DEIXA

Um dia, quando minh'alma decidir morrer,
Assim, um pouco mais do que já morri... ,
Que as pedras da infância, onde eu corri,
Permaneçam pra outros também correr.

E quando esses meus passos nunca dados
Percorrer aquelas ruas num cortejo,
Que as saudades guiem todo o solfejo
Dos choros sobejais dos encarnados.

Por fim, quando me porem no estrado
Para velar-me, à beira da velha capela,
E Chárõn ressurtir pra ser meu guia;

Que o Nada que eu tenho seja o pago;
Que eu fique para trás e, ao pé da vela,
Encontre meu final na lousa fria.

Itamar FS
304

MEU AMOR É COMO UMA SOMBRA

Meu amor é como uma sombra,
Preenche tudo o que não toca;
Refém do mar que os olhos chora;
Chama cruel que me assombra;

Vício imortal sem álcool ou ópio;
Venda que cega a alma e a luz;
Falta que abrasa, corrompe, seduz;
Cela que prende a dor e o ódio. 

Como pudera, ser eu, condenado,
Se antes de mim tantos outros houvera
Falado de amor, fui eu enganado?!

Agora, perdido, a minh'alma se quebra!
_ Meu Deus! Antes fosse pecado:
Quem for amar tornar-se poeta!

Itamar FS

557

LÁGRIMA

Derrama-se densa, em lenta pena,
Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.
Outrora à âncora, comprimida e alenta,
Demorava-se a brilhar encantadora.

Vai-se à beira do torpor da rubra face,
Maviosa, fenecida e sem alarde,
Salgar-te à memória, à dor do encrave,
Com seus fúnebres contos de saudade.

Embora tu, ausente do infirme eco do engano,
Possas pensar que basta a ti, um simples pano,
Para que o orvalho trivial possas secar; _

Vais abrandar, frigidamente, somente o tanto
Que tuas mãos tão decadentes em seu pranto
Poderiam tenuemente alcançar.

Itamar FS
369

MORTE

Como ousas invadir a minha história, 
Gentileza dos vadios? Me encontrasse
Desprezível, e com terra amordaçasse  
O meu amor, meu vazio e minha glória.

Majestosa orquestra rubra, Natureza,
Porque devora-me a mão e minha alma
Se tua sede não sacia e nem acalma
Tua fome, tua dor, tua tristeza?

Quantos amantes o teu peito inda corteja, 
Ó criatura espantosa, carniceira;
Para ser pai de tua cria verminal?

Quantos ainda arrastarás para igreja
Para ouvir teus votos, dama derradeira,
E decompor em tua cama nupcial? 

Itamar FS
479

EXÍLIO

Quando eu estou trancado,  
Sou apenas um homem, 
Preso em seu próprio mundo. 

Quando eu abro a porta, 
Sou apenas um homem em um mundo 
Ocupado demais para ser livre...

Itamar FS
440

JERUSALÉM

Metrópole clandestina, império dos caídos,
Tuas ruas: tantas cruzes, tantas dores,
Congestionam-se; o matizar de tuas flores
Inda tenta arfar ao breu dos esquecidos.

Ah! Jerusalém, Brasão de todos os vencidos,
Herança imácula, capsula ígnea de odores,
Tua gênese abstrata purga-nos de horrores
Na broca bruta de teus filhos exauridos.

Ó, morada eterna, passagem auriu de paraísos:
Exila, aparta, expira, agrilha, apaga
Os lamentos de minhas dores ancestrais...

E assim, no abraço douro de teus cristos,
Que possa, em fim, a minha podre alma autófaga, 
Dormir em paz no céu do deus do Nunca Mais.

Itamar FS
408

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