J L Silva

J L Silva

n. 1959 BR BR

n. 1959-08-23, Florianópolis

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Ausência

Na manhã que te levou
Na tarde que não se cala
No beijo que não te esquece
No abraço que ainda aquece
Na noite que te esperou
Na cama onde agora dorme o frio
Na tua ausência doída
Num quarto vago e vazio
A saudade deita seu corpo
Junto ao teu corpo macio
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Poemas

10

Sentir



Há momentos em que sentir

é como a ausência do postigo

por onde poderia, se houvesse,

infiltrar-se a voz melíflua do poema

É como a carência das manhãs transcedentes

e o constante perfume do orvalho no ar

É como a garrafa lançada ao mar viajando

sob estrelas que por sua vez viajam o éter

trazendo mensagens (poemas?) do inicio das eras

É como a solidão que se instala transbordando

tudo que eu ainda não disse/não fiz

É como o som das insidiosas máquinas de guerra

que ca(n)tam as velhas canções

e reverberam a cantilena de velhos discursos

É como o choro silencioso,

sem gesto,

sem destino,

sem começo

e sem fim

É como um labirinto

infinito

onde a esperança repousa ingente

É como a inelutável noite

que envolve e acorda vendavais

e a chuva cai

parando o tempo,

revirando passados

reverberando ao som do vento nas telhas

E, afinal, que querem as lembranças?

Querem um convívio forçado

estes sentimentos que tombam e vibram

Não sei conviver

Há sempre razões definitivas,

certezas indubitáveis

e a noite que cessa

em todas as janelas

onde a parca luz amarelada

agoniza junto com a minha emoção

Onde as iamagens se evolam

e o tempo é um truque de um mágico

que transforma a eternidade

nestes fugidios instantes

Às vezes instantes longos,

páginas em branco,

às vezes cheios de emoção,

umedecidos de suspiros

que o tempo folheia impunimente

A poeisa estremece o singular

mistério da noite

e dá ao meu sentimento

este invisível caminho

e esta inefável possiblidade

de anotar e rabiscar

até perder a razão

e colher das flores as cores

e o perfume inocente

de um verso que chora

ou que ri comigo

de uma realidade que só existe nele,

no verso

Eu o olho e o ouço como

um menino me olha e me ouve...

como se me conhecesse

há muito tempo...

Um tempo em que só havia poesia

no acaso inseguro das manhãs,

na tarde que me visita

e me espera nos jardins

onde flores de papel sorvem

as palavras que dizem da brisa

crispando as águas do rio,

bebendo as pequenas ondas

que desaparecem na areia

Houve um tempo em que tudo era poesia,

madrigais, odes, elegias

Versos inconsúteis

escritos à cinzas

nas páginas da distância

e dos momentos onde sentir

é como o escorrer da chuva

no silêncio dissoluto do espinho

da rosa que não há

e o perfume da rosa, esbatido pelo vento,

ondula em teus cabelos onde dorme a noite

O vento argumenta sua quase tristeza,

arremete, debalde, as naus contra os portos,

acorda meus velhos sonhos sonolentos

e empresta-lhes a face de uma lua cheia

de um dezembro que ainda não veio

Há momentos em que sentir

é só como estes sentimentos cativos

e estes caminhos cobertos por folhas secas

caídas com o vento e com as chuvas

nas madrugadas onde me esqueci

e me esquecendo

o tempo, possesso,

me resgata deste teatro

e da contumaz mentira

que transforma o meu hoje

em um ontem irrefreável

acumulando-se aurora após aurora

ansiando por ser poesia e liberdade

Estes momentos em que sentir

é como o menino jogando as cinco pedrinhas

na praça deserta

antes de decidir morrer

Quando eu me for qual flor brotará?

Branca, vermelha, amarela, lilás, azul...?

Que importa?

As flores brotarão e levarão

o pânico da minha noite

e atearão fogo à minha suposta "poesia"

incorrigível e alquebrada

sentindo o que não sente

virando o mundo às avessas

antes que a aurora envolva e encubra

a voz do poeta

e este, então, adormeça
628

Escrevo a poesia que ninguém lerá



Ao longe a música chia

no antigo gramofone do dia

quente deste final de novembro

apagando o trinar dos passáros

que os céus levam até o mar

debruado com as velas ao vento

dos barcos executando os acordes

das canções de alguma infância



Gaivotas voam acima dos meus medos,

acima das canções inacabadas,

da angústia inútil de não esquecer

e da poesia escrita na bruma da manhã

estampada na primeira hora

atada ao dia que veio com o vento

na primeira flor

na primeira dor



Escrevo a poesia que ninguém lerá

Escrevo para as sombras

da minha infância

Escrevo porque sinto

e porque a palavra me liberta

E é esta é a minha culpa maior:

dizer o que não fui,

falar do inapto que ainda sou

Só o que sinto

e o que minto

de mim para mim

é o que fica de mim na aléia

por onde caminha o Mistério

na poeira quente das estradas

sem encontros,

nem companhia



Ando a olhar para o céu

buscando no trilar das aves,

os pássaros origami

que me habitam

e me trazem, assim,

este amor impossível

pela coisas instadas,

pelas estrelas

e seus poemas,

que não se extinguem

e movem-se sem cessar

ao nosso encontro?



No velho espelho contemplo

a chama da infância

Tuas mãos pequeninas

aquecidas ao sol

de um inverno ofuscando,

os teus olhos negros,

teu corpo recendendo

à paixão e à ternura



Da janela do quarto

ainda vejo dormir a noite

Vejo dormitar o passado

sob a luz de candeia

de uma lua iluminando a alma,

sem, no entanto, separar

a solidão destes versos

que me sopram



Os pássaros regressam de muito longe

atravessam a noite,

inocentes,

desfazendo o silêncio

com o branco das suas asas

Procuro no escuro,

tateio suas silhuetas esguias,

da onde virão?

Trarão um ramo no bico?

Os pés molhados de mar?



Em meio as estrelas adormecidas

a lua irrompe pela janela dos sonhos

Encosto a mão na face molhada do sono,

digo um segredo,

calo um grito,

sussurro o desejo de partir,

sentindo a areia fria das dunas

como se a areia houvesse sido o meu mundo,

só e esbatido pelas gotas de sereno

que serão o orvalho da manhã sem nome

e que não demora a chegar na praça

acordando os pombos e os seus arrulhos

balançando as matas ao rumor do dia

lançando as primeiras gotas no mar

resplandecendo nos rochedos

caminhando para o verão

perfumado de primaveras,

refletindo luzes de outonos,

sob um céu nacarado de inverno



As nuvens passam singrando os céus,

barcos de algodão,

rendas no jardim onde brotam

os versos que podem dizer às almas

o ouro da liberdade latente no átomo

imarcescível de cada novo dia,

abstrato como o papiro

a escorrer as palavras do que seria

um poema

ou a chuva caindo

errante

e terna
631

Cansaço

Os pés afundam neste cansaço

Afundam no chão que falseia as folhas

derrubadas pelos longos ventos

que as esquecem



Meus olhos pressupõem o reflexo esbatido da luz

Supõem a noite e uma última canção

Supõem estrelas,

quando a noite se abrir

e por detrás dela a lua se debruçar

por entre o sol e o mundo



Diante destes mares

os pés afundam no cansaço

da areia úmida de silêncios

e de poemas traquinas

e insofismavelmente puerís,



O cansaço se arrasta no tempo,

metáfora inelutável da vida,

vento desbastando as arestas

das sentenças,

fragmentos de palavras

entretendo a minha noite indistinta,



Brinca com teu nome

esta voz em mim que te chama

da greta da janela fechada

por dois traços de lápis cinza

riscados à guisa de tranca,

como as sombras que perduram

no trêmulo espelho das águas



Às avessas restam a tarde

e a chuva caindo como linhas dissolutas

Resta o gesto e o pulsar impreciso

das horas vazando a bruma da noite

que esconde o mar inconcluso



Ante a palavra que não veio

perdi o poema

A brisa passou incendiando

o silêncio

O verso ficou entre os espaços

da página em branco

onde a folha absorve o crepúsculo

incolor

e a ausência bêbada das sombras

douradas que esculpiam

as matas,

a vida,

as pessoas,

os passos nos quais me perdi,

na luta,

na trama,

no sopro,

no barro

onde não vingaram os girassóis



Quem se não o meu cansaço teceria

o que no coração poderia

ser ilusão

ou poesia?



[...]



À tarde o vento soprou, afável

A chuva choveu pouquinho e dispersa

(dispressa)

A noite chegou de improviso

Trouxe lembranças,

algumas perdas,

um breve baque surdo nas águas

e os olhos límpidos de quem

já vê a primeira estrela

nimbada de um sereno fino



Chegaste...

Ó tempo sem volta,

erguido no ar como quem dança

e seca os olhos molhados

no ardor do sonho adormecido

nas palavras do menino:



"Era uma vez uma princesa

no meio de um laranjal..."



[...]



Inicia-se a madrugada

Murmúrio e silêncio

Regressam os ventos

Faz-se a espera

dolente de uma solidão

que pergunte dos meus sonhos

e da espera,

sob a luz enebriante de uma

lua de novembro,

faz-se o cansaço
660

O tempo não passa

O tempo não passa

neste rítmo miudinho

com que a vida anda

neste espaço que defino

como meu

e que se evola na neblina

densa que acorda as

desmesuradas manhãs

e seus sigilos violados

pela vida que pulsa

estrepitosamente

vasculhando na memória

momentos elididos pela

distância



Cá dentro urdo os fios

dos meus sonhos

canto o meu canto

ressumando a paisagem

e os pequenos botões de rosa

que as gotas de orvalho

matizam reverberando os tons

que dormem na névoa

imóvel da aurora

dissimulada

nas arestas do dia

quando a luz se esbate

desfazendo-se na

imagem refletida no mar



A brisa sutil vinca a areia

esparrama o dia

encanece as sombras

de um futuro

e de vespertinas horas

esboroadas



O tempo não passa

Ao longo da caminhada

fica o talvez

na poeira ígnea

a arder nos caminhos

e no mormaço

que dissolve no ar vacilante

a vida e as coisas

tremeluzindo a monocromia

das sombras de uma primavera

distante



O tempo não passa

e é cada vez mais longe

o imponderável futuro

cada vez mais incerto

o incognocível presente

cada vez mais

perdido no cicio das brumas

o passado



O ar agoniza imerso

na tarde esbatida

pelas réstias de luz

e pela melancolia que

escorre pela luz baça da tarde



O tempo não passa

além da iminência do silêncio

cativo das imarcescíveis horas

transmudando o

palpável horizonte

escoando na brisa trôpega

perpassando a ilha

desvelando morros e encostas

desenhando segredos superpostos

na junção de sombra e luz

suspensos no ar

entre a primavera e o verão



O tempo esmaece e esquece

teus traços

e tudo aquilo que ficou nos versos

de uma poesia tão breve

nas estrofes que as noites diziam



Hoje, ao invés do afeto,

há silêncios e calafrios

e este tempo sardônico

impalpável

que não passa...

não passa...

não passa
763

Noite após noite eu minto

Acorda a noite sob o cicio das àguas da chuva
recendendo à terra molhada e à enigma
Nasce a flor na escuridão da noite
entre os sonhos úmidos do jardim
Aponho no negro céu estrelas sonolentas
Sombras esbatem-se à luz liquefeita da lua
Sopra a brisa sutil onde pousa um vaga-lume
a sua verde luz e o seu reflexo de ilusão
Evolam-se nuvens vindas de um passado inapreensível
Incendeiam-se imagens no velho e baço espelho,
símbolos indecifráveis,
cores tingindo o ar
Desata-me do cárcere das tuas lembranças, ó noite,
que se dispersa nas notas da música ecoando
nos olhos lassos de uma madrugada antiga
O pássaro passa errante e o meu coração se encanta
como a criança que brinca com o espelho
olhando o teto como reflexo do chão
Caem estrelas na areia que a lua borda
O mar repete na penumbra as ondas e os rumores dos rochedos
As noites inconsúteis,
iguais,
iguais,
iguais,
cobertas pelo pó e pelo simulacro
dos segredos do enredo a me escreverem
cena após cena
sina após sina
instante após instante...
arquétipos olhando os olhos da morte
nos milhões de anos esquecidos no ir e vir dos sonhos
que separam o homem e a alma
como quem depõe a vida e o destino aos pés do vento
que embalde traz as fagulhas do mar
e os caminhos solitários dos minutos dissolvidos
onde correm meus passos de criança
Quantos séculos discorrem o destino leviano dos homens?
Quantas mortes hei de subornar
e iludir devagar com a antiga pressa?
Diante dos sonhos
e da possibilidade do retorno eu minto
Para não morrer eu minto
Noite após noite eu minto
610

Novembros e primaveras

*(Põe nos meus olhos vencidos
teus olhos de sombra e lâ)

(Geir Campos)
O dia ainda não amanheceu
mas a porta para o mar já está aberta
neste novembro de primaveras
onde há flores
e quimeras
e nuvens camufladas de algodão
e anjos que trocaram céus e astros
pelo chão
Olha, a porta para o mar já está aberta
O vento sopra levando areia para desfazer o dia
que escorre rente as paredes de vidro
forjando o engano do tempo ido
Olha, o dia ainda não amanheceu
e já caminha a vazar em dourados arabescos
enquanto a canção antiga chora ad aeterno
o sonho que deambula pelas praças e pelos parques
ante nossos olhos que não o vêem,
mas que o coração pressente
e a alma se alegra com outros possíveis mundos
onde a vida seja sagrada,
essencial como grãos de poesia
onde a dor seja esquecida
nos braços que já se abraçam
neste lapso que é a vida
onde a manhã vem devagar
e *põe nos meus olhos vencidos
teus olhos de sombra e lã

558

O menino que te ama

O sono da tarde beijou a noite
Seus olhos se fecharam docemente
e o escuro, levíssimo, pairou sobre as ruas,
os pensamentos e as vidas
Lá fora,
eu vi agora,
há somente estrelas pintalgadas de azul,
nuvens fofinhas passando bem devagar
e uma lua guiando as estradas de terra
nos caminhos que vão dar no mar
O mar é longe, menina
O mar é onde?
O mar é onde o nácar translúcido dos meus sonhos
empresta à vida estas deléveis perquirições
feito pássaros azuis que voam no dia escasso,
num sol poente que rouba o vermelho do teu vestido
e satura o horizonte e exaure o verso
que depois de ti foi só saudades
Da tua ausência fiz o meu redor
e o tempo que não se extingue
como o mar batendo nos rochedos
molhados pelo sal,
úmidos de serenos e enganos que as ondas trazem
o tempo compõe o menino que te adora e não te esquece
Faz muito tempo que o mar bate nos rochedos,
às vezes com estrondo,
às vezes como doce carícia,
vontade de amar sob a nudez de uma lua branca
Esta lua especiosa que se espalha no mar,
diáfana,
imóvel,
aguardando a lesta manhã
aguardando os lábios e a mão do poeta,
o consolo das suas palavras
e a pequena flor em sua lapela
A noite fechou os olhos
Já não quero noites,
nem luas,
nem mares,
nem flores,
nem chuvas,
nem amores
Quero qualquer coisa que traga no tempo certo
a inquietação dos circos da minha infância
e a recordação primeva do amor que foi criança
e como criança amou sem pensar em amar,
sem pensar em nada que não fosse
o acalanto singelo do teu corpo
beijou sem saber beijar,
sonhou deitado em teu colo
ouvindo o silêncio... longe
tão longe...
Impossível atinar com o que o silência dizia
Eu só compreendia você
e o lindo esboço de mulher que você era
deitando os teus segredos nas nossas tardes
Teus olhos negros como um rútilo arco-íris
de todas as cores
Negros como a noite que fecha os olhos
e tudo em volta se enovela em escuridão
No interior da noite escura e rutilante
um menino querubim escreve teu nome
em todo o tempo perdido,
em toda palavra não dita
em todo o silêncio que nada diz
e que, no entanto, não deixa que fujamos
para as cidades hipotéticas do atlas geográfico,
a grande fuga...
que me sustinha em seu vulto,
mas que nunca aconteceu
pois que o mundo existia só em você,
na sua presença sem razão maior
a não ser o nosso afeto
na sua ausência sem razão maior
a não ser o tempo que passou sem responder
ao amor que era para sempre
e que terminou num dia plangente como o de hoje
onde uma chuvinha fininha cai
enquanto o tempo envelhece alheio a nossa vontade
Lá fora o céu toca o chão e se confudem
as copas verde das árvores
com o cinza úmido e os caminhos insuspeitos dos anjos
A noite fechou os olhos
Dormem as árvores,
dormem os anjos e suas verdades
Enchem o quarto e velam minha noite
os versos que falam de ti,
os gestos a me lembrarem de ti
A vida girou a roda e tudo agora
é este invísivel cansaço,
pois que sendo o amor um arabesco
talhado na alma como desfazer o elo
que está na ilusão que fica para além,
para além do amor
em algum reino profundo
onde habita,
numa ilha,
o menino que te ama
727

Amigos

Os amigos, separados pelo tempo abstrato,

pelos caminhos de argila,

pelos rios e suas pontes ligando a saudade

à impressentida nostagia da ausência

enquanto em todo o céu é primaveras,

relembram estes ínicios de novembros

onde desabrocham flores por entre as frestas das pedras,

pequeninas flores interropendo

a estrutura calcinada pelo fogo do tempo compassado

a encher de presságios a vida e a alma



Girando sobre as folhas soltas do outono

a silhueta do vento derruba a gota de orvalho

e pousa no poema

e cria a lágrima

nos olhos verdes da solidão



O poema nasce assim, sem luz, sem nome

por enquanto somente esta lágrima da solidão

rio sem sementes,

sem momentos,

um sonho que fosse

um barco sem vela nos imprecisos ventos do agora

estrelas no firmamento tiritando aos olhos da lua

embalam a noite no ar

brotam saudades do chão

e o poema se expressa entre a saudade e o sem nome



Enquanto os amigos se esperam

Enquanto o vento gira

Enquanto o poema nasce

um pouco de nós fica nesta ausência

gestos,

risos,

vozes

e as mãos cheias de nada



Fica, em meio a tudo, este tom de tristeza

Fica, apesar de tudo, estes novos poemas

e a janela das Luas Antigas

onde me debruço a olhar a vida e o mundo

com olhos distraídos de artesão de estrelas

e sonhos ociosos e incognocíveis como um mistério



São tantos os momentos que fogem

e calam no gesto de demora das flores

São tantos os momentos de indagação

dos barcos rumo ao porto

São tantos os silêncios,

que quase ninguém ouve

São tantas as esperas

que a areia escorre da mão

fluída como a vida em grão



Os amigos relembram o primeiro segundo,

a última hora de tantos novembros

a perguntar pelo passado que imiscuiu-se à multidão,

bosque ou jardim,

ausência amorável

como o perfume da rosa

como um dia que amanhece

sob o encanto do dia que o precedeu



A brisa caminha em tempos e sonhos

que a chuva deixou no jardim

insinuando tardes brandas

e paisagens convidando à nostalgia,

abrindo a porta das gaiolas

para que fujamos todos...

um dia



Marulho do mar

O silvo do vento passando pela fresta da janela

Houve um tempo

em que o vento despenteava o meu cabelo

e secava a lágrima que, às vezes, caía

só e silente

como a única verdade de um instante

Na distância, o rumor do vento soprando,

secava as gotas de chuva nas pétalas das flores no jardim



A vida esquece-se no rio

deixa-se levar

tecendo os fios da urdidura

enquanto nas margens

os amigos se esperam



Esperam o momento dúbio

de um possível reencontro

em outras primaveras onde as flores são abandonos,

outros outonos?

inumeráveis verões,

nas noites estreladas de um inverno

onde as saudades são quentes e ternas

Esperam, os amigos,

assim esperam

cativos de tantos outros dias



E a vida, assim, torna-se indispensável
713

Preciso





Preciso

Espargir a flor

com a água da concha das mãos

Cantar a canção

Entender a folha branca da ilusão

Restituir ao poema

a verdade com a qual te amei

Esperar no precário minuto

o penhor de outra noite

outra manhã

Acordar a manhã

e mergulhar meus dedos em teus cabelos

Acordar os anjos e o menino do retrato

Beber do orvalho

o alivio para a sede eterna



Preciso

Apagar o desespero

dos passos presos na areia,

presos nos espelhos

dos sonhos ante o meu rosto

Expressar o suspiro

o sussurro ermo e terno

a saudade sozinha

Pressentir da existência o segredo

Ter um motivo para ouvir o verso

se agora ando desperto

e o verso é sonho sílfide em meio ao mar

Calar a voz da mentira

Tecer a delicada liberdade



Preciso

Esperar a carta

(que já não se usa mais)

que cheirava a cravos rubros

amarelas rosas

que trazia teu aroma espanhol

e, por acaso,

um fio do teu cabelo

desejo e ânsia que o dia trazia

como essência nas tardes

que eram só nossas



Preciso

De um amigo

(e quem não precisa?)

que possa escrever a carta

que ainda espero

Um amigo que saiba da consumação

inelutável do existir

e do silêncio que pode haver

nas palavras

e do encanto que pode haver

nas palavras

e das palavras

que podem haver nas palavras

fios da urdidura da serena

humana alma

Um amigo que fale de nostalgias

e que tenha brincado em ruas de terra

na infância

com seu pião batatinha

com sua bolinha de gude matadeira

Um amigo que colha estrelas

nas noites pintadas à mão

Que leia a poesia

e não reprima a lágrima

ou o riso sem explicação

Um amigo que saiba do meu sonho

e saiba do encanto que os sonhos têm

e do devir que os move

Um sonho que engane as noites

que o próprio sonho desfaz,

ah! amor, tão frágil é o passado

tão lindo o vento na acácia

e nos cabelos das meninas



Preciso

Dos dias vagabundos

Das ruas de terra

Das enxurradas

Das flores primordiais

Da voz negra da noite

Dos teus olhos,

prenuncio das noites

envolvendo o mundo



Preciso

Do sono em teu colo

Da inocência nos teus braços

Da meiguice nos teus olhos

Da nudez casta

e ofegante nos teus beijos



Preciso

Perder a hora

e a compostura

Bater à porta da lua

Perder os sentidos

Mudar-me

de vez para a infância,

para aquela rua Maria

Incendiar a palavra

que me define neste instante

Escolher a mão esquiva

e o gesto que dorme

entre as nossas mãos



Peciso

Continuar

apesar do meu medo

Acostumar

meus olhos à escuridão

Fingir

que não sei da guerra

Chorar

a dor soterrada do homem

Suprimir

em todos os corações a indiferença

Aprender

um novo idioma

Dormir

o pranto e esta melancolia

Colocar o passado em seu lugar

Ver crescer o outono

e as folhas que caem longe

do engano das horas,

longe do mar

Ter tempo,

sobretudo,

para o morrer

da irresoluta persona

e, então, calar os ventos

Guardar, silenciosamente,

a tua ausência



Preciso

Desta solidão

com o seu manto de sombra bordô

vinda com o ocaso do dia,

pulsando a noite que se inicia,

suspiro de harpa,

rumores de poesia



Preciso

Desta solidão

onde começa e acaba o ser
703

A rosa amarela do dia

A rosa amarela do dia

desliza na manhã

de um mundo velho,

vago,

sequioso

O amor não é poesia

no velho mundo abstraído

O amor é folha de

outono,

adeus,

passos de nuvens

rumo aos teus olhos

negros

O céu, roçando o mar,

tece arco-íris

na poeira úmida

das cores condensadas

na miragem das praias

à deriva

Os ventos balançam

as folhas laceradas

por este inverno

de horas melancólicas

A um canto

há um grito

que ao meu canto

desvirtua num fragor

plangente



Vi a rosa amarela do dia

deslizando na manhã

por entre os morros

dispersos ao longo

da vida que desliza

sob conceitos e

palavras sem nome

Tudo caminhando

lentamente

Perpassando a manhã

o som de um sino dobra,

circunspecto,

embebendo os olhos

e apascentando corações



Um sol, recriado no lago,

arde em chispas

ao murmúrio das águas

A brisa azul esvoaça

o amarelo do dia

Cores a desdobrarem-se

na onda turva e reflexa

no som cambiante,

nas sombras difusas

que acordam encharcadas

da tua ausência

do meu exílio

e ébrias de

[solidão]
692

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