PAISAGEM MÁXIMA
Diante de meus olhos estendem-se os céus que o Senhor estabeleceu,
A grande tela esticada na qual a mão do Mestre-Pintor
Executa as mais perfeitas aquarelas e os óleos mais refinados,
A cada manhã, a cada entardecer.
Todos estes quadros, ó Deus, trazem a tua assinatura,
E é também assim que os homens te reconhecem,
Pois os convidas, a cada dia, para um novo “vernissage”
Na galeria da terra inteira,
Onde penduras as tuas obras no próprio firmamento!
Tu utilizas pincéis de nuvens, de atmosfera e de vento,
E corantes de sóis para compor estas obras-primas
Que se renovam perpetuamente, a cada novo dia.
Os pobres não precisam frequentar as galerias de arte,
Basta-lhes abrir a janela e contemplar a pintura restaurada
Da natureza celestial, estendida na amplidão
E emoldurada pela terra verde e castanha.
De repente, os pássaros irrompem no teu quadro,
A ele acrescentando o seu voo
Com círculos precisamente desprovidos de sentido;
Ao teu chamado passam a fazer parte da tela celestial.
Contemplamos, ó Deus eterno, tua mutável criação,
A renovada beleza da obra de tuas mãos,
Com nossos corações pulsando em júbilo sob o céu;
Louvamos a ti que de tal plenitude nos fizeste participantes!
Diante de nossos olhos maravilhados, de uma vez e para sempre
Realizaste a tua obra máxima.
PERSEVERANÇA
A verdade tem de ser tão simples
Como as estações que vem e vão,
Sem desapontar-nos nem uma vez —
No devido tempo, aqui elas estão.
A verdade tem de ser como a flor
Que se atira na terra ainda semente,
E, contendo em si a futura cor,
No seu tempo desabrocha, não mente.
Não deixemos nunca de buscá-la!
No coração a pedir e com as mãos a bater
Em sua porta, haveremos de encontrá-la.
Pois mais fiel e verdadeiro não há
Do que aquele que já nos fez saber:
Pedi, e recebereis; batei, e abrir-se-vos-á.
ENTREATO
Por um ar de granizos
Entre o meu e o teu olhar
Dardejavam puros sorrisos
De um lento, cruel afagar.
A brisa era tépida e como
Um mar que nos envolvesse,
Sempre a indicar o rumo
Da ternura posta em messe
Madura... Mas o tempo breve
Diluiu numa lágrima muito leve
O que nascia ridente.
E já que a semente era posta,
Viagem segui, tendo às costas
A esperança contente.
COSTUME
O ácido do tempo rouba das flores
A seiva e o viço perfumado,
E coloca entre as palavras
E os meus olhos
A tela do cotidiano,
Contrária ao sentido.
DE CISÃO
Não pense.
Compre passagem.
CONTEMPLAÇÃO 2
A natureza é hora alegre a mais não poder,
Depois torna-se sensual e convida ao prazer.
Às vezes é triste, mas de uma tristeza bela,
O tipo de tristeza que a gente sente
Quando toca a orla de uma beleza inefável.
Ou, então, ela nos transforma em místicos contemplativos,
Sentados sobre a erva como folhas caídas,
Sendo acariciados pelo mais leve roçar da aragem
Na dança de huris das folhagens.
Cada novo dia a natureza veste sua mais bela roupa,
Veste de chuva ou sol, cada qual melhor costurada.
Deus disse que o encontraríamos na natureza,
Que ela é obra e testemunho perene de suas mãos.
Cada crepúsculo é insuperável como obra de arte
Que ele compõe utilizando nuvens e céu e sol e vento.
Meditando nessas coisas, e sem querer dar o braço a torcer,
Certos sujeitos que chamam a si mesmos de “cientistas”
Inventaram uma tal Hipótese Gaya. Bah!
Como se a própria terra fosse um deus ou deusa,
Ou como se a ideia fosse nova, não tivessem já os gregos
Pensado nisso há tanto tempo.
É bom ficar aqui sentado, enquanto posso,
Redescobrindo a mim mesmo como parte desta natureza mutável.
Foi para este fim que Deus me criou.
Amar a natureza e comungar com ela
Não tem nada a ver com flauta de Pã,
Epicurismo ou sei lá mais o quê!
Sócrates diria que a natureza sendo bela
E possuindo-a alguém, por estar em comunhão com ela
De nada mais teria necessidade,
Pois o Bom e o Belo, que afinal são a mesma coisa,
Não podem desejar o que não lhes falta.
No entanto, não é possível negar
A beleza suprema da natureza,
Nem é solução dizer
Que ela é intermediária entre o Belo e o Feio.
Ela é bela simplesmente, em si mesma,
Como cada coisa bela é uma beleza em separado.
E a luz nunca se sacia de luz.
ESTRATÉGIA
Poesia não resolve muita coisa.
O coração cultiva a semente da dor
A fim de contemplá-la em flor
Entreaberta.
A semente é indestrutível,
Mas a flor pode ser queimada.
ORAÇÃO 2
Oh guia-me, Senhor,
Pois não sei como andar
Nesta escura floresta!
Se pretender conduzir-me
Sem a tua ajuda meus pés,
Certamente, me levarão por
Falsos caminhos,
Caminhos que conduzem
A lugar nenhum.
Porém, entrego a ti a direção,
Clamo a ti, estendo-te a mão,
Aspiro tua doce presença.
E a caminhada que ora inicia
Já chegou ao fim.
HORIZONTE
Ali onde o horizonte se mostra ao olhar
A estrada se contorce.
Amanhã, onde estaremos?
Certamente haverá sol ou chuva.
Seja como for, estarei contente
E tocarei minha flauta.
E quando o aguilhão do tempo se fizer sentir
Na carne murcha, a morte virá
Com pés precípites buscar a roupa velha
Que lhe pertence.
A morte e o verme estão a serviço da terra
Que deseja construir cristais e montanhas de calcário,
Sobre as quais The Roaring Winds passeiem
E um sol nasça ou se ponha.
ETERNANOVIDADE
As águas deslizam
Num leito regular.
Contudo,
A cada dia brilham
De forma diferente.