Suspiro de realidade Conto-me em paixão Plena fico Em cada contradição. Essa é a minha hora: Tema sem exatidão, Esse é o meu título: Tempo sem previsão. Tic-tac soam meus passos No chão: Donos do compasso eles são. Tic-tac: ouço dos meus pés A estação Com a minha noção de tempo: Caminho eles são.
Eu fechei os meus olhos, e com os meus olhos fechados Eu vou fechada para qualquer visão. Fechei os meus olhos e para os olhos abertos a me observar Eu sou um mundo em distração, um silêncio tropeçado, Um nó displicente de desejo no nada da cegueira sempre atado. Eu fechei os meus olhos pra poder fazer de mim O que há por dentro visão, Fechada para a cegueira do mundo em distração, Fecho os meus olhos para os desejos displicentes dos olhos abertos No que veem tropeçados, fechei os meus olhos Para os olhares em nó de cegueira não ver atados. Guarda-me silêncio de nada ver, Revela-me visão de ninguém escutar, Canta-me no escuro a luz de coisa alguma ter, Dança-me no desconhecer o alívio de por nada me guiar. Porque eu fechei os meus olhos E pra tudo o que os olhos abertos podem ver O coração não abre guarda, Porque de olhos fechados o escuro do possível É a possibilidade para que o improvável arda, E de olhos fechados, no alto da incerteza, Não há espaço para duvidar, De olhos fechados nada atrapalha minha visão, E no que não se vê está sempre a certeza a chamar. Porque no fechar dos olhos vem o coração de toda a visão ser a guarda, E a luz da possibilidade que não se vê É o escuro se fazendo para que o impossível arda, E no espaço da incerteza não fala alto a visão a duvidar, De olhos fechados nada atrapalha a certeza de não ver, E a visão está sempre a chamar. Guarda-me, revela-me, no alto da incerteza, De olhos fechados, Renda-me em coração o andar no escuro para que eu veja.
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O Sangue
Eu gosto que meu coração sangre, eu gosto que ele se estenda em dor e gosto que ele se reconheça em sofrimento, eu gosto que meu coração tenha que procurar a cura dum sentimento em outro sentir de si ou no puro causar de sua ferida a cura em seu próprio movimento. Eu gosto que meu coração sangre e se faça o princípio da dor que principia a vida, que ele sangre e derrame sobre a ferida de sangue o reatar de sua alegria dividida. Eu gosto que meu coração sangre e conheça que o sangue estendido no dividir de sua alegria é a seiva que o retoma em seu tempo na promessa de que no seu reflorescer tudo se alivia. Eu gosto que meu coração sangre e na sua alegria retomada não mais em tempo se veja, no que em seu sangue refloresce a vida não mais em promessa, e que em seu sangue há de si a própria cura, que na sua própria alegria a seiva da dor em condição seja. Eu gosto que meu coração sangre, pois que, no sangue, dividida, está e sempre é...a própria vida.
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O Reino
Eu amo o reino das palavras, eu ando todos os dias pelo reino das palavras e passeio nos anseios de antes, nos rabiscos de tempos outros, os próprios anseios de mim. Eu amo o mundo das palavras e o mundo pelas palavras, eu amo o que o mundo é, no meu reino dos anseios, quando ele é de palavras. Eu amo a grafia das almas, o tom rascunhado dos sentidos, eu amo as palavras no mundo, e amo que elas reinem nos anseios de mim própria e de tantos outros próprios reis de si mesmos nas palavras. Eu amo o surgir, o formar e o retocar das letras na graça de seus sons aos ouvidos, na coreografia de seus movimentos na folha. Eu amo que corações possam ser escritos, amo que posso ver meu coração num papel, na parede, amo que, no reino das palavras, meu coração pode ser coroado em seu mundo, por seu próprio anseio de ser rei e por tantos outros corações reis de si mesmos, no mundo das palavras. Eu amo que eu possa ser além de mim, como tantos são além deles mesmos ao chegarem a mim, no criar, ler, ouvir, escrever, sonhar em letras... ...e é por isso, meu amor, que pra ti guardo o silêncio, guardo no silêncio o mundo todo que mais amo. Pois que, meu amor, o silêncio é o pai e a mãe da palavra, e o silêncio é a morte e renovação da palavra. E cá, em mim assim, esse mundo todo que sou em todo o meu reino, a palavra, és o silêncio, pois que, aqui, no querer ser do meu coração, és o que a tudo traz vida, cria, padece e se renova. Só isso, meu amor, em mim, o que precede, monta e desmonta e faz-se de novo a própria criação minha, de mim mesma, no meu reino. Vens antes, meu amor, no meu reino. A ti, no meu mundo, a coroa.
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O Segredo
Vem ouvir esse segredo...coração meu. Que Amor em paz é poder amar na batalha. E os nossos dias já ausentes de visão Foram lutados lá fora, nós e o mundo, Um mundo todo contra nós a lutar. Lá atrás fez-se a esperança No que a humanidade fraca falha, No que a compaixão e a fé em outros corações demora. Vem ouvir esse segredo...do longe ao coração meu. Que Amor em paz se ama lutando. E as nossas primeiras provas foram nós e o mundo, Nós, um mundo todo a lutar, Em provas de outrora, na intolerância alheia, A nossa luz se revelando, No que o ardor e a obra em corações nossos É existir profundo. Vem ouvir esse segredo...que fala ao coração meu. Que Amor em paz é pela paz lutar. E as estações nossas de agora são os mundos Que antes lutamos, em nós já um mundo todo, Em nós, a nos apresentar. Nas estações presentes, a árvore e o ramo de tantas vidas, Nossa seiva a vibrar, no que as oposições de nós, vençamos. Vem ouvir esse segredo...que declara o coração meu. Que Amor em paz é o que faz a paz na batalha. O mundo todo de quem com o mundo já lutou É a humanidade dos nossos corações, A compaixão que nos nossos dias de agora nunca falha. Que Amor em paz é o segredo de lutar. E as provas de agora somos nós perante o mundo, Somos nós as lutas se revelando em luz de nossos corações, A fé em nosso ardor profundo. ...vem ouvir o segredo das estações E das lutas de nós, o mundo, Vibrando de ramo em ramo a esperança, A árvore da vida, nós, em nossa herança.
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Planetas Regentes
Nada vem ao meu encontro, E todos os meus dias são de correr para encontrar, Mas de riscos na areia não é a firmeza do que confronto, Nada vem ao meu encontro. Mas de areia não é tudo o que ao encontro me vem a chamar. Se nada vem ao meu encontro, A corrida dos dias meus na areia nada tem de suave, E os riscos do andar vêm da firmeza do confronto, Se nada vem ao meu encontro, Ainda assim são duas as luzes, O sol de incessante a se fazer espalhar, A lua de melancolia a se fazer esperar. Se nada vem ao meu encontro, O mundo meu num mar que se estende de si mesmo Na areia inconstância não empresta da lua Sempre a descansar. Nada vem ao encontro do meu mar, E do sol as águas são da luz o movimento A ser a buscar. Nada vem ao encontro da minha luz, Nada vem ao encontro das minhas águas, Mas ainda são duas as luzes, O sol de encontrar, o movimento de na areia se estender, A lua do encontro na areia o que brilha a fixar. Nada vem ao meu encontro, Mas a constância de caminhar, A inconstância de esperar. Mas que no encontro e no encontrar, O sol é um universo todo nas águas A sua luz a pronunciar, A lua uma vida toda na areia o seu silêncio a pulsar. Nada vem ao meu encontro, Mas o encontro está onde o encontrar pela luz de esperar E pela água de andar chegará. Nada vem ao meu encontro, Mas no pronunciar do universo em sol a se movimentar, Responde a pulsar a lua em seu silêncio. Eis que, no encontro e no encontrar, São duas as luzes, Do sol vem em seu movimento na areia descansar, Da lua vem em sua espera na água a se movimentar.
13
O Tempo
Todos os dias eu vejo...a minha vida inteira: Começo e meio de tudo o que em mim é vida. Os ciclos das eras são um dia meu em suas horas, A herança milenar das estrelas é rotação De cada um dos meus instantes. E todos os dias eu vejo...a minha vida inteira, Em suas idades arquitetadas sem tempo: Na noite vem aurora a se apresentar, Na aurora vem dia quente já a se movimentar, Na tarde de se aquietar, A noite de nascer e morrer a chamar. Num exercício de existir, todos os dias eu vejo... A minha existência sendo e precedendo a arte de ser, Sendo em seu existir a arte de seguir e de prever, Girando em sua própria roda o recomeçar de suas luzes, Seus próprios dias. Todos os dias eu vejo...a minha vida inteira. Os meus dias não são dias, Não começam, não terminam, São recomeço de vida inteira em mim, Os ciclos das minhas estrelas quietas me chamam Em seu estampado em céu da minha aurora A descansar nas horas do meu dia alto, Porque no meu ver de vida inteira, É na noite minha em seus e meus Esconder e prometer de luzes Que todas as manhãs estão em seu exercício de existir, Eu, sendo e precedendo o meu existir, No que tempo se retoma em tempo, Eu em morrer e nascer de minhas próprias luzes, Em minha roda, eu, na minha vida inteira, Os meus próprios dias.
8
Os Soldados
Um a um, os soldados, em seus círculos, Do uniforme um símbolo seus corações. Um a um na continuidade da marcha, Os soldados no fogo e explosão estendem em Uniformes o símbolo de seus corações. Os soldados, um a um, em seus corações são uniformes Na descontinuidade de sua marcha, A explosão, símbolo, de um a um, Do soldado, o fogo. Um a um, os soldados sonham com a guerra, Fazem seus sonhos na terra, Amam as sombras distendidas da carne, Um a um, amam os soldados o altar da guerra. Os soldados no altar de suas carnes, Sonham com a terra distendida de sombras E amam a guerra de seus corações. Um a um, os soldados em seu cansaço Consertam dramas e brincam de armas. E um a um, os soldados desarmam seus corpos E em suas guerras chegam à chama sedenta, Um a um, caem juntos os soldados No drama de seu cansaço, As armas sedentas na chama dos corações Brincam em seus corpos. Um a um, os soldados sem uniforme perdem o símbolo, Um a um, a marcha sedenta chegada ao altar do coração, Na carne desarmada, um a um, Os soldados brincam com o fogo distendido da terra, Um a um os soldados amam a explosão dos corações, Cai sobre o altar a carne, a guerra.
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Dizer ao Mundo Que Nada é Tão Divertido Quanto a Vida a Que te Dispões
Por que não te fazer cantar? Sobrepor em asas o tom maçante do marchar... Por que não te fazer perder? Nos trilhos que te põe a cuidar, um descuido a te guiar... Por que não te fazer tropeçar? Dançar um outro passo no teu caminho reto a te esmagar... Por que não te fazer desenhar? Mudar os traços e os quadros que compõem o teu olhar... Por que não te fazer escutar? Converter a beleza do teu silêncio em palavras que querem voar... Por que não te fazer sonhar? Rasgar a realidade em fios mais nobres a tecer o teu andar... Por que não te fazer sentir? Mover os tons que são teus ao coração do mundo... Por que não te fazer inventar? Ver nascer em tua face uma face filha de si mesma, criando um pouco de ti na face de todas as coisas... Por que não te fazer espalhar? Conhecer a tua casa em todos os lugares que teu coração abriga... Por que não te fazer cair? Deixar que um abismo próximo te seja interrompido... Por que não te fazer chorar? Enxugar da tua mágoa toda a beleza do teu coração, vê-la cair em outras alegrias... Por que não te fazer ridículo? Dizer ao mundo que nada é tão divertido quanto a vida a que te dispões... Por que não te fazer brincadeira? Subir, descer, cair, machucar, rir do choro e engolir a lágrima com um sorriso... Por que não te fazer ausência? Sem propósito além do próprio crescer, sem ponto final além do que é caminhar... Por que não te fazer presença? Qual silêncio ver tua luz brilhar, sem que digas teu nome todos a te chamar... Por que não te fazer desaparecer? Pro mundo ser ausente de valores, pra ti ser a totalidade de todas as crenças... Por que não te fazer fracassar? Livrar-te das correntes do sucesso escrito em papéis, e ver teu nome timbrado em espaços de nenhuma formalidade e toda vida...
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Leio a Tentar Saber Usar os Verbos
Leio a tentar saber usar os verbos, leio com constância de perseguidor. Na esperança fico, de repentina hora se fazer na qual os verbos me cairão por intuição, e todas as ações tentadas serão por fim, então, destituídas do tempo de agora. Leio a querer saber usar os verbos e decifrar o que é de indicar movimento, acima de todos os que precisam de complemento. Leio a querer saber qual a naturalidade de se unirem os verbos, a destrinchar os passos da dança que espalham em todos os sentidos: pontes mágicas, pontes tênues, visíveis como brilhos minúsculos, pontes de firmamentos imensos. Leio a andar até mim o súbito dos verbos, manso como são as visitas ternas de pais e amigos, chegam eles a se manifestarem nas mãos minhas e há o nosso desenho, de quando tomo-os eu também de súbito, leio a amá-los e apropriar-nos em recíproca de declarar. Leio a permitir aos verbos que saibam me usar.
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Eu Fico Feliz se o Teto Cai
Eu fico feliz se cai o teto, e me corto. E as tarefas em suas horas não se cumprem, e as coisas, elas não mais funcionam. Eu fico feliz se cai o teto e não há nada das coisas que não o pó. Um organismo não mais é a casa, e respiro. Abro-me em uma fenda se o teto cai, e as coisas eu tenho de jogar fora. E se esvai-se também a luz, as coisas vejo com as mãos, existem elas então além do claro e escuro até as texturas e dimensões, e elas não funcionam. Gosto quando cai o teto e eu me levanto.