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Plena Fico em Cada Contradição

Suspiro de realidade
Conto-me em paixão
Plena fico
Em cada contradição.
Essa é a minha hora:
Tema sem exatidão,
Esse é o meu título:
Tempo sem previsão.
Tic-tac soam meus passos
No chão:
Donos do compasso eles são.
Tic-tac: ouço dos meus pés
A estação
Com a minha noção de tempo:
Caminho eles são.
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Poemas

25

Ela anda em seu jardim

Ela anda em seu jardim,
O cemitério,
Da terra um dia ela fez
Nascer flor, mas terra ela colocou
Por cima, e depois mais terra
Ela fez a cobrir.
Ela anda em seu jardim,
O cemitério,
No que antes camadas via,
De camadas era feito,
No que vida jazia,
Agora jazigos imutáveis,
Ela anda sem diamantes ou minerais.
Não, não morra em vida,
Não converta em pó o rosto,
Não aceite o pálido sobre a cabeça.
É um apelo de vida essa morte,
É a vida que se vai dos corpos
Que não mais a comportam,
Aos que ainda caminham em passos
Concretos e pulsantes
Clamando ser inserida, reinserida.
Ela anda por seu jardim,
De flores esvanecidas,
Tanta vida desconfigurada,
Vida resetada, vida em marco zero.
Não morras em vida,
Não permaneça pálida,
Vidas inteiras sopraram em suas veias,
Odeie as caixas de madeiras, imensas,
Quebre a lascas uma por uma,
Destrua, desaceite, desconstrua
A morte, sua caixa de madeira,
Odeie a morte em vida.
Não morra um poema pálido.
12

Eu faço poesia porque não sei não fazer

Eu faço poesia porque não sei não fazer
eu vivo cantando porque não sei não cantar
tudo que eu faço eu faço de qualquer jeito
porque não tenho jeito pra nada na vida estudar.
eu ando torta e caio na rua
brinco de casa e faço meu
pensar em roda de lua.
tudo de qualquer jeito
sem jeito de começar
nem final pra me apurar.
no cair do dia minha façanha é sonhar
de qualquer jeito de manhã
me ponho o que o mundo estranha a aprumar.
feito música que ninguém grava
feito propaganda que ninguém entende.
minha festa nem tem gente
meu banquete nem tem nada de comer.
meu jeito é andar pra frente.
e que outro jeito a vida há de ter?
32

Partícula Sóbria dos Perigos Constantes

Ao perigo de ficar
Conto de como é partir
Para os perigos de buscar,
A casa é um perigo
De paredes concretas
E travesseiros sufocados.
Dos perigos eu quis
Os das asas quebradas
A partir de mim
A minha partida
Por parte vezes inteira
Por parte vezes sonhada,
Partiram-se os perigos
De lá e cá,
Minhas fronteiras
Tomando partido
Da minha obra inteira.
Nem distante
Nem errante,
Partícula sóbria
Dos perigos constantes.
É perigoso ficar e partir-se.
É perigoso partir e encontrar-se.
18

Gira a Alma Com Passos Maiores

É o que vem a desenhar o compasso
Num passo a passo dos traços nossos, agora
Do que vinha-se, vai-se, do que vem, faz-se
É o nos fazer girar esse compasso
Que de agora os passos nada de antes se classifica
É de ser perfeito o círculo que já se fez abrir
Não há redores dele a passar-nos
No que é nossa forma e nosso conteúdo.
Alguns passos outros e passamos a girar
Nele, tempo nosso, escalas menores
No que d’alma atributos maiores
Os passos eu não conto no desenho
Passo os traços no agora
Venho e faço descompasso
A girar vida afora
Roda grande que fecha
Roda de dentro se abre
Passa o tempo a ser nosso
Gira a alma com passos maiores
22

Plena Fico em Cada Contradição

Suspiro de realidade
Conto-me em paixão
Plena fico
Em cada contradição.
Essa é a minha hora:
Tema sem exatidão,
Esse é o meu título:
Tempo sem previsão.
Tic-tac soam meus passos
No chão:
Donos do compasso eles são.
Tic-tac: ouço dos meus pés
A estação
Com a minha noção de tempo:
Caminho eles são.
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