J L Silva

J L Silva

n. 1959 BR BR

n. 1959-08-23, Florianópolis

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Ausência

Na manhã que te levou
Na tarde que não se cala
No beijo que não te esquece
No abraço que ainda aquece
Na noite que te esperou
Na cama onde agora dorme o frio
Na tua ausência doída
Num quarto vago e vazio
A saudade deita seu corpo
Junto ao teu corpo macio
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Poemas

14

O menino que te ama

O sono da tarde beijou a noite
Seus olhos se fecharam docemente
e o escuro, levíssimo, pairou sobre as ruas,
os pensamentos e as vidas
Lá fora,
eu vi agora,
há somente estrelas pintalgadas de azul,
nuvens fofinhas passando bem devagar
e uma lua guiando as estradas de terra
nos caminhos que vão dar no mar
O mar é longe, menina
O mar é onde?
O mar é onde o nácar translúcido dos meus sonhos
empresta à vida estas deléveis perquirições
feito pássaros azuis que voam no dia escasso,
num sol poente que rouba o vermelho do teu vestido
e satura o horizonte e exaure o verso
que depois de ti foi só saudades
Da tua ausência fiz o meu redor
e o tempo que não se extingue
como o mar batendo nos rochedos
molhados pelo sal,
úmidos de serenos e enganos que as ondas trazem
o tempo compõe o menino que te adora e não te esquece
Faz muito tempo que o mar bate nos rochedos,
às vezes com estrondo,
às vezes como doce carícia,
vontade de amar sob a nudez de uma lua branca
Esta lua especiosa que se espalha no mar,
diáfana,
imóvel,
aguardando a lesta manhã
aguardando os lábios e a mão do poeta,
o consolo das suas palavras
e a pequena flor em sua lapela
A noite fechou os olhos
Já não quero noites,
nem luas,
nem mares,
nem flores,
nem chuvas,
nem amores
Quero qualquer coisa que traga no tempo certo
a inquietação dos circos da minha infância
e a recordação primeva do amor que foi criança
e como criança amou sem pensar em amar,
sem pensar em nada que não fosse
o acalanto singelo do teu corpo
beijou sem saber beijar,
sonhou deitado em teu colo
ouvindo o silêncio... longe
tão longe...
Impossível atinar com o que o silência dizia
Eu só compreendia você
e o lindo esboço de mulher que você era
deitando os teus segredos nas nossas tardes
Teus olhos negros como um rútilo arco-íris
de todas as cores
Negros como a noite que fecha os olhos
e tudo em volta se enovela em escuridão
No interior da noite escura e rutilante
um menino querubim escreve teu nome
em todo o tempo perdido,
em toda palavra não dita
em todo o silêncio que nada diz
e que, no entanto, não deixa que fujamos
para as cidades hipotéticas do atlas geográfico,
a grande fuga...
que me sustinha em seu vulto,
mas que nunca aconteceu
pois que o mundo existia só em você,
na sua presença sem razão maior
a não ser o nosso afeto
na sua ausência sem razão maior
a não ser o tempo que passou sem responder
ao amor que era para sempre
e que terminou num dia plangente como o de hoje
onde uma chuvinha fininha cai
enquanto o tempo envelhece alheio a nossa vontade
Lá fora o céu toca o chão e se confudem
as copas verde das árvores
com o cinza úmido e os caminhos insuspeitos dos anjos
A noite fechou os olhos
Dormem as árvores,
dormem os anjos e suas verdades
Enchem o quarto e velam minha noite
os versos que falam de ti,
os gestos a me lembrarem de ti
A vida girou a roda e tudo agora
é este invísivel cansaço,
pois que sendo o amor um arabesco
talhado na alma como desfazer o elo
que está na ilusão que fica para além,
para além do amor
em algum reino profundo
onde habita,
numa ilha,
o menino que te ama
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Amigos

Os amigos, separados pelo tempo abstrato,

pelos caminhos de argila,

pelos rios e suas pontes ligando a saudade

à impressentida nostagia da ausência

enquanto em todo o céu é primaveras,

relembram estes ínicios de novembros

onde desabrocham flores por entre as frestas das pedras,

pequeninas flores interropendo

a estrutura calcinada pelo fogo do tempo compassado

a encher de presságios a vida e a alma



Girando sobre as folhas soltas do outono

a silhueta do vento derruba a gota de orvalho

e pousa no poema

e cria a lágrima

nos olhos verdes da solidão



O poema nasce assim, sem luz, sem nome

por enquanto somente esta lágrima da solidão

rio sem sementes,

sem momentos,

um sonho que fosse

um barco sem vela nos imprecisos ventos do agora

estrelas no firmamento tiritando aos olhos da lua

embalam a noite no ar

brotam saudades do chão

e o poema se expressa entre a saudade e o sem nome



Enquanto os amigos se esperam

Enquanto o vento gira

Enquanto o poema nasce

um pouco de nós fica nesta ausência

gestos,

risos,

vozes

e as mãos cheias de nada



Fica, em meio a tudo, este tom de tristeza

Fica, apesar de tudo, estes novos poemas

e a janela das Luas Antigas

onde me debruço a olhar a vida e o mundo

com olhos distraídos de artesão de estrelas

e sonhos ociosos e incognocíveis como um mistério



São tantos os momentos que fogem

e calam no gesto de demora das flores

São tantos os momentos de indagação

dos barcos rumo ao porto

São tantos os silêncios,

que quase ninguém ouve

São tantas as esperas

que a areia escorre da mão

fluída como a vida em grão



Os amigos relembram o primeiro segundo,

a última hora de tantos novembros

a perguntar pelo passado que imiscuiu-se à multidão,

bosque ou jardim,

ausência amorável

como o perfume da rosa

como um dia que amanhece

sob o encanto do dia que o precedeu



A brisa caminha em tempos e sonhos

que a chuva deixou no jardim

insinuando tardes brandas

e paisagens convidando à nostalgia,

abrindo a porta das gaiolas

para que fujamos todos...

um dia



Marulho do mar

O silvo do vento passando pela fresta da janela

Houve um tempo

em que o vento despenteava o meu cabelo

e secava a lágrima que, às vezes, caía

só e silente

como a única verdade de um instante

Na distância, o rumor do vento soprando,

secava as gotas de chuva nas pétalas das flores no jardim



A vida esquece-se no rio

deixa-se levar

tecendo os fios da urdidura

enquanto nas margens

os amigos se esperam



Esperam o momento dúbio

de um possível reencontro

em outras primaveras onde as flores são abandonos,

outros outonos?

inumeráveis verões,

nas noites estreladas de um inverno

onde as saudades são quentes e ternas

Esperam, os amigos,

assim esperam

cativos de tantos outros dias



E a vida, assim, torna-se indispensável
713

Preciso





Preciso

Espargir a flor

com a água da concha das mãos

Cantar a canção

Entender a folha branca da ilusão

Restituir ao poema

a verdade com a qual te amei

Esperar no precário minuto

o penhor de outra noite

outra manhã

Acordar a manhã

e mergulhar meus dedos em teus cabelos

Acordar os anjos e o menino do retrato

Beber do orvalho

o alivio para a sede eterna



Preciso

Apagar o desespero

dos passos presos na areia,

presos nos espelhos

dos sonhos ante o meu rosto

Expressar o suspiro

o sussurro ermo e terno

a saudade sozinha

Pressentir da existência o segredo

Ter um motivo para ouvir o verso

se agora ando desperto

e o verso é sonho sílfide em meio ao mar

Calar a voz da mentira

Tecer a delicada liberdade



Preciso

Esperar a carta

(que já não se usa mais)

que cheirava a cravos rubros

amarelas rosas

que trazia teu aroma espanhol

e, por acaso,

um fio do teu cabelo

desejo e ânsia que o dia trazia

como essência nas tardes

que eram só nossas



Preciso

De um amigo

(e quem não precisa?)

que possa escrever a carta

que ainda espero

Um amigo que saiba da consumação

inelutável do existir

e do silêncio que pode haver

nas palavras

e do encanto que pode haver

nas palavras

e das palavras

que podem haver nas palavras

fios da urdidura da serena

humana alma

Um amigo que fale de nostalgias

e que tenha brincado em ruas de terra

na infância

com seu pião batatinha

com sua bolinha de gude matadeira

Um amigo que colha estrelas

nas noites pintadas à mão

Que leia a poesia

e não reprima a lágrima

ou o riso sem explicação

Um amigo que saiba do meu sonho

e saiba do encanto que os sonhos têm

e do devir que os move

Um sonho que engane as noites

que o próprio sonho desfaz,

ah! amor, tão frágil é o passado

tão lindo o vento na acácia

e nos cabelos das meninas



Preciso

Dos dias vagabundos

Das ruas de terra

Das enxurradas

Das flores primordiais

Da voz negra da noite

Dos teus olhos,

prenuncio das noites

envolvendo o mundo



Preciso

Do sono em teu colo

Da inocência nos teus braços

Da meiguice nos teus olhos

Da nudez casta

e ofegante nos teus beijos



Preciso

Perder a hora

e a compostura

Bater à porta da lua

Perder os sentidos

Mudar-me

de vez para a infância,

para aquela rua Maria

Incendiar a palavra

que me define neste instante

Escolher a mão esquiva

e o gesto que dorme

entre as nossas mãos



Peciso

Continuar

apesar do meu medo

Acostumar

meus olhos à escuridão

Fingir

que não sei da guerra

Chorar

a dor soterrada do homem

Suprimir

em todos os corações a indiferença

Aprender

um novo idioma

Dormir

o pranto e esta melancolia

Colocar o passado em seu lugar

Ver crescer o outono

e as folhas que caem longe

do engano das horas,

longe do mar

Ter tempo,

sobretudo,

para o morrer

da irresoluta persona

e, então, calar os ventos

Guardar, silenciosamente,

a tua ausência



Preciso

Desta solidão

com o seu manto de sombra bordô

vinda com o ocaso do dia,

pulsando a noite que se inicia,

suspiro de harpa,

rumores de poesia



Preciso

Desta solidão

onde começa e acaba o ser
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A rosa amarela do dia

A rosa amarela do dia

desliza na manhã

de um mundo velho,

vago,

sequioso

O amor não é poesia

no velho mundo abstraído

O amor é folha de

outono,

adeus,

passos de nuvens

rumo aos teus olhos

negros

O céu, roçando o mar,

tece arco-íris

na poeira úmida

das cores condensadas

na miragem das praias

à deriva

Os ventos balançam

as folhas laceradas

por este inverno

de horas melancólicas

A um canto

há um grito

que ao meu canto

desvirtua num fragor

plangente



Vi a rosa amarela do dia

deslizando na manhã

por entre os morros

dispersos ao longo

da vida que desliza

sob conceitos e

palavras sem nome

Tudo caminhando

lentamente

Perpassando a manhã

o som de um sino dobra,

circunspecto,

embebendo os olhos

e apascentando corações



Um sol, recriado no lago,

arde em chispas

ao murmúrio das águas

A brisa azul esvoaça

o amarelo do dia

Cores a desdobrarem-se

na onda turva e reflexa

no som cambiante,

nas sombras difusas

que acordam encharcadas

da tua ausência

do meu exílio

e ébrias de

[solidão]
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