COTIDIANO
Mais uma manhã:
Acordo meus desânimos,
Visto meus problemas,
Calço minhas ilusões,
Escovo minhas dúvidas,
Tomo um gole de fé,
Coloco o sobretudo de convicções
E saio apressado.
Uma vez na rua,
Sinto-me nu
E desamparado.
PRESENÇA AUSENTE
O homem cheira mal,
É imprevisível,
Ressentido
E mal humorado,
Mas
Seus pensamentos
Cintilam Incólumes:
Sem cheiro,
Sem torpor,
Sem dor,
Atemporais.
Apegar-se ao homem
É pular no desfiladeiro.
Agarrar-se a seus pensamentos
É flutuar sem paradeiro.
SOMOS TODOS E NINGUÉM
Estar em todas
As vidas,
Sem a nenhuma se prender.
Casando hoje,
Morrendo amanhã,
Diplomando em seguida,
Correndo atrás de pipas,
Chorando a perda de um amor,
De volta à infância, com furor.
As vidas em turbilhão.
Vivendo além do possível,
Sem jamais cansar.
Sem remorsos,
Sem medidas,
Sem sequências,
Sem porquês,
Mas sempre
Prisioneiro do absurdo.
Bons dias,
Maus dias,
Sei lá.
Mais mais,
Sempre muito,
Além do controlável.
Chegando, partindo
Chorando, sorrindo
Impassível,
Tudo junto.
Uau!
Para agora
Esta roda,
Que me gira
Feito argila.
Piração.
Chega, chega,
Para agora
Esta ilusão.
Já não aguento
Esta farra,
Quero minha identificação.