J L Silva

J L Silva

n. 1959 BR BR

n. 1959-08-23, Florianópolis

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Ausência

Na manhã que te levou
Na tarde que não se cala
No beijo que não te esquece
No abraço que ainda aquece
Na noite que te esperou
Na cama onde agora dorme o frio
Na tua ausência doída
Num quarto vago e vazio
A saudade deita seu corpo
Junto ao teu corpo macio
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Poemas

4

Soturno





A aurora dissolve-se na mancha


vermelha alaranjada do sol

ressumando na manhã

esbaforindo a face triste do chão ressecado

a tremeluzir tudo o que é no horizonte

O menino nu come o barro queimado

das paredes da casa

Os dedos dessangrados

de cavocar as paredes mortas

pelo sol desgarrado

No infinito da paisagem desolada,

ondulando no ar,

galhos secos e uma cisma de esperança

A esfera rubra do sol soluça de sede

abrasando as pedras que assomam sobre

as estações desfeitas

em poeira vermelha e pegajosa

Nem inverno nem verão

nem outono nem primavera

Tudo a mesma poeira grossa,

o mesmo torrão rachado de chão,

as mesmas mãos vazias,

o mesmo olhar sedento para o céu

A vida passando sem pressa

morosa em se acabar

enchendo o vento de soluços

As flores e os frutos não se modelam

no barro seco indistinto

e na paciência dos quintais

que sangram o que um dia foi mar

As mulheres carpem os cântaros vazios

sorvendo dos lábios a sede

No céu nenhuma ave,

na terra nenhuma criação sob as sombras

dos galhos secos das árvores

A vida carecendo de sentido e de tamanho

Carecendo de saberes e outras palavras

tão uivantes quanto o silêncio que,

embaraçado nos gravetos

que rolam pela terra em fogo,

insiste em ser a trilha dos dias

amorfos e anônimos

onde o rio inexiste sem rumo

e só o vento quente tem vida



O menino nu carece do barro custoso das paredes

e de um olhar de esquecimento

que esqueça a sombra da tristeza

e do desassossego

que o tire da letargia destas terras

que evolam-se no ar esturricado



Chora o menino nos seus poucos anos

a tocaia que a vida deserta de si inventou

Suja os pés neste ar solitário que seca

a lágrima no rosto vincado pela terra

e pelo medo

máscara informe de poeira e suor



Ao longe a tarde crepita em brasas

tremeluzindo o braseiro de tudo a sua volta

O sol oscila num céu se dissolvendo

em vermelhos

O olhar incendiado pressente a noite

adejando portas e janelas

O dia mastigou o menino e deixou-o

nos braços magros da noite inerte que se rompe

nas lascas das paredes em soluços

A terra ressequida não dá cor ao noturno cantochão

com que a noite põe fim ao dia

A noite denota a imarcescível lua e um ror

de estrelas, colunas de um antigo templo,

de um antigo tempo, de antigos guias

poeira derramada nos milhões de anos,

trazendo para as noites seus olhos afeitos

a viajarem nos céus de poeiras também

A fome deita o menino e seus olhos cansados

Ouve-se soluços entremeados de suspiros

As indagações adormecem

nas ilhas sonâmbulas dos astros

e na impermanência do destino

A noite se aquieta

Silenciam as pedras que há pouco crepitavam

sob o braseiro urdido com as mãos coruscantes

de um sol que parecia brotar

do centro flamante da terra

O menino dorme

a sua infância exilada

Num canto escuro da vida

a casa geme ao passar do vento pelas taquaras

A lua, silente, alumia as veredas insones

Nestes cantos não tem flores nem jardins

Só a poeira grossa igual

a dos meses e anos anteriores

e as crassas paredes que se vai comendo

aos pouquinhos

conforme a carência e a tristeza

esquecidas, aqui, em todo lugar
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Maio





Por que maio?

e não outro mês qualquer

Talvez porque em maio

as manhãs acordavam entre

neblinas e a graça do teu

sorriso inocente

Talvez porque em maio

você enlaçava o meu pescoço

e me dava beijinhos de

esquimó

tão frios nossos narizes

tão linda a tua maneira

de se deixar existir

Sorrias quando eu dizia que

a poesia é como jardins

e que as palavras florescem

nestes segredos suspensos

em nuvens vermelhas

em ramos de vento

em flores de luas

O ano?

O ano não importa

Infindável é o tempo

e a chama que o consome

Importante mesmo

era que fosse maio

e que o beijo

me atordoando

em ofegantes salivas

dissolvesse-me, menino

O beijo pousado no teu colo

no teu ventre

Nas nossas mãos enlaçadas

nos nossos olhos fechados

faziamos o dia conforme

a nossa magia de lentos segundos

o tempo parado em cada fibra

em cada toque flamante

E o amor era maioe de dentro da bruma

de um mar que não tinhamos

vinham teus olhos de menina

tua boca miúda

os dedos sobre os lábios

entoando o silêncio repentino

os segredos ainda úmidos

zonzos

Meu corpo o mesmo que o teu

lenta poesia a desnudar-nos

nos teus limites da bruma

nos teus calores de sóis

nos teus olhos de noite

casualmente sem lua

Em maio inclinavam-se os dias

que traziam você e as tardes

de incandescentes ternuras

traziam o teu carinho

e risos de era uma vez

traziam a canção de amor

tocando no rádio

e a flor ressumando no jardim

e brincos de princesa

e lírios florescendo no

horizonte

entre mar e terra

para o meu instante

de bardo

para os meus versos

imaturos

Vinham os versos

com o silêncio

que teus dedos

em mim compunham

sublimes

inquietantes

inefáveis sonhos

a brincar com nossos dias

com nossos maios

a brincar com amanheceres

que ficaram em mim

como a estrela esquecida

ficou no céu da nossa manhã

rondó decifrando a lua

e a tua ausência despida

ante os meus versos noturnos

ante o preto e o branco da vida

Eu ainda posso ver

teus olhos negros

indeléveis

me sorrindo

desde as rendas diáfanas da neblina

dissolvendo-se, assim,

na sede da aurora

e dos primeiros raios de sol

Com a última estrela da manhã

eu sinto que o tempo passou,

incerto

molhando com o teu nome

este passado onde me escondi

Pingo...

para mim serás sempre Pingo

Pingo d'água

da onde sorvi da tua boca

a gota da minha

primeira lágrima de amor

e de inauditos maios

que hoje me trazem os ventos

entre cantigas e poesias

entre pétreas solidões

desvelando esta saudade

e este silêncio

com os quais recito o teu nome

reescrito no lago dos meus sonhos

e nas poesias que não te fiz

e que adormecem nos meus dias

e que derramam nas noites

lembranças dentro de mim
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Versos úmidos

No rio hierático e cativo da poesia

dormitam todos os sonhos que

eu não soube sonhar

cabem todos os sígnos

e tantas outras palavras cuja

simples expressão faz o

tempo difuso flutuar

e os dias e as noites

perpassarem implacáveis

nos vales onde correm e soluçam

as águas perenes e avermelhadas

dos rios que choram e suspiram

ao ouvirem as pétalas dos versos

que caem

e pelo perfume da névoa umedecendo

o sussurro da aragem ondulando

no bambuzal



Nesta brisa soprando nas noites azuis

evolam-se estrelas deitando fagulhas

ao vento

urdindo nuvens de algodão

e abrindo o remanso onde cabem os

meus silêncios quietos e vulneráveis

cabem estes ecos de nostalgia

e aonde acorre meus olhos

buscando teus passos nas

tardes iluminadas pela ternura

transparente e comovida de um sol

caminhando para a noite sem sono

e onde uma lua derramando prata

admira na inquietude da madrugada

os sinos a dobrarem as horas

e a voz do vento doce e distante



Nesta chuva turva que embaça o dia

lanço barquinhos de papel

Ouço saudades tamborilando no telhado

no plim plim plim dos pingos pingando

É final de primavera

Os ypês já floritam e suas flores pequenas

cobriram o solo em sombras amarelas

brancas luas

ametistas roxas

A noite treme sobre o mar

e o vento recita versos solitários de sal

e séculos na noite que freme sobrer o mar

No poema que se abre e fere a tua lembrança

morre um menino

pequeno viajante de tempos e de sonhos

tão pequeno e já envolto em solidões

tão pequeno para a angústia dos séculos

corpo sem alma

guarda sua lata de barbante e areia

para o incognoscível amanhã



Nestas mãos que amalgamam o ar em busca

de desertas madrugadas

cabem o anjo

e o aroma angelical dos jasmins

cabem a voz da flor

e a aurora que resplandece em ouros e azuis



Nestas mãos que tocam o noturno escuro

e vário

e que tocaram teu rosto

enlaçaram a tua mão

acarinharam teus cabelos

acenaram um adeus no vento triste de uma

tarde sem nome

nestas mãos ficou a nívea flor dos teus seios

e todo o lento silêncio que embebe a poesia

Estas mãos,

molhadas pelas chamas das lágrimas,

não sabem da saudade que

eu sinto dos caminhos que andei

sob espelhos

A imagem invertida fazia voar meus pés



Estas mãos...

Estas mãos não sabem da saudade que

eu sinto da noite negra dos teus olhos

Nem estas mãos

nem os anos todos que passaram,

nem as estrelas que cairam sobre o

caminho de pedra

enquanto eu te esperava

nem as noites

nas quais teu beijo não era meu



E na rua, entre teus braços,

a noite escondia a eternidade

A lua, lírica esfera sob o pêndulo negro

do céu, vestia de cinza o extenso mar

cortado pelas ondas e entregue às terras

pelas marés

As águas erram na penumbra indecifrável

que a tua ausência deixou

e levam consigo as canções e os versos,

sem métrica e sem limites,

com os quais te amei
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Também



Também deste poema se morre

letra após letra

o som inteiro e intenso da palavra

que cria rios e desertos e miragens

grises como o meio da noite

onde o poema descreve arabescos

e o agora dissolve os segundos

na farsa do tempo que é morte



Também destas horas se fartam

o incandescente amargor coleante

da areia escorrendo amarela

como um rio ruminante

entre o passado soturno

e o futuro incognoscível

que nos mantêm de joelhos

há 512 anos



Também nas madrugadas se chora

o choro longo ou breve

como chora o rio fora do seu leito

um choro que se pensa infindo

que se chora até se adormecer

no engano

e na absorta cachaça do sono

onde dormem os olhos incompreendidos

da infância

que nem você conseguiu consolar

trazendo a flor ébria e a cinza neblina

que se esvaneceu deixando

a primeira palavra do poema

sem resposta



Também se vive a contemplar o mundo

constrangido

náufrago

anacoreta

a estacar diante das reticências da vida

a mergulhar no espesso lamento da dor

das guerras profetizadas nos gabinetes

incesto e morte

e o desespero natimorto da platéia

diante da face do medo

diante do cansaço da espera exilada

e da ausência de perguntas

enredadas na vontade empoeirada

de quem, sequer, vê o muro



Também de fome se vive

de sonâmbulas bocas esquecidas

esperando o pão nosso de cada dia

ardendo em febres

e esperanças forretas

Pai,

perdoai a nossa inércia

assim como nós perdoamos

a quem nos tem debicado

não deixeis cair o parco pão

no chão conspurcado

pela nossa apatia

e pela nossa "candura"

livrai-nos dos néscios

e da submissão



Amém
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