jlsilva

jlsilva

n. 1959 -- --

n. 1959-08-23

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Estrangeiro

e agora
que a vida lá fora
se compõe de palavras longas e vazias
e o tempo é só mais uma estória na estória dos dias
guardo o nada que me diz respeito
estremeço com as manhãs nascendo em meu peito
penhoro o que me restou da vida
o poema fica
fica por inteiro
o poema
o papel
e esta sensação de eu ser em mim um estrangeiro
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Poemas

91

Você vai ficando em mim

Você vai ficando em mim
Como uma doce lembrança
Como um olhar de criança
Descobrindo a flor no jardim
 
Como a chuva na terra
Como o sol no horizonte
Como a água na fonte
Como o perdão pra quem erra
 
Você vai ficando em mim
Como a onda no mar
Como o perfume no ar
Da linda flor do jasmim
 
Como o orvalho na folha
Como o beijo roubado
Como o desejo guardado
Como imagens numa bolha
 
Você vai ficando em mim
Como o amor revelado
Como o segredo guardado
No teu batom carmesim
 
Como o abraço apertado
Como o arrepio na pele
Como o gostar que desvele
O êxtase de ser amado

Você vai ficando em mim
Como o aroma na rosa
Como na face formosa
Os olhos de um querubim
 
Como os desejos contidos
Como o afã verdadeiro
Como aguardar fevereiro
Para perder os sentidos
 
Você vai ficando em mim
Como as estrelas no céu
Como a nuvem ao léu
Como a cruz no marfim
 
Como o amor que semeia
Como os braços na cruz
Como o som que produz
O sangue em minha veia
 
Você vai ficando em mim
Como a tinta na tela
Como a luz de uma vela
Iluminando o meu fim
  
Como esse imenso sentir
Como esta saudade intensa
Como o amor que compensa
Toda esta dor de existir
160

Pedido

Amor, eu quero te fazer um pedido
Que o meu coração reclama
Amor, quando eu estiver distraído
Enlaça o meu pescoço
Fala no meu ouvido
Diz que me ama

162

Quando tu fores

Eu penso a dor que há de ser quanto tu fores
Quando o momento de partir crescer em mim
E o beijo que nunca foi dado rir-se do seu fim
Enquanto a voz grave do adeus cala as flores
  
As noites hão de ser constantes madrugadas
Caminhantes notívagas num céu adormecido
Por onde anda o vento frio, triste e esquecido
Murmurando passos quiméricos nas estradas
 
Ah! Quando em teus olhos a cor do céu fugir
Quando o mar em densas brumas me encobrir
E o meu olhar imerso em dor não mais te ver
 
Que o vento arraste as cinzas nuas da saudade
Para que o meu coração esqueça de te esquecer
E para que este amor faça-se em mim eternidade
181

Passado

Porque dizer desta distância
Se a distância é só saudade
Se há entre nós tantos céus
E tantos rios e tantos mares
Se a saudade da qual falo
É a mesma em todos os lugares
É a mesma que espera ali adiante
Fazendo do longe o mais distante
Apertando o passo pela vida a fora
Encobrindo as noites com um véu escuro
Fazendo do hoje um tempo antigo
E do passado um tempo que não vai embora
147

A saudade deita seu corpo

Na manhã que te levou
Na tarde que não se cala
No beijo que não te esquece
No abraço que ainda aquece
Na noite que te esperou
Na cama onde agora dorme o frio
Na tua ausência doída
Num quarto vago e vazio 
A saudade deita seu corpo
Junto ao teu corpo macio
178

Longe de ti

Amor, sem ti sou ausente
Sou vida virada do avesso
Sou história sem fim, sem começo
Sou histrião descontente

Sou noite sem luz, sem luar
Sou lua em fase minguante
Sou o inferno de Dante
Sou dançarino sem par

Sou o inverno chegando
Sou um caminho sem fim
Sou máscaras fixas em mim
Sou um errante buscando

Sou a mão gelada da sina
Sou passarinho em gaiola
Sou cativo preso em argola
Sou a música que desafina

Sou folha solta ao vento
Sou a poesia que espera
Sou saudade que dilacera
Sou dia que passa lento

Sou o que guardo de ti
Sou a distância que dói
Sou o tempo sutil que corrói
Sou a sombra do que eu vivi
 
Sou barco cuja vela rasgou
Sou imitação de mim mesmo
Sou meus passos andando a esmo
Amor, longe de ti, nada sou
188

Entre

Entre as palavras não ditas
Há muitas flores formosas
Há orquídeas, lírios e rosas
Há cores que nem acreditas
 
Entre o silêncio que esquece
De dizer as palavras inteiras
Há vozes, sutis brincadeiras
Que a tua razão desconhece
 
Entre o sentimento que fica
Como se fosse a lua e o sol
Como a tarde lilás do arrebol
Há o tempo que purifica

Entre as minhas mãos e as tuas
Ficaram a emoção e o carinho
Que mesmo eu estando sozinho
Há o calor das lembranças suas
 
Entre os meus lábios e os teus
Há a dor da palavra que chora
Que foi dita quando fui embora
A interminável palavra do adeus
178

Vai

vai,
e pé ante pé,
deita-te como a manhã
sobre este tempo leve e quente
que tu és
tempo claro,
maduro,
brando como os pássaros
glauco como a grama do jardim
deita-te sobre este tempo assimétrico
gravado e recluso nas folhas das flores
que em folhas secas em tantos tempos se desfazem
e cobrem o chão
ancoradouro dos meus passos
que renascem minuciosos e breves
em rumores
pequenos atos ocultos
que assim se escrevem
na farsa dos caminhos que me levam
177

Enquanto aprendo a morrer

ah! se houvesse uma noite
para descansar o cansaço de sempre ser
pensamento
eterna memória
passado
o grito na margem abandonado
o enredo ou soluço das naus sucumbidas
a luz acendendo o porto na tarde devagar
o silêncio e a sombra amoldável
tudo sufocado
sendo só
 
sendo só
enquanto se aprende a morrer
com o limo verde dos rios
com o gesto noturno da flor desfeita na espera
com a canção doída do mar a solfejar nos rochedos
 
ah! se houvesse uma noite
para descansar o cansaço de sempre ser
nuanças e sussurros das águas mastigadas
 
ah! se houvesse a noite inconsolável
o prelúdio do lamento de tudo que não esqueci
a tarde incendiada
pelos perfis amarelos e ardorosos dos girassóis
a lua nova num céu intrínseco e túrgido
o ritmo suave dos meus versos intocados
lembranças de quando eu era criança
as mudas inquietudes das noites tocando em mim
o choro e o soluço sufocante
os seios róseos de Pingo
duas rimas de poesia
me ensinando a morrer
dois versos a cada dia
 
ah! se houvesse a noite inconsolável
e depois do rumor da noite a morte se fazendo
redimida e arfante
quando eu aprender a morrer
e de tanta melancolia
a morte se faria
nua e vã
como se faz poesia
rascunho escrito no cerne da areia
palavras atravessando o destino
esperando o momento dilatado
do sonho do sonho de ser menino
desenhado no espelho
cubo de vento
caminhos gélidos de fogo
e segredos
estou só
nesta vida emprestada
o tempo passou
e o que é de meu é coisa alguma
é a trapaça do tempo dizendo nada
179

Vem

vem,
e traz contigo as folhas caídas
traz contigo esta saudade que acabou de acontecer
traz os teus olhos para eu ver
a noite clarear o mundo
as rosas acordarem os passos ledos da madrugada
traz o silêncio
e a quietude das nossas mãos enlaçadas
no instante do amor

vem,
e deixa escorrer tua seiva
em minha boca cativa do teu gosto
amiga, amante, poente
deixa-me beijar o teu rosto
e dizer sempre e tanto que te amo
um te gostar tão contente
pássaro sem destino que sou

vem,
dormir sonhos profundos
depois de misturar os nossos gozos
depois de misturar nossos mundos
depois de repousada a madrugada
vem secar a lágrima que nunca se derrama
posto que a vida é trama
e esta paixão que é tão pura
deita-se conosco na cama
beija teu corpo e jura
carícias e silêncios
soluços cravados em tantos ais
sem nome
em tanta sede sem fim
do que de ti há em mim

vem...
169

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