José Cassais

José Cassais

n. 1954 BR BR

Nascido em 1954, começou a escrever lá pelos 15 anos, depois de ler alguns livros que sua avó lhe emprestava.

n. 1954-09-07, Pelotas - RS

Perfil
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FOLGADO

O gato da casa,
Estirado no sofá,
Sestica e ronrona,
E tanto se lhe dá:
Está em sua zona.

Só levanta pra comer,
Correr, pular atoa,
Parecente até que voa,
Pássaro sem ser.

Peludo está com tudo:
Esta noite saltar
Ainda espera, sortudo,
Escalando a janela,
Na espreita, trás dela.

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Poemas

25

VISÃO

Penso em Hagar, a que conversava com anjos.

A água escapou-lhe do odre, e ela estava sozinha

No deserto, com o seu tenro filho.

 

Todavia, ela continuou no deserto por muitos e longos anos,

Sobreviveu ao sol escaldante, à sede...

Porque seus olhos foram abertos para enxergar a água

Que escorria, murmurante, da Pedra.

162

PROVAÇÃO

Ó Senhor... tu sabes o que me falta.
Conheces a extensão do meu vazio,
Pois foste tu que enjaulaste
Em mim esta fome.

Mas eu tenho que aprender a viver faminto
Na tua presença.

65

O CAMINHO E AS TENTAÇÕES

Preparou Deus um caminho exemplar
Para nele o cristão caminhar.
Mas o inimigo sutil plantou ao lado
Deste caminho mil motivos de pecado.

Não anda o cristão um metro sem achar
Isca adornada que lhe atraia o olhar;
Como árvores vão surgindo em sequência
Objetos de cobiça, ira, concupiscência.

Por isto, ó caminhante escolhido!
Dirige o teu olhar sempre para o alvo,
Pois a estrada é longa e o dia comprido.

Não te detenhas no que ao redor hajas visto,
Para ir da estrada ao fim é que foste salvo...
Para encontrar nos ares o Senhor, Jesus Cristo!

43

NOVO CAMINHO

Jesus, o Senhor, está chamando,
Sua voz ecoa sobre a terra;
Podemos ouvi-la nos altos cumes,
Nas profundezas que o mar encerra.

Ele preparou um caminho
Que todos podem palmilhar,
Caminho que nos leva a Deus,
Basta nele querer entrar.

Vamos pôr, então, na estrada o pé,
Juntar-nos a multidão de santos,
Seguir juntos na esperança e na fé,
Para a glória de Deus entoando cantos.

Vislumbramos ao longe, no horizonte,
O brilho da Nova Jerusalém,
Água límpida a jorrar de sua fonte
Para saciar a sede dos que creem.

41

ANTIGAMENTE

Antigamente eu estava parado, inerte à beira de uma estrada
Por onde transitava o mundo num fluxo incessante 
De formas desafiadoras e vagas.
Foi, então, que tu me tomaste pela mão, ó Senhor, 
E me fizeste andar no caminho verdadeiro, 
Caminho que conduz, afinal, à maior e mais importante cidade.

Fizeste-me andar, guiaste os meus passos, 
Deste-me instrução falando aos meus ouvidos.
Desde então tu tens saciado a minha sede e alimentado a minha vida, 
Ensinando-me tudo o que preciso saber.
À minha frente abriste, ainda, os teus cofres, 
Expondo tesouros infinitos de incalculável valor.

Nada me falta, Senhor, pois tu és o Pastor a me guiar 
Aos pastos verdejantes e às águas cristalinas;
Nada me faltará, pois és tu que despertas em mim o querer, 
E em mim operas, pelo teu infinito poder, o realizar.

Ensinas-me tudo o que necessito aprender — à um estalar dos teus dedos 
Logo se apresentam os meus professores, e, quando ordenas, 
Imediatamente aparecem os instrumentos onde posso praticar.
O teu desejo é fazer de mim um homem completo, 
Para que eu te sirva com a plenitude do meu ser.

Dou graças à tua bondade, que sempre se segue à tua misericórdia;
Elevo a minha voz para exaltar o teu cuidado, o qual dispensas 
A todos os que de ti se aproximam.
Obrigado, Senhor, tu que despertas os que de há muito estavam mortos, 
E fazes andar os que já nasceram inválidos.
Só em ti há sentido e plenitude para a vida dos homens, 
Somente tu tens a resposta para todos os nossos questionamentos.

73

UMA SIMPLES FLOR

Caminhante, não desprezes esta flor
Que à beira do caminho surgiu de repente,
Nem penses que é pobre a sua cor;
Por tão simples, não lhe sejas indiferente.

Olha para a frente e vê que a tua estrada
Estende-se além da curva e do horizonte,
E do que lá te espera não sabes nada,
Nem do teu destino encontrarás quem conte.

E bem pode ser esta flor a única nascida
Nesta estrada em que a tua sina se resume...
E outra não encontrarás jamais na vida.

Anda, aspira logo o seu perfume!
Enche agora a tua alma com suas cores,
Pois nela, amando-a, possuirás todas as flores.

40

SOBRE O CHÃO DO RIO GRANDE

Casas de madeira desgastadas pelo tempo 
Com sombras espalhando-se nos cantos do forro,
Sombras combatidas pela luz de uma janela pequena.

(quatro vidros retangulares e não muito limpos,
um deles trincado) 

E a pintura das paredes,
Tão antiga como todas as outras coisas, 
Entreabrindo sob a pele partida vestígios de pinturas 
Ainda mais antigas.

(paredes pintadas de cal colorida nestes tons azuis,
verdes e rosas esmaecidos; um painel delicado 
de pastéis impressionistas erguido
sob a mão de artista do tempo com pincéis de frio,
de umidade, do roçar de braços e costas humanas,
de calor de fogão a lenha, fumaça de lampião,
risos, conversas, gritos... esperas...)

Pobres casas de madeira enegrecida 
Plantadas neste solo do Rio Grande do Sul!

Madeira escura suportando o contato dos pregos enferrujados,
O metal lentamente desfazendo-se, 
Escorrendo pelas frestas o óxido do tempo.

Pobres casas habitadas por pessoas 
Semelhantes às suas casas, 
Entregando-se ao tempo sobre o chão do Rio Grande.

72

SERENIDADE

O vaso com plantas verdes,
No fim de tarde está imóvel.

(há muitos anos, muitos
fins de tarde,
ele é o mesmo, sempre.)
 
Ele não tem grandes esperanças
Nem morre de amores por ninguém.

Apenas é.

63

TUA PALAVRA

Não posso afastar-me, nunca, de tua palavra, ó Senhor!
Ela é o porto seguro onde busco ancorar o navio de minha dúvida.
Tu a puseste ao alcance de cada homem,
E a ela podemos sempre retornar após um dia difícil.

Eu a quero ao meu lado, constantemente,
Meu coração sempre disposto a buscá-la,
Ainda quando a dúvida vier nele a se instalar.
Destarte, meus ouvidos estarão atentos à tua voz.

Tua voz, tua palavra, purifica-me de toda impureza,
Aconselha-me sem cessar e jamais me abandona.
Com a tua palavra preencherei cada espaço vazio do meu coração,
Com ela combaterei as trevas que avançam.

Fala comigo, então, ó Senhor, sempre que eu te buscar.
Não emudeças, não permitas que ande em círculos;
Nunca jamais me abandones.
Pois meus pés apressam-se para o mal,
E o meu coração busca sempre o que não lhe convém.

Porém, se eu escutar a tua voz não estarei sozinho
Combatendo a lei do mal em meus próprios membros.
Abrirei as janelas para que entre a tua luz, permitirei que me ensines.
E isto é tudo o que exiges de mim:
Que eu te ouça, que não feche meus ouvidos.

“Se quereis perguntar, perguntai. Voltai, vinde!”
45

AMAR

Amar
As coisas é
Para ser feliz
A única condição.

As coisas.
Que coisas?
Qualquer coisa.
Pois tudo
Coisa é:
Nuvem é coisa.
Poeira é coisa.
Jornal velho é
Coisa.

Por isso,
Não ame
Com discrição.
Nunca discrimine
As coisas.
Não divida em
Amáveis,
Menos amáveis,
Não amáveis,
As coisas.
Fazendo assim
Você não estará
Amando as coisas.

Amando pássaros, nuvens,
Mulheres, talvez.
Mas não as coisas.
As coisas em si mesmas,
Que merecem ser amadas,
Que são dignas de espanto,
Que despertam o nosso Oh!
Separadas
Ou em conjunto,
Compondo a vida
Em obra de arte.

E o mundo se fez novo,
Digno de atenção
Como um quadro de Monet
Ou uma escultura do Aleijadinho.
76

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