Jorge Santos (namastibet)

Jorge Santos (namastibet)

n. 1961 PT PT

Que fazer, se assombro tudo que faço de medo e a fracasso ...

n. 1961-07-03, Setúbal

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Sombras no nevoeiro




(Sombras no nevoeiro)
Sinto que sou um poeta falhado,
E escrever tornou-se uma tarefa
Balofa, à qual me não dou de todo,
Sinto um receio que m'atabafa,
No que digo, como se fosse eu, Rossio
De vão d'escada, fico-me p'las deixas,
Bem lá no meio duma seara de joio,
Aonde se não diferença vultos e névoa.
Não espero troco nem pago de saldo,
Justo por algo que não tem pra'mim custa
Nem apego, julgo que me sinto dividido,
Entre o que digo e o que dizer me basta,
É como é, o reverso e a medalha,
De um lado, vem algo inscrito,
E do outro nada que o valha,
Apenas o dom e o dia de morto.
Sinto que sou um poeta falhado,
Por todas as razões e d'outras,
Apregoo estas de telhado em telhado,
Mas confesso-me cansado d'inventar desculpas,
Pois nem tenho assim tanto de escritor,
Como um louco
Tem, do cajado dum actor,
Ser o seu sólido especo...
Jorge santos (01/2013)
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Biografia

Poemas

9

Curtos dedos

Amarro-me eu, pl's beiços
E a mim mesmo, plas cordas que teço,
Não faz mal que sejam pequenas ou finas,
Assim tenho os mesmos lugares
No mundo onde me perder
E o fôlego todo,
Pra tecer coisas mais duráveis,
Qu'estes curtos dedos.

Sei que preciso de Primaveras em meu colar,
E do calor do Verão pra derreter o gelo,
No olhar e no beiços aramados,
Que resistem e me prendem a estas paredes
De cal e gesso, brancas como neve de gelo,
Duras do arame em estuque...


Jorge Santos (01/2014)

1 070

Imprevisível

Sinto-me tão transparente
Que nem sei se algum dia
Me tornarei previsível...


Jorge santos (01/2014)
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Noção de tudo ser menor que nada.

Noção de tudo ser menor, que nada
Ser - A lua brilhando inchada,
O ventríloquo coração
A compensar a excessiva exatidão,
O embarcar com bilhete só d’ida,

Pro lado vazio dest’alma,
-Fugir de tod’esta gente,                                                        
Como sonho desinteressante,
Que mal se recorda,
Como um cão sem dono nem ladrado,

Fui passado sem presente,
Vagão passando rente
Ao suicida, a ironia do falhanço,
-Sendo eu, em tudo o que faço,
Causa/efeito do falso sentido.

Sou de tudo num dia e nada
Noutro, senão palhaço,
Desses a que se dão corda,
Na grotesca marcha do corço.
Sou forcado de curro e cornada,

O ventrículo e a laça aorta,
Servindo literáriamente de forca,
O sentimento de natureza morta,
Que foi no voar, uma ave branca,
Quando esta, o voar abranda…


Joel Matos (01/2014)

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874

Estátuas de cal-viva

Estátuas de cal-viva

A palidez excessiva

É o que torna perpétuas

As estátuas de cal-viva

E tristes as madrugadas,

 

O que posso dizer,

Dos donos das heras,

Devorados p’la larva pária,

Da honra de não morrer.

 

-Como querendo não querer-

Assim escrevo…

Por impulso, duvidoso                                                      

Do paradigma que sou,

 

Assumo o meu ser

Inacabado,

Celebro o que falta

Dizer sem dizer,

 

Oxalá o dia

Acabasse manhã cedo,

Para que pare o querer

Libertar-me

Do tributo

Que presto ao pensar,

 

Acordar de novo,

Não sendo servo do que escrevo,

Aonde não houvesse chão,

Num colchão de ar,

(Se de poesia fosse feito)

 

Mas só estou triste

Numa face,

A outra não resiste

À cal e perece,

Consciente, esquecida.

 

 

Jorge Santos (01/2013)

 

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1 083

Sonho de lugar nenhum

Enquanto na atenção o respirar ponho,
Houvesse um bater de coração mais genuíno
Que o vento a soprar no cortinado,
Como um diapasão enquanto o respirar sonho:
 -Lado nenhum.

Preciso dele cercano, apontando
Pra mim, como quem diz vai…acredita
Como precisa todo o poeta finado
Qual cerca de extremos sus fraquezas 
Não trago uma lua vera porque me chamo,
Lugar-comum

Não trago uma lua de cera  no bolso,
Nem das penas d’além coberto sou,
Quero almoçar o sol suposto, cru e em jejum,
Sem pressa e acordar desnuado ou nu,
De corpo descalço e em viva chama.

Em pensamento eu penso que serei o resto,
Senão dos pródigos sonhos que semeei. 
Sonhei um prado em extensão entre o brilho do céu
E o ermo do meu peito terreno e no suão vento-

Houvesse um bater de coração mais genuíno.
E  suposto seria ter um pouco do meu…


Joel Matos (01/2014)


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962

Poeta acerca...

Poeta acerca...

Pra’lém do que há, o mais certo é não haver
Mais nada a juntar ao que já existe…
Ideia absurda - a realidade ser equidistante,
Da visão dum louco, quanto do meu ver.

Em encontros casuais com a realidade,
Parecemos formar um par perfeito,
Funcional, diria até, um casal de respeito,
Que acaba discutindo como qualquer outro.

Coloquemos, entre quatro paredes, sem ar,
O quadro a óleo, de uma pintora morta, praticamente famosa…
Continuará abstrato, na anónima estrutura do pretenso lar,
Como uma peça morta, do que se pensa ser- A NATUREZA-

Assim somos, eu e a realidade, descremo-nos,
Mas procuramo-nos mutuamente, nos pensamentos
Um do outro, ansiosos, como tudo enquanto espera.
Apenas não creio que seja efetivamente verdadeira

Ou quem diz ser, estando eu um passo distante dela.
Pra’lém do que há, haverá sempre, uma versão outra
Do real, escarrapachada nos céus, feita linha ou tela
E um poeta acerca, que no fundo, tudo o resto ignora.


Jorge Santos (01/2013)

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1 166

Quando a morte vier







Quando a morte vier dos céus,
Roubar os sonhos meus,
Quero estar por perto,
Pra apontar o destino certo,
Aos sonhos que nem sonhei.
Céus que nem sonhos têm,
Sonham sonhos, como quem os tem,
Não importa se seus, ou se eu-lhos-dei,
Pois, quando a morte vier,
Impressa em letra d'Imprensa,
Toda a gente poderá ver,
Os nublados véus, da minha pouca clareza.
Os céus, são banhados de tédio,
E as letras mal fixadas,
Morrem cedo d'silêncio,
Com as estrelas a elas pregadas.
Quando a morte vier dos céus,
Quero ser pregado, (eu sim) p' los dedos dos pés,
A uma pergunta capaz,
De ser respondida por um vulgar deus,
Desses...mudos quando pregados na cruz..
Quando a morte vier,
Trocarei os sonhos, por doutros
Sem uso, d'algum simples coveiro,
Não me sentirei de certeza vaidoso,
Mas jamais algum deus,
Hasteará nos céus, meus sonhos, pra seu
Único e exclusivo pouso...
Joel Matos (01/2014)

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(A minha mãe língua, mora no vento forte e só a sorte a amarra... e a morte... )

1 792

Nunca darei notícias







Nunca darei notícias, contudo
Virei sedento, do que vi por dentro
E do que trouxe do silêncio,
Das esquinas caiadas, de prata e nata.


Visto que morei na rua, nunca darei notícias,
Aos que quero tanto,
Virei com vontade atenta,
E lembranças na pele, do trajecto.


Virei com a lembrança da cal na boca,
Virei do encontro no espelho, com o nada,
Virarei ruas, cidades e ruas sem idade,
Vinhas de religiosas terras, iras e paixões.


Vi os lugares inclinarem-se-me e as estradas,
Vivi as terras, vi estrelas e profanei equívocos,
Nos serões normais, fiquei comigo, e nas paisagens do trigo.
Visto que sonho demais, nunca darei notícias,


Meus passos serão como os deles, lajedos puídos
Mas o meu coração estará descalço, longe,
Ainda que perto, das coisas simples, formais,
Fugindo de um corpo encantado.


A chave do dia será o pensamento,
A volúpia do singelo e o variável,
O sobressalto da escada, sem corrimão,
-Vi uma dessas em parte alguma, na lua


E na soma dos instantes, do passo lento
E o longe simulará o perto ou a aparência, o incerto.
-Nunca mais voltarei a rasgar desesperos
E a fingir que atravessei continentes...


Joel Matos (12/2013)
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1 061

Quase toco naquilo que penso.

Quase toco naquilo que penso,
Mas se penso na verdade que me toca,
Nem toco aonde acaso eu penso,
Nem penso aquilo qu’inda me toca.
                                                      
O facto de quase me sentir pensar,
Não acalma nem apresa,
A pressa da alma em se dar,
E ninguém conduz com tanta pressa,

Como o pensamento a est’ alma,
Com o dever sem sentido do sentir
Consentido, sentir o longe perto…
Sentir lá fora, o mundo d’outra forma,

Em todos os números-primos da dor intensa
E o conteúdo do sentir insatisfeito,
Quase tocando, aquilo que o cerca e causa
E nos materiais de que o pensar é feito,

Quais largados, em contramão no drama,
De gente, que sente como quem se não tolera,
À falta de se duvidar, em dor e chama,
Em parte igual dele e deste clã na Terra.

Quase sinto aversão áquilo que sinto,
Conquanto toque no que sonho, em vão
Ou não…nunca percebi o quanto
Da razão dista o desacato neste coração.






Jorge Santos (01/2014)

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1 021

Comentários (5)

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nilza_azzi

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

obrigado a todos que me leram

ricardoc

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992

muito intenso seus poemas, adorei.

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Se a cólera que espuma, a dor que mora N’alma, e destrói cada ilusão que nasce, Tudo o que punge, tudo o que devora O coração, no rosto se estampasse; Se se pudesse o espírito que chora Ver através da máscara da face, Quanta gente, talvez, que inveja agora Nos causa, então piedade nos causasse! Quanta gente que ri, talvez, consigo Guarda um atroz, recôndito inimigo, Como invisível chaga cancerosa! Quanta gente que ri, talvez existe, Cuja a ventura única consiste Em parecer aos outros venturosa! Raimundo Correia -Raimundo Correia