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AMOR ONÍRICO

Em pequenas palavras exponho meu mundo,
Transbordado de graça, ao ver-te chegar.
Com efêmero riso em sal me inundo,
Ouvindo a porta, ao teu ir, se fechar.

Recorro aos meus sonhos pra te reencontrar,
E no onírico ponto eu quero estancar;
Pois não quero, jamais, que teu único amante
Pereça de enfado a te esperar.

Itamar F S

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Biografia
'' Por mais que eu me esforce a vida será apenas uma breve lembrança de tudo aquilo que na verdade gostaria de viver.'' _ Itamar FS

Poemas

47

HERDEIRO DE ANTIGOS DIAS

Aprisionado num tumor d'encarne, vago 
Sob o flagelo espectral de pus e dores. 
Sangro o frescor assíduo de eterno horrores 
Desde meus sonhos ancestrais - divino fado!  

Se a supérflua solidão de antigas preces, 
A mim, pudesse guarnecer a empatia, 
Eu saberia, assim, sofrer da agonia 
E ser escravo de um agror que me fenece.

Vem - findas horas - soterrar-me nessa terra,
Pois eu carrego o vírus - ávido pecado -
E no meu ser a morte jaz e nunca erra!

Vem pra sanar o filho ignóbil da megera,
Que no jardim, agrilhoou em dor de parto, 
A vida e toda a criação à tua espera!

Itamar FS

642

ANA


Se espalha como um câncer a memória que a muito tento esquecer:
Ela foi-se como uma brisa fria, ignorada pelos insetos em luzes de neon.
Tão pouco se soube sobre ela, como tão pouco se soube quando partiria...
Ela perdeu a vontade de tentar, a vontade d'insistir, a vontade de acordar.

__Acredito que o sono nunca foi tão bem-vindo para um viajante cansado
quanto a morte foi para ela...

Itamar FS

374

PARA MINHA MÃE

Embriológica certeza de pura luz abreviante,
Cujos caminhos me guiaram até a vida;
Tornes pra mim, agora, e para toda lida,
A expressão maior da força  fecundante!

E em meu pecado primogênito de infante,
Quando ao sentir o frio, afronto, do teu seio,
Todas as coisas que competem o teu peito;
Que possa eu achar a glória nesse instante!

Tão Preciosa Musa -  Rainha Perfeita -
Que em seu trono siso nunca se suspeita 
O mal agouro ou a solidão!

És para mim, e, sempre, não há outra
Mãe que caiba bem na minha boca
Muito menos em meu coração!

Itamar FS

721

PSICOGRAFIA DE UM EX SOFISTA

Se então morrer refém do eleatismo,
Não te alardes com o novo mundo
Tão transcendente, sem o Pseudoprumo
Que t'encontravas n'antropomorfismo.

Pensava eu: durar igual ao dólmen,
tão abstrato no espaço-tempo;
É só afago ao descontentamento
Ou silogismos das prisões do homem?!

Foi só na morte - esta mulher amarga -
Que da matéria receia-se e a apodrece
Em tudo, e dela não se escapa;

Que encontrei a minha forma inata
Na existência do EU, que excede
O próprio céu e inferno que herdara.

Itamar FS

 
348

SÃO SÓ PALAVRAS ...

Está vendo essa folha branca;
adstrita, ilustrada com falácias
de amor frugal e de audácias
nódoas que o peito abranda?! 

Esta folha referta, tão claustral; 
Tempera, apenas, não sacia 
O tolo, réu da idiossincrasia  
Que ufana, sob o próprio mal...

- São só palavras, desgraça apenas,
Que os poetas comem e cospem
Aos famintos ébrios, o resto.

-São só palavras, tão vis fosfenas 
À iludir os olhos, que dormem,
No sonhar d'um coração funesto.

Itamar FS

317

QUEDA

Quando o céu se abrir e eu cair,
E minhas asas brancas, amarradas, 
Agonizar ao som divino das sonatas
Que comemoram o meu partir -

Dancem comigo meus desejos,
No abismo frio que me espera;
Decorem cada agrilho, cada cela,
Qu'estatizam meus segredos.

E na companhia rastejante do hereges 
Seres, que partilham do mesmo gosto
podre; que eu tenha paz à destruir

O escravo, réu de minhas preces...
Que as sombras brilhem em meu rosto
Quando o céu se abrir e eu não subir.

Itamar FS

557

SOUL-EU

Eu fui melhor
Sem ser melhor, 
Sem ser pior:
Eu só queria...

E era assim,
Sendo pra mim,
Um pouco, em fim,
O que seria...

Agora sou
O que Sobrou
De quem olhou
Oque se via...

E me tornei
O que falei,
E acreditei
No que ouvia...

Itamar FS

614

CANSAÇO


Eu amo com todas as minhas forças,
mas eu não tenho força;
Eu sinto com todos os meus sentidos,
mas eu não tenho sentido;
Me salgo com todas as minhas lágrimas,
mas nunca houve um  gosto -

É só cansaço, cansaço e cansaço!

Eu grito com todos os meus medos,
mas só eu escuto;
Eu peço com toda minha fé,
mas eu não tenho um deus;
Existo pra ocupar espaço,
porque eu já não vivo -

É só cansaço, cansaço e cansaço!
Mas nada fiz...

Itamar FS
316

PÉTALAS MORTAS

Contorcem num abraço frio essas pétalas
Tristes, sozinhas, e afogadas sem razão
Num jarro fútil, símile ao amor na solidão
Que jaz à amar, sozinho, tísicas sépalas.

Essas rosas que, antes vivas, decoravam
O jardim das fantasias dos poetas...
Hoje ornam as saudades mais profetas;
Aquelas que os olhos postulavam...

Agora, fenecendo-as, vão as horas;
Assim como fenecem a um sonhador,
Quando este é condenado a não dormir...

No esquálido estalado dessas rosas
A vida se resume  e,  nesse odor,
Um dia tudo que floresce há de sumir...

Itamar FS

371

PORTA- RETRATO

Empoeirado está o meu sorriso
Nesse túmulo de madeira e vidro;
Desse exílio tenho o meu castigo:
Gritar, somente, ao meu própri'ouvido.

Cristalizado está o meu olhar,
Como um eclipse cegando o luar.
Herdando apenas um vago lembrar
De um passado presente - Abismo Vulgar.

Mas aceito a punição, ó meu carrasco,
Já que o preço do amor é o seu pecado.
Estendo-me sobre o caso e o acaso... :
_ Que seja minha cela seu porta-retrato!

Itamar FS
319

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