Lista de Poemas
Eternamantes
Gosto das coisas duráveis
que as quero permanentes
como gema inalterável
como cena no presente
como nó inarredável
como deus onipotente.
Gosto das coisas seguras
que nelas eu adormeço:
mão de pai na noite escura
um colo como endereço
criador e criatura
olhar do santo de gesso.
Gosto das coisas eternas
que as quero sempre antes
como adulações maternas
como anel de diamantes
como toque em tuas pernas...
Gosto de estarmos amantes.
que as quero permanentes
como gema inalterável
como cena no presente
como nó inarredável
como deus onipotente.
Gosto das coisas seguras
que nelas eu adormeço:
mão de pai na noite escura
um colo como endereço
criador e criatura
olhar do santo de gesso.
Gosto das coisas eternas
que as quero sempre antes
como adulações maternas
como anel de diamantes
como toque em tuas pernas...
Gosto de estarmos amantes.
1 199
O Ilhéu
A ilha é uma porção de terra
que desertou do continente.
Eu, desertor, aliei-me à ilha;
condenei-me a morrer de tédio constante
ou de maremoto súbito;
isolei-me sem papel, sem garrafa, sem farol.
Morri na ilha deserta.
Morri qualquer dia desses
(perdi a conta dos dias).
Vivi de sol a sol e de só a só
(nem sei qual o dia em que não morri).
A ilha é deserta.
Decerto o deserto sou eu - só
errando na ilha deserta;
morrendo na ilha deserta;
sem dia, nem hora, nem data; no ermo
desperto cansado - já morto a termo.
Vivo, morri, morro, vivi.
O tempo é deserto e o espaço é agora:
faço versos e sulcos na areia das horas.
Quem lerá os meus versos que o mar apagou?
Quem dirá que vivi, que morri, quem eu fui, como sou?
Quem me conhecerá além de mim?
Quem me amará a partir do meu fim?
Morri, um poeta deserto, e só agora me dei conta disso:
morri num dia qualquer na ilha deserta
e nenhum noticiário falará do meu sumiço.
Minha ilha jamais vai ser descoberta.
que desertou do continente.
Eu, desertor, aliei-me à ilha;
condenei-me a morrer de tédio constante
ou de maremoto súbito;
isolei-me sem papel, sem garrafa, sem farol.
Morri na ilha deserta.
Morri qualquer dia desses
(perdi a conta dos dias).
Vivi de sol a sol e de só a só
(nem sei qual o dia em que não morri).
A ilha é deserta.
Decerto o deserto sou eu - só
errando na ilha deserta;
morrendo na ilha deserta;
sem dia, nem hora, nem data; no ermo
desperto cansado - já morto a termo.
Vivo, morri, morro, vivi.
O tempo é deserto e o espaço é agora:
faço versos e sulcos na areia das horas.
Quem lerá os meus versos que o mar apagou?
Quem dirá que vivi, que morri, quem eu fui, como sou?
Quem me conhecerá além de mim?
Quem me amará a partir do meu fim?
Morri, um poeta deserto, e só agora me dei conta disso:
morri num dia qualquer na ilha deserta
e nenhum noticiário falará do meu sumiço.
Minha ilha jamais vai ser descoberta.
1 008
Novo Mundo
Nessas horas em que tudo desaba
desmorona o cosmo sobre si mesmo
e do Ser e de Deus a idéia acaba
algum verso me escapa e segue a esmo.
Conduzindo um vago sentido d'alma
- desprovido que está de referências -
perambula por entre novas alas
do que agora se faz minha ciência.
Esse verso que anima a vida incerta
ao revelar sinais de um mundo novo
é como a pomba de Noé na descoberta
que põe Colombo em pé, em vez do ovo.
desmorona o cosmo sobre si mesmo
e do Ser e de Deus a idéia acaba
algum verso me escapa e segue a esmo.
Conduzindo um vago sentido d'alma
- desprovido que está de referências -
perambula por entre novas alas
do que agora se faz minha ciência.
Esse verso que anima a vida incerta
ao revelar sinais de um mundo novo
é como a pomba de Noé na descoberta
que põe Colombo em pé, em vez do ovo.
909
Papel de Pedra
A verticalidade do penhasco fincado
tem a grave missão de sustentar o rio
que se derrama e permanece sustentado:
é o rio no alto; a cachoeira; e embaixo o rio.
Indiferente segue o rio seu curso d'água
sem dar nenhum sinal de ter sentido a queda.
Abandonada a penha jaz petrificada
e compõe a paisagem - seu papel de pedra.
Imobilizado e mudo e sempre ignorado;
arrimo eterno e trampolim pro salto alheio...
- morre em areias de nunca se ter chorado;
morre o penhasco de manter o peito cheio.
Velho penhasco que carrega o rio nas costas
e que possibilita o ser da cachoeira:
ninguém o vê ou lhe confere qualquer nota
(exceto eu, que fui penhasco a vida inteira).
tem a grave missão de sustentar o rio
que se derrama e permanece sustentado:
é o rio no alto; a cachoeira; e embaixo o rio.
Indiferente segue o rio seu curso d'água
sem dar nenhum sinal de ter sentido a queda.
Abandonada a penha jaz petrificada
e compõe a paisagem - seu papel de pedra.
Imobilizado e mudo e sempre ignorado;
arrimo eterno e trampolim pro salto alheio...
- morre em areias de nunca se ter chorado;
morre o penhasco de manter o peito cheio.
Velho penhasco que carrega o rio nas costas
e que possibilita o ser da cachoeira:
ninguém o vê ou lhe confere qualquer nota
(exceto eu, que fui penhasco a vida inteira).
863
Canto Desesperado
Este é mais um canto desesperado
e de nada e a nada servirá.
Como a música de muitas músicas
transportará dores;
veiculará males
como transplante de córnea entre cegos
e de nada e a nada servirá.
Ai, dor torturante
que não quero só senti-la
que, só, não quero tê-la
que antes o mundo precisa vê-la
quanto antes todos devem ouvi-la.
Lanço meu canto desesperado no mar da minha ilha:
como garrafa - afunda de peso;
como rede - volta sem peixe;
como barco - parte-se a quilha.
e de nada e a nada servirá.
Como a música de muitas músicas
transportará dores;
veiculará males
como transplante de córnea entre cegos
e de nada e a nada servirá.
Ai, dor torturante
que não quero só senti-la
que, só, não quero tê-la
que antes o mundo precisa vê-la
quanto antes todos devem ouvi-la.
Lanço meu canto desesperado no mar da minha ilha:
como garrafa - afunda de peso;
como rede - volta sem peixe;
como barco - parte-se a quilha.
908
Um após o Outro
Os dias são tristes, mas não é por culpa deles
coitados, que só cumprem o que trama o destino.
Os dias acompanham, atenta e impotentemente
a trajetória do piloto em direção ao muro
sem conseguir parar o tempo.
Os dias sopram brisas para secar lágrimas
e fazer cantar as folhagens que ouvem lamentos e suspiros
dos que perderam entes ou se perderam de amores;
Os dias se rebelam muitas vezes
e enchem de muito sol e poucas nuvens
horas em que aviões despencam sobre casas;
Os dias chovem quando eu vou à praia
porque não foram avisados
com a devida antecedência.
Os dias tendem a ser menores nas férias
por motivos que ainda não entendi direito.
Mas os dias são sempre clones de si mesmos.
Os dias não estão nada satisfeitos
com o que se faz deles.
Os dias querem ser melhores.
Os dias querem melhores dias.
coitados, que só cumprem o que trama o destino.
Os dias acompanham, atenta e impotentemente
a trajetória do piloto em direção ao muro
sem conseguir parar o tempo.
Os dias sopram brisas para secar lágrimas
e fazer cantar as folhagens que ouvem lamentos e suspiros
dos que perderam entes ou se perderam de amores;
Os dias se rebelam muitas vezes
e enchem de muito sol e poucas nuvens
horas em que aviões despencam sobre casas;
Os dias chovem quando eu vou à praia
porque não foram avisados
com a devida antecedência.
Os dias tendem a ser menores nas férias
por motivos que ainda não entendi direito.
Mas os dias são sempre clones de si mesmos.
Os dias não estão nada satisfeitos
com o que se faz deles.
Os dias querem ser melhores.
Os dias querem melhores dias.
735
Minhas Impressões
Sete mil lanças na carne e nos ossos
Sete mil dores de parto por lança
Sete mil vezes, suores nos corpos
Sete mil gritos e um nó na garganta.
Sete mil coisas zombando do eterno
Sete mil tempos perdidos no mundo
Sete mil bestas atadas em verso
Sete mil nadas e um zero rotundo.
Sete mil dores de parto por lança
Sete mil vezes, suores nos corpos
Sete mil gritos e um nó na garganta.
Sete mil coisas zombando do eterno
Sete mil tempos perdidos no mundo
Sete mil bestas atadas em verso
Sete mil nadas e um zero rotundo.
765
Psicanálise
Quando o firmamento se posiciona
e instala a noite que, imóvel, assiste
os dramas do mundo de sua poltrona
fazendo de conta, fazendo ar de triste;
Quando a dita noite instalada e fingida
repete seu canto de torpe sadismo
eu viro de costas, eu cubro a ferida
eu faço de conta que não é comigo.
Há tempos livrei-me das minhas agruras
mandando pro espaço meu ar paranóide;
pra dar nome aos astros com minhas torturas
lancei mão dos gregos (que sabem de Freud).
Lá no alto céu coloquei minhas dores.
Sublimei nas estrelas minhas feridas:
elas que pulsem, que sofram horrores;
elas que fiquem com as dores da vida.
e instala a noite que, imóvel, assiste
os dramas do mundo de sua poltrona
fazendo de conta, fazendo ar de triste;
Quando a dita noite instalada e fingida
repete seu canto de torpe sadismo
eu viro de costas, eu cubro a ferida
eu faço de conta que não é comigo.
Há tempos livrei-me das minhas agruras
mandando pro espaço meu ar paranóide;
pra dar nome aos astros com minhas torturas
lancei mão dos gregos (que sabem de Freud).
Lá no alto céu coloquei minhas dores.
Sublimei nas estrelas minhas feridas:
elas que pulsem, que sofram horrores;
elas que fiquem com as dores da vida.
700
Posição de Sentido
Já li e escrevi muito... e nada.
Queria fazer um poema
que desse sentido à vida.
Queria fazer um poema
para dar sentido à vida.
Eu, que já toquei o topo da montanha
contemplo, como um Cristo, a planície vazia
onde serpenteia a música mais estranha
que, de tanto harmonizar, não melodia.
Onde está a razão de Deus nessa harmonia?
Onde está Deus em eu-acima-da-planície?
Eu hei sentido que não tenho sentido
e tudo é menos que um jogo de palavras.
Atire o primeiro xis quem há sabido
onde se acende o som e a luz se apaga.
Deus vive a montar estratagemas de morte;
a vida deixa-a como ardil para inocentes.
Quis me equilibrar, fazendo de Deus suporte:
tomei-lhe as mãos e vi-me solto de repente!
Sigo sem Deus, sem deuses e comigo
como uma esfinge, vivendo por viver
sem ter poema e sem ver nenhum sentido
em viver, em morrer, em não morrer.
Queria fazer um poema
que desse sentido à vida.
Queria fazer um poema
para dar sentido à vida.
Eu, que já toquei o topo da montanha
contemplo, como um Cristo, a planície vazia
onde serpenteia a música mais estranha
que, de tanto harmonizar, não melodia.
Onde está a razão de Deus nessa harmonia?
Onde está Deus em eu-acima-da-planície?
Eu hei sentido que não tenho sentido
e tudo é menos que um jogo de palavras.
Atire o primeiro xis quem há sabido
onde se acende o som e a luz se apaga.
Deus vive a montar estratagemas de morte;
a vida deixa-a como ardil para inocentes.
Quis me equilibrar, fazendo de Deus suporte:
tomei-lhe as mãos e vi-me solto de repente!
Sigo sem Deus, sem deuses e comigo
como uma esfinge, vivendo por viver
sem ter poema e sem ver nenhum sentido
em viver, em morrer, em não morrer.
685
Mareando
Ao mar eu volto
Ao mar me lanço
No mar me solto
No mar balanço.
Ritmo marítimo
Ritmar.
Sotavento, barlavento
Marear.
Mar oscila
Mar rebenta
Mar espraia
Mar tormenta.
Braços ao mar
Braços de mar
Braços abertos
Abraços
em mares abertos
Mares de abraços abertos
Nadar.
Maré vem, maré volta
Maré vai, maré volta.
Mar longínquo
Mar remoto
Mar revolto
Mar é moto.
Moto perpétuo
Maremoto contínuo
Preamar, pós-amar
Mar é mar, ar é ar
Mar é ar, mar e ar
Amaro mar
Amar o mar, amar o mar, amar o mar...
Ao mar me lanço
No mar me solto
No mar balanço.
Ritmo marítimo
Ritmar.
Sotavento, barlavento
Marear.
Mar oscila
Mar rebenta
Mar espraia
Mar tormenta.
Braços ao mar
Braços de mar
Braços abertos
Abraços
em mares abertos
Mares de abraços abertos
Nadar.
Maré vem, maré volta
Maré vai, maré volta.
Mar longínquo
Mar remoto
Mar revolto
Mar é moto.
Moto perpétuo
Maremoto contínuo
Preamar, pós-amar
Mar é mar, ar é ar
Mar é ar, mar e ar
Amaro mar
Amar o mar, amar o mar, amar o mar...
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