José Luís Ferreira (Venoi)

José Luís Ferreira (Venoi)

n. 1951 PT PT

Poeta português, pela liberdade das palavras e dos sentires; desalinhado de costumes e crenças, de vénias e aplausos. Lisboeta, feliz.

n. 1951-08-03, Lisboa

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não sei porque te amo

não sei porque te amo
nem pergunto às árvores a que horas adormecem

porque acredito no teu chão
e nos teus lábios florescem pétalas de orvalho
e desejo

não sei porque te amo
nem espreito as raízes do teu corpo

porque acredito quando sorris
na utopia do teu olhar
quando me olhas
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Poemas

25

percorre-me

percorre-me
devagarinho como se eu fosse calma

percorre-me
devagarinho como se eu fosse caminho

percorre-me
devagarinho como se eu fosse sós

e enquanto eu demoro percorre-me
devagarinho
549

a tua língua para que me sinta vivo

a tua língua para que me sinta vivo
e a minha voz de suspiro
nos teus lábios ainda quentes

todas as marés no teu corpo
e por lá navego e me dessedento
em pequenos e grandes beijos
em pequenos e ternos lábios
556

nisso as raízes são violentas

nisso as raízes são violentas

algo em nós sangra
um sopro daquele deus que convém acreditar
para que a vida se finja

esta é a palavra que pergunta

mostra o teu corpo
nu
para que a tua voz se escute
e se perturbe

as raízes são violentas
e sangram por dentro de nós
519

por vezes ficamos em silêncio

por vezes ficamos em silêncio
enquanto os nossos olhos
se tocam
demorados

e se abraçam
no silêncio das coisas íntimas
até que se beijam
e se entregam
556

bom dia

bom dia
dizia na sua pressa e todos os dias no seu atraso

assustadores os dias e as ruas
que nos são incógnitas ausentes

vive-se assim e diz-se bom dia
atulhados de ausência

serão assim as folhas de outono
antes que bebam deste cálice
571

o poema hesita na descoberta

o poema hesita ainda na descoberta

assalta-lhe a ideia que se deve mudar
o interior da palavra
construir novas casas
e acariciar o silêncio da noite

procuro a utopia e o poema
enquanto as casas forem o refúgio
e a solidão do eu

não conheço o delírio da palavra
nem o castigo do corpo

a mulher sempre virgem ao parir outros ventos
e outras águas
a mulher fatídica no coração de deus

o poema adormece num beijo
523

não sei porque te amo

não sei porque te amo
nem pergunto às árvores a que horas adormecem

porque acredito no teu chão
e nos teus lábios florescem pétalas de orvalho
e desejo

não sei porque te amo
nem espreito as raízes do teu corpo

porque acredito quando sorris
na utopia do teu olhar
quando me olhas
578

é tempo de querer cada bocado de ti

é tempo de querer cada bocado de ti
e palmo a palmo percorrer-te lentamente

nada nos impede a loucura de subir as tuas colinas

nem de esperar o teu êxtase mais profundo
e tantas vezes
em conjunto
sorrirmos

escorrego por ti até que te percas
e soltes suspiros muito brancos para que a flor mais discreta
seja um breve limite e um quase desmaio
553

como falar das margens do teu corpo

como falar das imagens do teu corpo
do silêncio
e de como me olha
e me espera

como falar das margens do teu corpo
dos seus planaltos
e de como me olha
e me espera

como falar dos segredos do teu corpo
quando são
os nossos segredos

e da sua fonte que se fecha
e se abre
quando me espera
e eu chego

ofereces-me o teu corpo
aos olhos e aos beijos
mais vagarosos

da tua boca ouvem-se poemas
ébrios de paixão
e toda a vida será tão pequena

tocas-me e o meu corpo liberta-se
até que sejamos um no outro
até ao fim
552

e se deus fosse diferente dos homens

e se deus fosse diferente dos homens
no seu torpor
e amasse a vida e o espírito
das coisas novas

que se apaixonasse e sorrisse
e fosse mar e fosse pedra
silenciosamente

talvez por isso
sinto-me um ruído de ausência e fuga
do medo e da esperança
e sinta fome de amor
612

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