Lista de Poemas
FOLGADO
O gato da casa,
Estirado no sofá,
Sestica e ronrona,
E tanto se lhe dá:
Está em sua zona.
Só levanta pra comer,
Correr, pular atoa,
Parecente até que voa,
Pássaro sem ser.
Peludo está com tudo:
Esta noite saltar
Ainda espera, sortudo,
Escalando a janela,
Na espreita, trás dela.
CONTEMPLAÇÃO 1
Cada alface é uma esmeralda.
Valeria a pena cultivá-las
Tão somente pelo prazer de as poder contemplar
Em um dia como este.
A casa modesta, argamassa tingida,
Da janela avista-se a terra em sulcos
E os legumes molhados.
Anoitece.
Quem precisa de iluminação elétrica?
Contentemo-nos com bíblicos lampiões.
ORAÇÃO 1
Não é feita com palavras audíveis,
Mas com lápis e papel.
Como todas as orações,
Esta também brota do coração.
Quero, pois, abrir-te o meu ser,
Expor-te meu íntimo segredo.
Tenho andado agitado por muitos dias,
Esquecido de que permaneço em tuas mãos
Para o bem ou para o mal.
Às vezes não consigo distinguir o que sou:
Um grão de poeira nesta tua criação.
Porém, os teus olhos me conhecem –
Ao insignificante;
Inclinas o rosto
D’além das extremidades do céu.
Teu olhar perpassa as galáxias,
A luz pura do teu olhar varre o universo
E me encontra, e me convence
Da inutilidade das minhas preocupações.
(17/10/1994)
RELATIVIDADE
A visão dos jardins lhe pertence.
O rico não é tão rico:
Ele não pode permanecer acordado.
À TARDE
Que às vezes se faz.
O silêncio permitido
Pelo rádio desligado,
A TV muda e vazia,
As vozes cessadas.
O som da voz de uma criança,
Medido e sentido pela distância;
O som do canto de um pássaro
Crescendo no silêncio.
O som de um serrote é o som do aço
E da madeira, tão primitivo
Quanto nos dias de Noé.
Baixo contínuo é o vento,
De tudo um violoncelo desafinado.
VISÃO
Penso em Hagar, a que conversava com anjos.
A água escapou-lhe do odre, e ela estava sozinha
No deserto, com o seu tenro filho.
Todavia, ela continuou no deserto por muitos e longos anos,
Sobreviveu ao sol escaldante, à sede...
Porque seus olhos foram abertos para enxergar a água
Que escorria, murmurante, da Pedra.
SOBRE O CHÃO DO RIO GRANDE
Casas de madeira desgastadas pelo tempo
Com sombras espalhando-se nos cantos do forro,
Sombras combatidas pela luz de uma janela pequena.
(quatro vidros retangulares e não muito limpos,
um deles trincado)
E a pintura das paredes,
Tão antiga como todas as outras coisas,
Entreabrindo sob a pele partida vestígios de pinturas
Ainda mais antigas.
(paredes pintadas de cal colorida nestes tons azuis,
verdes e rosas esmaecidos; um painel delicado
de pastéis impressionistas erguido
sob a mão de artista do tempo com pincéis de frio,
de umidade, do roçar de braços e costas humanas,
de calor de fogão a lenha, fumaça de lampião,
risos, conversas, gritos... esperas...)
Pobres casas de madeira enegrecida
Plantadas neste solo do Rio Grande do Sul!
Madeira escura suportando o contato dos pregos enferrujados,
O metal lentamente desfazendo-se,
Escorrendo pelas frestas o óxido do tempo.
Pobres casas habitadas por pessoas
Semelhantes às suas casas,
Entregando-se ao tempo sobre o chão do Rio Grande.
AMAR
As coisas é
Para ser feliz
A única condição.
As coisas.
Que coisas?
Qualquer coisa.
Pois tudo
Coisa é:
Nuvem é coisa.
Poeira é coisa.
Jornal velho é
Coisa.
Por isso,
Não ame
Com discrição.
Nunca discrimine
As coisas.
Não divida em
Amáveis,
Menos amáveis,
Não amáveis,
As coisas.
Fazendo assim
Você não estará
Amando as coisas.
Amando pássaros, nuvens,
Mulheres, talvez.
Mas não as coisas.
As coisas em si mesmas,
Que merecem ser amadas,
Que são dignas de espanto,
Que despertam o nosso Oh!
Separadas
Ou em conjunto,
Compondo a vida
Em obra de arte.
E o mundo se fez novo,
Digno de atenção
Como um quadro de Monet
Ou uma escultura do Aleijadinho.
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