O Neutrino
Meu coração foi atravessado
por um neutrino:
passou rápido e mal disse a que veio.
Vou escrever um verso raiado
partindo da palavra SOL ao meio.
Vou partir esse sol em pedaços;
vou tirar todos os sóis de dentro;
espalhar os seus raios desolados
e mostrar meu coração ao centro.
Está fisicamente comprovado:
um neutrino célere me assolou;
perpassou meu coração despido.
Irradiando um verso meio de amor
revelou-se o insuspeitado:
o neutrino era a seta de cupido.
O Ilhéu
A ilha é uma porção de terra
que desertou do continente.
Eu, desertor, aliei-me à ilha;
condenei-me a morrer de tédio constante
ou de maremoto súbito;
isolei-me sem papel, sem garrafa, sem farol.
Morri na ilha deserta.
Morri qualquer dia desses
(perdi a conta dos dias).
Vivi de sol a sol e de só a só
(nem sei qual o dia em que não morri).
A ilha é deserta.
Decerto o deserto sou eu - só
errando na ilha deserta;
morrendo na ilha deserta;
sem dia, nem hora, nem data; no ermo
desperto cansado - já morto a termo.
Vivo, morri, morro, vivi.
O tempo é deserto e o espaço é agora:
faço versos e sulcos na areia das horas.
Quem lerá os meus versos que o mar apagou?
Quem dirá que vivi, que morri, quem eu fui, como sou?
Quem me conhecerá além de mim?
Quem me amará a partir do meu fim?
Morri, um poeta deserto, e só agora me dei conta disso:
morri num dia qualquer na ilha deserta
e nenhum noticiário falará do meu sumiço.
Minha ilha jamais vai ser descoberta.
Mareando
Ao mar eu volto
Ao mar me lanço
No mar me solto
No mar balanço.
Ritmo marítimo
Ritmar.
Sotavento, barlavento
Marear.
Mar oscila
Mar rebenta
Mar espraia
Mar tormenta.
Braços ao mar
Braços de mar
Braços abertos
Abraços
em mares abertos
Mares de abraços abertos
Nadar.
Maré vem, maré volta
Maré vai, maré volta.
Mar longínquo
Mar remoto
Mar revolto
Mar é moto.
Moto perpétuo
Maremoto contínuo
Preamar, pós-amar
Mar é mar, ar é ar
Mar é ar, mar e ar
Amaro mar
Amar o mar, amar o mar, amar o mar...
Vozes
Fale cale
calendas lenda
a hand in hand
humano a mano
brando a cerca
de onde estou falando
quando ando
a fim de tudo
mudo isso ouço
o papo o Papa
tá ficando ruço
lusco-fusco
busco o pulso
a pulso de ferro
berro à beça
essa agora
é boa
soa à toa
como vaga
onda ronda
a praia saia
caia de cabeça
fale cale
faleça.
Vai e Vem
Vai é verbo ir
e vem é verbo vir.
Vai-e-vem é um certo substantivo.
Tudo é permitido
desde que acenda a libido.
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eu fujo para além da possibilidade
de atender a alguns instintos
bestiais básicos:
eu
sou um perigo para os cavalos!
Fujo,
também, dos jumentos
-
aqueles que roçaram em celebridades religiosas.
Esses
trazem uma resignação cortante
nos olhos de peixe
morto
calam
com os olhos e me atemorizam
(nunca
se sabe que castigos imerecidos
clamam por suportar
no seu intimismo
altruístico)
e
eu fujo para longe da porta da conversão:
eu
seria um perigo para os jumentos!
Não
me esquivo dos burros.
Nutro
por eles total desprezo;
nenhuma
fascinação me exercem
que
não são jumentos, nem cavalos, nem ambos, nem nada.
Incapazes
de uivar como não uivam cavalos
ou
de calar como não falam os jumentos ópticos
eles
são estéreis de ausências híbridas;
estampam
na cara a sua burrice explícita
e
eu me aproximo, destemido, para aquém da cifra fácil
com
uma instantânea intimidade:
eu serei o paradigma
dos burros!
Som e Imagem
A poesia é a música evocada por palavras
e as imagens suscitadas pela música;
é o som que reverbera a sua ótica
e a letra que projeta a sua acústica.
Nudez Castigada
Cai a pétala
e o espinho espeta
quem despe a rosa
quem despetala
quem despetá-la.
Novo Mundo
Nessas horas em que tudo desaba
desmorona o cosmo sobre si mesmo
e do Ser e de Deus a idéia acaba
algum verso me escapa e segue a esmo.
Conduzindo um vago sentido d'alma
- desprovido que está de referências -
perambula por entre novas alas
do que agora se faz minha ciência.
Esse verso que anima a vida incerta
ao revelar sinais de um mundo novo
é como a pomba de Noé na descoberta
que põe Colombo em pé, em vez do ovo.
Trilema Equino
Vivo fugindo de cavalos.
Não, eles não estão no meu encalço.
Andam por aí uivando como não uivam cavalos;
uivam para todos, para ninguém, para si próprios, sei lá!
para atrair ou intimidar dessemelhantes
e eu fujo para além da possibilidade
de atender a alguns instintos bestiais básicos:
eu sou um perigo para os cavalos!
Fujo, também, dos jumentos
- aqueles que roçaram em celebridades religiosas.
Esses trazem uma resignação cortante
nos olhos de peixe morto
calam com os olhos e me atemorizam
(nunca se sabe que castigos imerecidos clamam por suportar
no seu intimismo altruístico)
e eu fujo para longe da porta da conversão:
eu seria um perigo para os jumentos!
Não me esquivo dos burros.
Nutro por eles total desprezo;
nenhuma fascinação me exercem
que não são jumentos, nem cavalos, nem ambos, nem nada.
Incapazes de uivar como não uivam cavalos
ou de calar como não falam os jumentos ópticos
eles são estéreis de ausências híbridas;
estampam na cara a sua burrice explícita
e eu me aproximo, destemido, para aquém da cifra fácil
com uma instantânea intimidade:
eu serei o paradigma dos burros!
Um Olhar para o Alto
As nuvens contém todas as formas;
todas as fórmulas.
As nuvens fazem escadas
pra que eu suba nelas;
fazem estradas
pra que eu ande nelas;
e eu vou...
Sei da nuvem;
sei da nuvem pelo que eu sei;
e esse meu saber de nuvem
é só meu e dela
e nunca o direi.