Na manhã que te levou
Na tarde que não se cala
No beijo que não te esquece
No abraço que ainda aquece
Na noite que te esperou
Na cama onde agora dorme o frio
Na tua ausência doída
Num quarto vago e vazio
A saudade deita seu corpo
Junto ao teu corpo macio
Ah! este Tempo etéreo e hierático a me impor lembranças e propor destinos.
Este Tempo agonia que me alheia a voz quando estou sozinho.
Um Tempo de palavras roucas... loucas... a dizer-me coisas com as quais eu não atino.
O Tempo afoito, nau sem vela e sem razão, que conduz, por entre nevoeiros, o meu coração.
Intuo este Tempo, máscara da mentira, que julgo passar por mim quando sou eu quem passa por ele.
Soa, ao longe, este Tempo de renúncia e de exílio em cujo pórtico ouve-se o diáfano prelúdio da tua ausência
Freme este Tempo de silêncio que engenha sombras no canto que embala a minha
própria dor.
Cerram-se os olhos do Tempo que nas noites choram a minha solidão.
Fito este Tempo que em cada manhã me sugere, imarcescível, uma nova possibilidade para ser feliz.
Ah! o Tempo... este instante precário e denso, cativo e límpido, onde a alma flamejante engendra o engano de existir.
999
Poesia não achei
Queria te mandar uma poesia, mas não achei nenhuma que se parecesse com você.
Nenhuma tinha estes olhos ternos, céus em dias claros, mares ao crepúsculo da manhã.
Nenhuma tinha estes cabelos de fios cor do trigo ondulando à luz do sol.
Nenhuma tinha a candura das tuas mãos, o perfil delgado dos teus dedos, a fome do toque.
Em nenhuma poesia encontrei o teu abraço que me enlaçava ternamente como gota azul do oceano.
Nenhuma tinha o convite do teu colo.
Nenhuma tinha a maciez da tua pele, rosa branca, lírio em flor.
Nenhuma tinha este sangue rubro no qual teus lábios se expressam.
Nenhuma trouxe o silêncio do contorno dos teus lábios em sussurro.
Nenhuma sabia sorrir como você sorria pra mim.
Nenhuma falava as palavras que me dizias e com as quais ainda faço os caminhos dos meus sonhos.
Nenhuma soava como soa tua voz quando dizes "felicidade".
Nenhuma trazia as letras do teu nome onde amanhecem os meus dias.
Nenhuma tinha a fragrância nua do teu corpo úmido de desejo.
Nenhuma tinha o arfar dos teus níveos seios durante o amor... corolas aveludadas,
círculos de chamas.
Nenhuma tinha versos que se despissem como despe-se o teu corpo.
Nenhuma era saudade como são os beijos teus.
Nenhuma tinha esta agonia de liberdade que a tua alma tem.
Nenhuma sabia da dor que você socorre.
Nenhuma tinha o ritmo dos teus passos quando caminhas na areia da praia.
Nenhuma poesia, nenhuma...
não achei nenhuma poesia que pudesse te dar nesta noite.
Só achei estas palavras que o vento, em meio ao canto de um pássaro, sussurrou ao
meu ouvido.
E estas palavras são tudo que tenho para te ofertar esta noite...
Poesia... não achei.
1 120
Espero
Espero as palavras que não chegam.
Espero o passado que caminha, irresoluto, cada vez para mais longe.
Espero a Alma infrangível que não vem e que encobre a voz tergiversável do que sinto.
Espero o silêncio cego que vem dizendo, murmurante, velhas histórias, enredados medos.
Aguardo, no tilintar dos pequeninos passos do tempo, o instante em que o amor repousasse as suas lágrimas tenras nos olhos inquietos da saudade.
Aguardo, atento aos sons que o ar evoca, o dissipar desta angústia que me perpassa lenta e longamente.
Espero a vida e seus caminhos sós e seus sonhos sincréticos a desvelarem a ternura dispersa no tempo.
Enquanto espero olho o momento que estremece.
Soa ao longe o pulsar constante e arrítmico da vida.
Ecoa nos meus lábios contritos o segredo nostálgico do teu nome.
Chove...
A chuva cai sarapintando de gotas fosforescentes a face dócil da noite.
Flores ondulam levemente ao remanso que a chuva inventa.
Espero...
Espero as palavras que não vazam.
As palavras que não irrompem.
As palavras cálidas e ternas que se esconderiam em algum lugar de ti.
Espero as palavras intrínsecas que diriam: "vem!!! ...eu também te amo".
1 064
Hoje
Hoje já não queimam as
noites em seus fogos
cor de sangue. O fogo
fez-se mar intenso,
vaga sem fim.
Hoje a madrugada é precipício
a acolher rios de sonhos
que se precipitam como
chuvas molhando a lágrima
entornada, a lágrima amarga e perdida
Hoje não te tenho mais,
não sinto mais meus lábios a viver
nos teus. Não beijo teus olhos,
não sinto teu corpo, só há o teu
perfume entre os meus braços
Hoje já não digo amor
O amor ficou cingido
ao passado nos silêncios
que ficaram junto a ti,
ao teu lado.
Hoje o silêncio tonitruante
das palavras não ditas
é o grão de pólen que
perpassa as pétalas das dores
a germinar no infindo adeus
Hoje, sonhos desfeitos,
vida sem gosto,
minha alma galga colinas
buscando em outros trejeitos
As linhas meigas do teu meigo rosto
J L Silva
1 028
Teus passos
na noite onde o silêncio
é o postigo antigo de um sentimento
ouço teus passos a andarem em mim
ficam, em mim, as marcas dos teus pés
como se areia eu fosse
ficam as gotas salgadas a escorrer
como se mar houvesse
entranho-me numa concha
como se ondas ouvisse
ficam na noite teus olhos de estrelas
a derramar as fragrâncias de uma primavera
a soluçar os medos da noite inditosa
a arder a lembrança do que um dia foi Amor
ficam os nãos versejados e a morrer
da morte mais intensa que em fumos se desfaz
morrem os não quando eles já não nos servem mais
a voz ouvida ao longo do vento sibilando
por entre as frestas de um passado envelhecido
entontece a flor que brota no seio da solidão
o vento vagando na noite é uma réplica do que foi meu coração
quando a noite espargia o silêncio nas várias faces do vento
e guardava a minha Alma na renuncia rútila dos astros
guardava, na pálpebra do sonho, o que de mim ainda sou...
...e o que eu ainda sou é crepúsculo de barco a deriva
a vagar pelas ilhas inescrutáveis dos meus sentimentos
a deslizar sigiloso na transparência dos ventos errantes
desvelando a aragem silente do que de mim restou
1 045
Correnteza
Há nas minhas noites o cálido sabor de você
O ardente e molhado gosto do nosso beijo
O gesto intenso e macio do nosso toque
Há nossos corpos lúbricos, tão quentes,
Há o desejo fremente fito na tua boca
Existe o querer dos meus olhos no
Sim azul dos teus olhos sequiosos
E no ar, roçando a nossa pele nua,
Há uma volúpia, um sutil calafrio,
Que nos molha a pele em gozos
E escorre pelos nossos corpos
Como a eterna e intensa
Correnteza lasciva
De um rio
1 087
Carinhos
Hei de me perder em teus instantes
Quando a noite vestir-se de carinhos
Desnudar-nos em beijos de amantes
Guiar-me ávido pelos teus caminhos
Hei de sorver teu corpo em desalinho
Na madrugada nua e clara da aurora
Beijar tua flor lentamente, gostosinho
Bebendo o teu gosto ébrio que aflora
Na minha boca tu bebes o teu sabor
No beijo que eu te trago ternamente
Nossos corpos ainda falam de amor
Enquanto o dia nos espia docemente
1 068
Versos insones
Um tempo infindo trouxe você pra mim
Um tempo sem hora, sem dia, sem mês
Um tempo onde só havia o soar
Longo do vento na noite imensurável
Dizendo ao meu coração teus sonhos
Lançando fora os véus que o encobriam
E onde o amor se perdera em fugas
Esquecendo a ternura do beijo alvo da alma
Disse a ti as palavras que em mim morriam
Disse do meu medo e da minha dor
Falei da noite que me esconde
A noite onde o meu ser se dissolve
Em rotas de um labirinto inescrutável
Pousastes a mão sobre os meus lábios
Para que o silencio deles não partisse
Para que o gesto pudesse se expressar
E na palavra contida nos teus gestos
Ouvi o bem dizer da ilusão do alento
Onde tuas mãos bebendo do meu corpo
Sussurravam os versos insones que te fiz
Na esteira das luzes que apagaram a madrugada
1 088
Adeus
Entre as palavras não ditas
Há muitas flores formosas
Há orquídeas, lírios e rosas
Há flores que nem acreditas
Entre o silêncio que esquece
De dizer as palavras inteiras
Há vozes, sutis brincadeiras
Que a tua razão desconhece
Entre o sentimento que fica
Como se fosse a lua e o sol
Como a tarde lilás do arrebol
Há o tempo etéreo que purifica
Entre as minhas mãos e as tuas
Ficaram a emoção e o carinho
Que mesmo eu estando sozinho
Há o calor das lembranças suas
Entre os meus lábios e os teus
Há a dor da palavra que chora
Que foi dita quando fui embora
A interminável palavra do adeus
1 092
Queria ser teu amor
Queria ser teu amor
Ainda que por um dia
Cantar, rir-se da alegria
Sentindo o teu coração
Sussurrando junto ao meu peito
A nossa doce canção
Ah! Meu amor, como eu queria
Trançar minhas pernas nas tuas
Beijar tuas costas nuas
E com os dedos, sutis
Ir acariciando a tua pele
Com meus sonhos pueris
Beijar-te o ventre e o colo
Fazendo o tempo parar
Te acolher em meus braços
Te dar beijinhos, abraços
Quando o cansaço chegar
Quando o cansaço surgir
Me aninho em teu corpo quente
E entre beijinhos frementes
Me deito em ti pra dormir.