Jorge Santos (namastibet)

Jorge Santos (namastibet)

n. 1961 PT PT

Que fazer, se assombro tudo que faço de medo e a fracasso ...

n. 1961-07-03, Setúbal

Perfil
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Sombras no nevoeiro




(Sombras no nevoeiro)
Sinto que sou um poeta falhado,
E escrever tornou-se uma tarefa
Balofa, à qual me não dou de todo,
Sinto um receio que m'atabafa,
No que digo, como se fosse eu, Rossio
De vão d'escada, fico-me p'las deixas,
Bem lá no meio duma seara de joio,
Aonde se não diferença vultos e névoa.
Não espero troco nem pago de saldo,
Justo por algo que não tem pra'mim custa
Nem apego, julgo que me sinto dividido,
Entre o que digo e o que dizer me basta,
É como é, o reverso e a medalha,
De um lado, vem algo inscrito,
E do outro nada que o valha,
Apenas o dom e o dia de morto.
Sinto que sou um poeta falhado,
Por todas as razões e d'outras,
Apregoo estas de telhado em telhado,
Mas confesso-me cansado d'inventar desculpas,
Pois nem tenho assim tanto de escritor,
Como um louco
Tem, do cajado dum actor,
Ser o seu sólido especo...
Jorge santos (01/2013)
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Biografia

Poemas

24

“Hannibal ad Portus”


Ter liberdade é ser espontâneo, livre de sentir as asas, sem ter de pesar o chão.

“Hannibal ad portus”

Neste porto das almas puras, peregrinas e avulsas, todas as poesias têm uma porta e uma valência profana e profunda, ínfima e infinita, branca, uma visão vaginal que por vezes é mais outra coisa, outros mundos ainda mais levitáveis que a própria emoção do parto, a imaginação é um esqueleto vegetal moldável de todos e de ninguém neste mundo, um manifesto ao desconhecido que não se sabe existia ainda de antes do tempo existir complexo, completo ou variável consoante o argumento, o hemisfério intimo, o córtex de cada uma das almas que por este portal entram assim como fossem em branco, presenças papel, isentas criaturas semi-virginais e vagas, sensíveis que não aconteceram nem acontecem sem permissão da inteligência dest’outro cosmos entreaberto em rosas púrpura, divinais e belas, puras puras
A alegria que eu tinha era a de descrever a geometria do que sentia nos ombros, dos cantos da boca à linha direita torcida, dos cabelos, do queixo, nos nós dos dedos de tristeza fixa e pobre com que fico me convence, é uma maldição rasa que espero em vão desapareça, a visão estrangeira com que meço na ressaca dos outros sendo eu ela própria, pródiga não sei no que seja e só a alegria que eu tinha quando era como era inda’gora.
Eterno é o suspiro falado e sempre, sempre dourado será o poente até ao crepúsculo total, doce amado, assim azul fosse de verdade Sol nascente, “Il principium” selado da consciência consciente e de todos os desejos e esperanças, o amplo salão de baile onde vagueiam os nossos melhores momentos, o templo onde tudo somos capazes, agir embalados a desejo, todo que podemos ou possamos ter, dourado como o poente que há-de vir, doce amado ou salgado … genuinamente dourado assim como eu próprio ou o meu alter-ego nascido no mar Egeu.
Por isso digo e enfatizo acerca de desprezar ou desconsiderar a elevada orografia do meu alto relevo e enlevo ortográfico – é de facto intolerável e inaceitável – sou um incontornável “adjectivante” e actor, incontrolável por direito e pela invocação do palco. – Impossível deixar de vislumbrar uma gigantesca montanha para quem não faça uso de óculos bem graduados, simule cegueira selectiva ou estrábica, ofereço grátis e altruisticamente a minha topografia pouco zen, dou o meu alter-ego estoicamente, “de-graça” e todo um esforço intelectual exótico e criativo em forma de lego desmontado, todo o meu e o seu altruístico trabalho em prol de muitos, como um cego sem abrigo abraçando suavemente um feliz “acordeon” ou uma concertina em planas Ramblas de Barça, Harpa na ponte que une Budapeste nos dois lados poentes, em Vienna , no Prado, em Bucareste, no Soweto.
A maldita simpatia, estima ou a esgrima virtual é ou são de facto capciosas, falsas, sou virilmente e crivelmente incontornável nas espaduas, na cintura e no peito nem tanto, afeição virtual não é o meu prato ou órgão predilecto para ser consumido em jejum, insectos não são o meu producto favorito no supermercado, não sou tolerante à lactose quer por fora nem do avesso, quem simula viral afecto por uma institualizada instituição web e fiduciária, é demente, é o que eu sou mas num outro sentido, não simulo sanidade mas loucura premente e de grande porte, não discuto imbecilidades, boçalidades, o meu verniz não estala sempre nem por “dá-cá-aquela-palha” não nas espátulas porque não as possuo para trabalhar mas sim espáduas, não faço uso de matizes primários ou esboços, gralhas, sou o simulacro do fingimento congénito, a institucionalização instituída de um guisado à Bordalesa afinado, quem disser o contrário ou o oposto, mente. Qualquer ser/ lugar vigente ou vincendo onde se transformem objectos lugares e ambientes em amantes visuais, é digno de devoção, da vossa total e honrosa, honorífica dedicação eu estou deste outro lado, o do Pinho Bordalo, a minha vocação é ser idolatrado, escarificado, ser objecto de oração, escanção, conjura.
O que vos ofereço em troca é o meu dom de sonhar alto, é um original estigma contiguo a mim mesmo, um pecado cerebral, um pedaço do ego a contrição de mim mesmo, iniciático e messiânico, pois jamais estarei em saldo nem me vendo a retalho pelo meio da rua, não sou nem me considero um versátil entretenimento de massa bruta, nem de entendimento linear à escala universal, basta-me ser eu para ser algo diverso, divergente, distinto o que sinto, acredito e reconheço.
Reservo a Hiper funcionalidade dos sentidos, do processo cognitivo, à fetal especulação acerca dos relevos sensoriais, do que me vai na alma e dos mais que me inspiram, das fontes que me estimulam, não aos mansos de caráter manco, do heráldico manancial de águas puras e não da manada suja, poluída, porca imunda, da corja infecunda, da gentalha, da gamela social e virtual.
“Hannibal ad portus”
Assumai-vos porra, confessai-vos como gado de pasto que efetivamente sois, sendo eu vosso magnânimo, magnifico pastor e alfange, predador, assumo-vos eu sim, como meus iníquos vassalos, soldadesca fresca e gado menor, carnes para canhão, e contra todos os meus excelsos princípios, considerando-vos, (algo erróneo e capciosamente falso) como nobres animais de carnes flácidas e desconfiáveis aduladores, colocutores, dispositores de alto sabor, de elevados conceitos sub-linguares e subliminares de extremo teor existencial e essencial pra que vos legitime como entidades fiáveis e genuínas na mesa, calibre da qual não são, nem no suporte do prato, serão todavia não jamais, de longe, qualificável ou atribuível estes nobres dons ou qualquer destas qualidades honráveis e honoráveis, suspeito-me pois e assim conspurcado até aos testículos e a vesícula e sinto que estou empregando e comprometendo a minha valiosa e magnífica arte “graphica” e graphya, humilhando-me da verve até ao mais baixo nível ao retorquir com e acerca de plantas rasteiras, carne que nem numa gamela se quer, desprezíveis gramíneas parasitárias que apenas necessitam e esperam por ser exterminadas, não nutridas e ainda menos privilegiadas na salada como estou fazendo agora e com toda a minha aflição, espanto-me a mim próprio conseguir emporcalhar-me ao responder-vos, mas aqui vai, “Quid est quod habet esse”, o que tem de ser será e Cartago tem necessariamente, sem embargo, de ser destruída, “Carthago delenda est” para glória grande de Caravaggio o velho, numa das suas telas.
Pois claro, agora Hannibal o predador, está no porto e aos portões desta cidade menor, que não é bem uma cidade, mas um lúgubre lugarejo sórdido quanto os seus frágeis e flácidos habitantes, cidadãos sitiados, suicidas soçobrados, desconhecidos e vencidos da vida, desonrados, derrotados emparedados vivos, desgraçados sem opinião nem prosa.
Apesar de excepcionais orelhas e magníficos e desproporcionais probóscides estomacais e investindo quase tudo quanto podemos ingerir e conseguimos defecar sem dificuldade mas com elevada mestria, como oleiros em potenciais olarias familiares/tradicionais, temos largos e apurados esófagos, descendentes de afegãos sorumbáticos e pagãos, somos dependurados pelos órgãos genitais por crime de divergência existencial por estrambólicos eunucos circenses, sacrificados fiduciários nas fogueiras dos maldosos e malvados cibernautas por decreto nem sempre presentes mas omnipotentes, esquartejadores de consciências, somos desqualificados, apedrejados por símios seminus e estrábicos orgânicos, expomo-nos servilmente aos mais baratos, feios, básicos escrevinhadores seminais, monossilábicos e somos agredidos das formas mais vis, humilhantes, baixas que se conhecem apesar da diarreia verbal destes ser completa, corrupta e gástrica, de refluxo semi-animal, enjoante, enojante e maldoso, maliciosos carroceiros animalescos a caminho do mercado de gado bi semanal, sem causa básica nem amalgama que não seja escrota, repolho e feijão preto, apenas desgosto, má língua e mácula ao repasto, sem bom gosto, nem afago de vizinho naturalmente sempre bem disposto.
Assumo com responsabilidade a desordem, naturalidade e dignidade a dimensão de humanista Partizan e a de conspirador às sextas feiras á noite na mata dos medos, não traio as minhas convicções nem que me deem alpiste, são tal forma humanas de maneira clara e magnânima nas minhas opiniões , sou magnifico e valente nas minhas partes genitais e magistral nas artes que oficio depois da cinco da tarde, os meus actos mais brandos bradam e ardem como se fossem fogo de artificio ao domingo de ramos, na aldeia da piedade, ponderados quanto honrosos os palavrões e chavões, os impropérios que grito aos quatro ventos, não me calo, quantos mais e ilegais e violentos se estes sim, servirem a defesa da liberdade e da democracia plena, sou condescendente desde tenra idade ao ponto de arrotar um obrigado mesmo que palavras ad.hoc me firam, sou educado qb. e como bolacha maria de agua e sal ao lanche, não faço nem bem nem faço mal em jejum apesar de estar disposto a tudo e até à guerrilha armada e à guerra santa como um bom ateu que se borrifa de agua benta se for disso o caso, aos caos aniquilador e completo se a causa for a calima, a bonança depois da tempestade violenta provocada pelos drusos negros “sem orelhas”, “Pechenegues” beligerantes e pouco fiáveis das florestas andaluzas de inda’gora, franco-atiradores disfarçados embora de chinelos suásticos castanhos e pretos.



Joel Matos (Novembro 2022)

 

 

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53

Doa a quem doa, o doer …



Doa a quem doa, o doer

Diz-se que quem não se sente – “não é boa gente”, gente não sou, nem de bons costumes nem excessivamente afeiçoado a ditados populares, ditaduras impopulares, sentimentos ousados, rosados ou pintados, mas sei que convivo com uma pitoresca “popularesca” francamente insensível, má soldadesca de rede social em part-time, de chiqueiro … esta. O que aparentemente não me valoriza nem me perdoa, apenas me desgasta, emporcalha, por outro lado inspira-me, pois tudo quanto não nos mata, enfatiza-nos, valoriza-nos. Sou um respeitoso desdenhador, mas também desenhador de notações fálicas, enfáticas e acima de tudo sou pouco simpático de cara, sorumbático de rosto, embora afável no que diz respeito a relações cutâneas externas e extremas, tendo em conta que a espontaneidade e o gosto, estão para a escrita, mesmo a fictícia quanto a sensibilidade na formatação do carácter e na cara, na cor que escolhemos e que vestimos para sair à rua logo de manhãzinha cedo, o tom das pantufas de quarto por exemplo.
Não creio que importe a forma exacta, realista como expomos a nossa intencionalidade e racionalidade, não somos tímidas iguanas paralíticas, seguimos o impulso parasitário, eu por exemplo detesto a inercia e a reles insignificância frásica, mas acima de tudo a vileza e a sordidez instituídas, mexem-me com os tímpanos centrais meridionais, não que a opinião alheia me interesse ou gratifique, estou ciente da minha fraca vantagem ou desvantagem face a muitos que não simples actores situacionistas, não há escalas de valores fiduciários na escrita, há sim uma escola de valores gerais, um poeta pode amar o amanhecer e é nessa escala, nessa trincheira que valoriza o som das palavras cheirando a mundo, a inocência das copas nas árvores das florestas, dos céus trigueiros em festa, do grafitti urbano e do alcatrão derretido e não a indecência brejeira, corriqueira do diz que disse, do fez que fez, espalhafatosos e doentios, absurdos de papo cheio, de bate papo banal, merdoso, fraldiqueiro de triste realidade social, do pretensioso dedo mindinho em riste que não no chá das cinco e trinta e cinco, há que saber esgrimir até com tijolos e pedras, mas sempre acima da linha da cintura e à altura dos olhos na testa … azuis claros.
A negação oca, gratuita, o “bullying” é inconjugável, é ácido, cancerígeno e gera metástases, sofrimento, é criminoso na intenção dolosa, doentia de quebrar o que de mais divino possuímos, a autoestima básica, tão importante para todo e qualquer individuo, actuando patologicamente, doentiamente onde se supõe que se albergam as nossas resolutas sensações de individualidade.
A usurpação do orgulho individual e da autoimagem, da autoestima, apenas poderá dar prazer a um ser ordinário, sem identidade, a um individuo malévolo, a alguém profundamente doente, à imitação de qualquer carcereiro, carrasco algoz de Auschwitz, Treblinka tendo um orgasmo e uma ereção, à medida que despe e tosquia meninas virgens para as colocar no forno crematório, no churrasco, ainda em vida. Há metáforas menos reais e felizmente mais felizes que esta na nossa pouco integra imaginação, nos recantos sórdidos das nossas loucas, conscientes congeminações de bestas de carga, de animais de charrua, de feias carantonhas de proa, onde vamos buscar e rebuscar a nossa realidade oca, ultra sedimentária e a outra, nua magra e crua.
Doa a quem doa, o doer sem privilégio de negociação frouxa, manca ou inválida …

 

Jorge Santos (Novembro 2022)

 

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29

(Não hei, porque não tento)






(Não hei, porque não tento)

Coragem,

Não te-hei, porque não te tento,
E eu tenho do que não há, tendo
Não me-hei, porque não entendo
A mim mesmo, embora eu tente

Ter tanto mais do que não tenho,
De entendimento, ou de humano
O receio pelo que nem tento criar
Novo, invulgar, arrojado-corajoso,

Não me-hei porque não me tento
Ou não tenho voracidade, talento
Habilidade, equilíbrio de acrobata
Circense, “lata” vulgar pr’afirmar

Que possuo um pouco por’engano,
Temendo jamais ter valor qualquer
Coisa d’que penso escrevo a índigo
(Não sei, porque nem pouco tento)

Daqui prá frente não falarei d’mim
Mas d’outros, dos bravos da força
“bravo” dos quais eu sou desertor,
Embora não m’considere covarde

Fraco, ou gordo frouxo, que acuse
De crueldade as dores de ouvido,
Ou o ruído do público que pateia,
Finalmente da plateia ao 3º balcão,

Confundem porventura abdicação,
Com falta d’argumento, manifesto
De pura ficção e o actor complexo,
Versus alucinação, lucidez integral

Mas desconecta, descrentes são em
Maior número, não sei porque tento
Trocar o tom na escrita pela dúvida
Indiscutível e essa sim, só minha

Valente e meia, a mística dos deuses
É dita e escrita a forte, encardida
E em índigo, imunda, indigna e feia …
(Não a hei porque não a tento)

 

Jorge Santos (Novembro 2022)

 

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96

Maldade







Maldade,

E o quanto me basta essa,
Que ao preservá-la, sinto-a
Verdadeiramente minha,

Fracamente mau, eu que
Habito num pretenso, falso
Ermita s/instituição herança,

E o quanto isso me basta
Pra descrever sen’detalhes
Dest’outra tensa viagem,

Ao longo de mim mesmo,
Da minha vaidade viária,
Na verdade uma criatura

Maldosa que por s’colha
Sou, mau quanto escura
É maldade na Naja preta,

O ferrão da fulva Vespa
Asiática com tod’a fúria
Que o instinto possa ter,

È quanto me basta, essa
Gula a magnânimo canalha
Magnífico e inclemente,

Não por “dá cá aquela
Palha” nem sequer por
Um qualquer delírio de

Grandeza, polui espíritos
Quer a anjos ou demónios
Mas a maldade suprema

Real com vulto e relevo
Eternos, em cabelo, sem
Requintes falsos, sou eu

Esse, esse é o meu mal,
A minha distinção, o “Graal”
Santo, a excelência Maior

Em todo o horrível esplendor
De crueldade que de mim
Advém e em mim tenho.

 

Joel Matos ( Novembro 2022)

 

 

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144

Do que eu sofro












































Do que eu sofro

Eu sofro da patologia cósmica dos gansos,
Sou como o mundo pois serei
O que sempre fui e sei apenas
Ser, inflexível insubordinado, fulano gasto,

Pardo até no papel em que manso me sinto
Por imposição forçado a ser, ou eu
Mesmo ou um outro, senão o maior, mais básico
Engano entre mim e eu próprio,

Por vezes odeio-me sem ter muita
Consciência disso ou o espírito crítico
De que abdiquei e que me assola, assusta
D’novo como fosse ess’outra alma

Minha, alheia deste mundo, a mola e a bainha,
Embora vivas, fundas obscuras, sem
A definição simples que damos a esta
Vida escalavrada, vivida d’dentro pra fora,

Razoável, de minguas escolhas, migalhas.
Mas tudo isso é um “aparte”, pois no mínimo
Eu sofro de patologia própria, crónica
Tal como o louco que não sabe, supõe

O mal que sofre ao sábado, sendo
Domingo ou então feriado municipal, dia santo
Ou de ramos, convencido d’estar
Calçado, investido de caminhante

E nu, descalço num precipício ou no fio da navalha,
O que eu sofro é um vício manco que
Me causa dissabores nos rins e
Na vesícula me arde, quebro o nariz

Na ressaca porque sim, dor e medo
Fazem parte de quem ainda há em
Mim mas tampouco o relembro, inflexível
Insubordinado, sem cura ou pouca …

 

 

 

Joel Matos (Outubro 2022)

 

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167

Do avesso






Do avesso

Uma aldeia, (que de roupa ela me vista), o fogo
Leva-me da raiz da minha vista “ao monte” travesso,
Sopra-me a inquietação dessa ideia de xisto negro
E poejo, onde o pensar é cego, o beijo longo, longo

E o meu olhar, um legado alado, logro é engano
Como tudo o que e em que me revisto, sangro
Da roupa que’en minh’aldeia é ser gente, o dote
È o sossego de sonhar acordando e vendo o ontem,

Com olhos “à maneira que os ponho” alavancados,
Elevam-me da raiz à minha origem de congro,
À minha infância de recato e regato, o ombro tolerante
Nas fontes, em frente do mato bravo o verde manso,

Da ponte fluvial à velha guarita, do alto monte, do corgo
Ao calvo escombro ardido, mais que poema ou esforço
È o meu grito rouco, a dor de ter perdido meu rosto,
A aldeia, o burel de que me vestia completo desd’o berço,

Parido descaço, colado à via que havia, escura sinistra,
Menor o grau da escada que a cansada estrada, desafio-a
Já que César nunca serei, eu fui das minhas sensações
O próprio veneno, campos rústicos de trigo, o umbigo

Do que havia plantado há apenas alguns dias, humilde
O milho sem proprietário dono, erva daninha è trigo
Triste e a minha aldeia não existe senão na ideia que dela
Um dia tive, ao virar meu coração de cima abaixo

E do avesso … cantando encantado.

 

 

Joel Matos ( Setembro 2022)




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182

Eis a Glande







Eis a glande

Eis a inflamada, a grande e mais infame raiva d’sempre,
As pedras de calçada podem nem ter nome, religião,
Trás ou frente mas possuem cólera tal como gente,
raiva, não fingem ser cegas, são cegas, mesmo cegas

Por profissão, fé, seja o que for, dois olhos sem nascença
Nem descendência de nobre infante, eis a glande vesga,
Pedra polmes branda, branca igual a cal da sé na parede,
Eis a grande confissão do pároco, a farsa do confidente,

Recluso de batina frouxa assim como essa coisa ruim, roxa
Que é a benção ou o perdão que espaço não tem em mim,
Caso perdoasse alguém não seria ao espirito Santo, eis a séria,
A grande, a maior hipocrisia de sempre, a mágoa de haver

Sido Santo ou Pai sem sentido de estado, a humilhação
Dos mansos no primeiro acto, como um reprovável revólver
Apontado à cabeça, a quem chamaremos de Deus para
Vigiar as portas da reitoria, as sombras veladas, a boca

Fechada e a glande inflamada dum frade sem forma,
Eis a grande farsa, nunca uma vara direita uniu dois
Pontos opostos, o servo e o dono da cela, o manso
E o jactante, sete pedras curvas e grossas numa mão …

Joel Matos ( Janeiro 2022)

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161

Incêndio é uma palavra galga





Incêndio é uma palavra gasta
Mas que permanece, pelo que
Devemos limitar as horas da cólera
Ao fora delas, como coisas graves
Que se rejeitam, a respeito

De labaredas, estas não me
Dizem nada, crepitam apenas,
Os outros sentidos, tão carnais
Quanto basta no que me toca,
Incêndio uma palavra banal, falsa

Quando morta de grandeza
E de facto palha, faísca acesa
Incenso, papel jornal centelha,
Nada me dizem apenas indicam
Estados de alma, movimentam

Os lábios, “um-tudo-nada” chamado
Desassossego, Inquietação detrás
Prá frente, enredo ficção em negro,
Incêndio é uma palavra, basta descer
Os olhos pra ignorar da narrativa

A linhagem que simula e a facilidade
Do fogo na origem do mundo, eu me
Expresso pela vista, nunca pelas
Paixões que me dão vida, assim como
O fogo eterno é solene, permanece

Como que passando por mim mil
Vezes sem que me cure do prazer
Que é estar vivo, talvez a última
Versão seja essa, dar a outros ilusão
De ter na alma verdes labaredas

E no coração os mortais desejos
De quem dorme quieto, assim como
Uma vela acesa ou o silêncio branco,
Incerto e sem os galgos argumentos
Possuídos por todos e tantos outros

Cegos…

 

 

Jorge Santos (Janeiro 2022)

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127

Restolho Ardido…





Será na morte que os Homens se distinguem
Dos indistintos e de todas as vidas de causas
Poucas, indivisas quanto o espaço é apenas
Ígneo ou aço, d’resto é corpo ao rés do vidro

Baço, essa sim a perfeita realidade e o “para
Sempre” quando incendiado, será obra d’arte
Alusiva aos que nunca foram ou serão apenas
Corpos retidos na Terra, imortais etéreos

E extensos são os que se distinguem nos dedos
Das impressões e nos cotos, no esgar do s’tranho
Rosto revestid’a loucura e a desassossego, comum
Restolho é fogo posto, assim girassóis no verão,

Será na morte que se distinguem os Homens
Que despertam per’si próprios na obesa forma de
Ferozes criaturas, perigosas Anacondas do mato,
Tubarões do mar alto, Furões Centopeias Descalças

Por castidade volumétrica ou paridade geométrica
Nos ângulos catetos, o esboço que define a valia do
Posteriormente sobre a do fundo dum antigo fosso
Quantas vezes mais casto que enganoso o lodo

Ou o logro do entrudo que a verdade velhaca,
Quantas vezes ancoreta mais vil e gasto decomposto
Que marujo Malaio, sabujo e pé sujo-de-asceta,
Polichinelo de modo algum seria Arauto, Cavaleiro

Real da corte ou Escudeiro de Sua visigótica Alteza,
O Bobo todavia é realmente quem é, sem engodo,
Enganosa a majestade, soberanode caráter minúsculo,
Sem testículos nem barba farta, é uma afronta chamar

Dádiva Legitimidade divina, ao roubo, ao calote
À má fé “Generala” num Império de aroma Medievo
E pés-de-galinha, metal fedendo a má consciência.
Parsifal é o herói da gesta e Atenas caiu anteontem

Em ruínas, rest’o teatro dos parêntesis, o uniforme
De Wagner plissado, o palco, o que finge por grosso
A razão que não há em tudo, até no restolho avaro,
Ardido e pisado, o chão, o fosso, o fraco, o coxo.

Joel Matos (23 Junho 2022)

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“Mea Culpa”





É possível ler na paisagem urbana
Aquilo que é difícil, impossível ver
No meu rosto, o esgar sem esforço
Que nem todos entendem, provo a

Loucura a trepar por igrejas frias, nuas
Pra ver o tísico universo, paciente
Responder a um cego mudo brando,
Eu sou o resultado de algo que nego,

Consequente à minha própria
Inconsequência mecânica,
Por conseguinte exponho na pele
E exponencio na consciência sobretudo

O privilégio régio, magnânimo
Como se fosse vício, delinquência
Galga, quiçá consciente a noção do crime
De pungente mea-culpa,

O aborto métrico, sintético,
O desacato mental genérico,
O pensar mais baixo, mais rude, mais duro,
Resinoso, oscilante e menos pragmático,

Eu sou o mau exemplo, o mau futuro
De tudo aquilo que julgam acerca,
A insanidade mental perfeita,
Com mais defeitos que qualidades,

O pé de atleta, o carbúnculo, o seboso,
O obstetra cego, o nado morto, o gordo,
O gago, enfim o geneticamente cru e cruel,
O amargo na boca, o rabo torto da porca …

Jorge Santos (06/2022)

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Comentários (5)

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nilza_azzi

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

obrigado a todos que me leram

ricardoc

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992

muito intenso seus poemas, adorei.

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Se a cólera que espuma, a dor que mora N’alma, e destrói cada ilusão que nasce, Tudo o que punge, tudo o que devora O coração, no rosto se estampasse; Se se pudesse o espírito que chora Ver através da máscara da face, Quanta gente, talvez, que inveja agora Nos causa, então piedade nos causasse! Quanta gente que ri, talvez, consigo Guarda um atroz, recôndito inimigo, Como invisível chaga cancerosa! Quanta gente que ri, talvez existe, Cuja a ventura única consiste Em parecer aos outros venturosa! Raimundo Correia -Raimundo Correia