ANGÚSTIAS
Lançamos luzes coloridas,
Sobre concretos polidos
E pensamos enfeitar o mundo,
Com tais friezas disfarçadas.
Temos todas as informações relevantes
E de nada isto vai nos adiantar,
Para os nossos destinos poder mudar.
Pagamos em dia nossos impostos
E com isto nos eximimos de culpa,
Pelas desgraças da nossa comunidade.
Trabalhamos e sustentamos nossas famílias
E não damos todo o amor que elas precisam.
Cuidamos das nossas saúdes com esmero,
Mas os anos as sabotam, devagar.
Dizemos acreditar no poder divino
E não conseguimos perdoar.
Vivemos e não deixaremos saudades,
Quando a morte nos convocar.
O chão está chegando
E nossos paraquedas
Não conseguem nos sustentar.
ASTROS
A tarde arde, em transe,
Nos braços de luz do Sol.
Não tarda a noite chegar,
Com suas vestes negras,
Ornadas com estrelas
E a Lua a ostentar.
OSCAR DAS LATINHAS
Personagem da minha infância (década de 50 – Rio Claro/SP)
Sentado no chão, embaixo da linha do trem,
Numa passagem subterrânea para pedestres,
Sempre vestido de paletó e calça social,
Forte como um bebê rechonchudo,
Com os pés descalços,
O cabelo raspado e a barba recém feita,
Os olhos brilhando e a boca, faltando dentes,
Sempre aberta em pleno sorriso.
Aos seus pés uma vasilha de alumínio, toda amassada,
Para coletar suas esmolas, que nunca utilizava.
Sim, o Oscar das latinhas
Era um meninão abandonado,
Mas com pais e mães, por todos os lados.
Como poderia não ser feliz?
Brincando com suas latinhas e vidrinhos,
Que encontrou ou ganhou de seus afetos,
Era a própria expressão da felicidade
Sem porquês, sem poréns... só satisfação.
Nunca deixaram de dar um prato de comida,
Nem de trocar suas roupas ou de possibilitar que tomasse um banho.
Para as doenças, creio que não tinha tempo para elas.
O futuro? o passado? bastava o presente...
Mudo de nascença, deficiente mental,
Sem família, mas com muitos amigos.
Nunca fez mal a ninguém e as crianças o adoravam.
Quando morreu, poucos choraram
E levaram seu corpo, sem velório,
Para uma cova de indigente,
Aberta no chão de terra vermelha,
Do cemitério municipal.
Findou uma vida sem sentido,
Mas, por certo, muito feliz,
Como poucas vidas, cheias de sentido,
O foram e tiveram seus corpos
Enterrados, no mesmo chão de terra vermelha,
No setor pago do cemitério municipal,
Enfeitados por algumas coroas de flores,
Com alguns dizeres padronizados.
Ficou o vazio da sua ausência,
Para os seus conhecidos (e eram tantos);
Enorme, diante da sua insignificância social.
Ali, onde sempre viveu, perto dos trens,
Suas latinhas e vidrinhos,
Alegrias diárias de sua vida,
Foram jogadas no lixo,
Onde a tempos deveriam estar.
Onde estava a magia singela
Do Oscar das latinhas,
Que era a amenidade diária,
De quem cruzava a linha do trem,
Que era o arauto da felicidade,
Admirando suas joias do lixo?
De fato, nunca o saberei,
Talvez ninguém o saiba,
Mas foi feliz e encantou pessoas.
Com sua loucura serena,
Fez parte do dia a dia
Cheio de sentidos e obrigações das pessoas,
Com sua total falta de sentido,
Livre de compromissos, como um pássaro no céu.
Grande parte desta magia,
Estava na figura enigmática
Da criança que não pode crescer
E continuou a brincar com o Mundo,
No que podia dele reter: latas e vidros,
Reluzentes e multicoloridos,
Espalhados no chão, feito tabuleiro de xadrez.
O que mais me intriga
É que de todas as vidas,
Que tive que cruzar,
Rumo ao chão de terra vermelha,
Do mesmo cemitério municipal,
É a do Oscar das latinhas
A que mais me dói a alma,
A dizer, na sua inocência de louco,
Que a vida não deve ser levada a sério,
Sob o risco de sermos esquecidos,
Como ele, para tantos, jamais o foi!
Vivemos como pessoas normais,
Mas não somos mais que o Oscar das latinhas,
Que só tinha suas latas e vidros.
Insistimos em brincar com bens materiais,
Em brincar com as pessoas,
Em brincar com as nossas vidas,
Até que a morte, com seu passo de pluma,
Nos enterre no chão de terra vermelha,
De qualquer cemitério municipal.
FUSÃO
Abra seu portal, querida.
Estrelas que se entrelaçam,
Novas constelações.
SEM DÚVIDA
Entre a cruz e a espada,
Neste tempo de gandaias,
Fico com a cruz com ponta,
Feito espada, para dar conta
De toda e qualquer parada.
GUARDA - CHUVA
Guarda - chuva abandonado
Na sarjeta, desengonçado,
Preto, desconjuntado e sem função.
Descartado na última chuva,
Acompanhado de um palavrão.
Guarda - chuva tolerado,
Enquanto objeto de ocasião.
Passada a chuva, mero estorvo,
Até esquecido e recuperado.
Guarda - chuva que não guarda da chuva,
O vento descobre seu talento:
Infla seu corpo de vida;
Feito vela de navio sem rumo,
Busca caminhos, sem direção.
Guarda - chuva ressignificado,
Pelo vento foi aproveitado.
Tornou-se ente poético,
Pois ficou sem utilização.
RETRATO DE UM HERÓI
Para um rapaz , morto num engavetamento na BR-277, ao salvar sua namorada.
Do seu retrato, sorri enigmático do que deixou:
As alegrias, as esperanças,
As agonias, as tristezas da vida,
Que abandonou sem hesitar,
Sem pensar em você,
Com a mente maior que o infinito,
Com as limitações de um coração aflito,
Sacrificou-se, vencendo o medo,
Para que seu amor continuasse a viver.
Ficamos em lágrimas,
Olhando seu sorriso de retrato,
A nos desafiar a continuar,
A fazer valer este recomeçar
E, sobretudo, a não olhar para trás
E deixá-lo alçar seu voo de águia,
A tentar esquecer dos porquês,
Indo em busca do que restou para viver,
Sem poder chorar abraçado ao seu corpo,
Pois heróis não tem tempo de dizer adeus.
7ª CAVALARIA
Por estradas imaginárias galopas,
Entre súplicas e rezas prosperas.
Tantos não contam contigo,
Eu sim te espero atento,
Com toda minha esperança.
Em sonhos tensos,
Sempre aguardarei,
Que teu toque mágico de clarim,
Ordenando o ataque destemido,
Quando tudo mais parecer estar perdido,
Me proteja de todo mal
E brotem aplausos e gritos,
Como nas matinês de cinema,
Nas manhãs enflorescidas de domingo.
HAI KAI
Silêncio: meu vazio,
Vaso sem nenhuma planta,
Túmulo sem fim.
RUA DA PERDIÇÃO S/N
Putas se escondem nos muros
Úmidos de prazeres reprimidos.
Na agonia do dia, tantos se matam
E espalham o tédio do topo dos edifícios.
Braços lascivos brotam dos muros
E consomem, com luxúria encomendada,
Restos de ilusão incrustados em nosso ser,
Nos cantos sem encantos da vida.