J L Silva

J L Silva

n. 1959 BR BR

n. 1959-08-23, Florianópolis

Perfil
37 691 Visualizações

Ausência

Na manhã que te levou
Na tarde que não se cala
No beijo que não te esquece
No abraço que ainda aquece
Na noite que te esperou
Na cama onde agora dorme o frio
Na tua ausência doída
Num quarto vago e vazio
A saudade deita seu corpo
Junto ao teu corpo macio
Ler poema completo

Poemas

11

Depois da chuva

Depois da chuva a tarde se fez dourada

O sol debruando em vermelhos o vento que passa

E canta

Canta a canção

E entoa os versos candentes da ausência

Suspeitando do sentido da vida pouca

Da pouca vida

Dos parcos passos miúdos e urgentes

Cantam os pássaros outras razões

São melodia e compasso da tarde que se farta

De cores e sons e incandescentes vermelhos

A tarde flana na quietude dos jardins

E na presciência das flores nos jardins

Está tudo tão quieto...

Tudo tão longe

Este silêncio sem voz

Estes segredos agonizantes no ar

Esta pele perfumando a vida em volta

Esta esfinge que me inquiri incansavelmente

Estes caminhos remotos

Onde já não me sei

Quando já não me sou

Fecho meus olhos cansados de não ver

E sinto o ar difuso no labirinto das perguntas sem respostas

Respostas que não há ou, se houver,

São grades e colunas a sustentarem

As prisões erguidas sobre os campos de crenças e ilusões

Nada existe independente da sombra e da luz

Tudo é sonho e engano fora do Amor

Mara é o sonho vígil

De onde só há uma porta para a fuga

Arde no horizonte o sol poente e o enigma de todos os dias

Minhas mãos fugidiças

E úmidas da mais plena solidão

Selam os lábios à memória dos olhos negros

Que desde cedo me fitam

Que desde sempre me têm

Olhos que o amor primeiro pôs no barquinho de papel

Rumo à ilha que emerge nos pingos da chuva

Rumo às sombras abandonadas de uma vida pouca

Sentimentos poucos

Muitos medos

A ilusão que baste

Mas há a renitente expressão do amor

Ou do que fizeram dele

Há a indelével sombra do mar

A sombra do mar é o que as palavras não são

Sinto saudades do cheiro do mar

Da maresia

O intangível mar desenhando agonias na areia

Ouço o mar esbatendo os vermelhos da tarde

Ouço aqui, sozinho, a canção da tarde calma

A tarde é o momento cravado no vazio de um tempo ignoto

É pouca para o destino que os dias roubam ao eco dos caminhos

E é pouca a tarde para tanto amor

É pouca a tarde para o carinho

É pouca a tarde

Vaga e alheia

Escondida entre palavras distantes e dissimuladas

Encoberta pelo véu da indiferença

Onde o que eu sou é quase nada

Não fosse esta rosa branca no jardim

(Que só existe e floresce dentro de mim)
619

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.