INSTANTE
Este instante:
Minha sangria.
Fósforo aceso,
Na ventania.
MANHÃ
Flores a brotar,
Nas cores do arco-íris.
Lento despertar.
RUMINAÇÕES
O que fica da estrada,
Quando não se quer mais caminhar?
Lembranças de idas e vindas.
Nada mais.
O que fica de uma música,
Que só trechos consegue lembrar?
Reminiscência.
Nada mais.
O que fica de um erro,
Preso nas teias do tempo?
Vontade de não mais errar.
Nada mais.
O que fica de um problema,
Que não se consegue findar?
Ele mesmo.
Nada mais.
O que fica de mim,
Quando a morte chegar?
Prós e contras.
Nada mais.
SONHOS
Andamos sobre esgoto oculto,
Com aroma de rosas na cabeça,
Ouvindo um som culto,
Embora um “funk” nos aborreça.
Assim vamos sonhando,
E a vida vai passando,
E os imaginários confortantes,
Nos mantêm sempre distantes.
OPÇÕES
Viver é ser.
Suicidar é deixar de ser.
Morrer é não ser.
Desaparecer é eterno ser.
LUZIR
Hoje, Júpiter e Vênus
Perfilam-se
No céu da manhã,
E a Lua, triste,
Tudo assiste, enciumada.
DELÍRIO
Névoa azul envolvente,
Sonho inebriante,
Madrugada sem fim.
Tenso e intenso festim.
Ilusões materializam-se pelos cantos
Paixões flutuam enlouquecidas,
Transformando a noite num mar infindo,
Que espelha a Lua, mas sem saídas.
Feixes de luz me rodeiam,
Sons hipnóticos me acorrentam,
Cantos uníssonos me entorpecem,
Perfumes demoníacos me seduzem.
Vórtices de medo, em meu coração.
Turvas memórias, densas emoções.
Angústias estremecem em mim.
Remorsos sem solução.
Perdido, retorno ao início,
Após ter muito caminhado.
No labirinto, busco novo instante,
Que talvez não encontre.
OLHAR
Os olhos claros dela:
Nascem à cada dia, como Sol esfuziante,
Olham-me atentos, feito felina
E brilham como a Lua, ao morrer do dia.
Os olhos claros dela...
Convidam-me a atravessar o deserto,
Em busca de improváveis tesouros perdidos,
Mas meu olhar abraça o dela, temeroso...