José Roberto Tolentino

José Roberto Tolentino

n. 1957 BR BR

n. 1957-05-02, Salvador-Ba

Perfil
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Eternamantes

Gosto das coisas duráveis
que as quero permanentes
como gema inalterável
como cena no presente
como nó inarredável
como deus onipotente.

Gosto das coisas seguras
que nelas eu adormeço:
mão de pai na noite escura
um colo como endereço
criador e criatura
olhar do santo de gesso.

Gosto das coisas eternas
que as quero sempre antes
como adulações maternas
como anel de diamantes
como toque em tuas pernas...
Gosto de estarmos amantes.
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Poemas

36

Vozes

Fale cale
calendas lenda
a hand in hand
humano a mano
brando a cerca
de onde estou falando
quando ando
a fim de tudo
mudo isso ouço
o papo o Papa
tá ficando ruço
lusco-fusco
busco o pulso
a pulso de ferro
berro à beça
essa agora
é boa
soa à toa
como vaga
onda ronda
a praia saia
caia de cabeça
fale cale
faleça.
663

Olhar de Ontem

Havia a impressão de um tempo lento;
jam sessions de bichos noturnos;
o Sol interceptado pelo vento;
a casa com a forma e o conteúdo;
a chuva datilografando telhas;
relâmpagos mostrando a mão do santo;
a noite freqüentada por estrelas;
fantasmas de corujas agourando;
o rio murmurando em corredeiras;
o rádio me ninando e despertando.

Havia arbustos vistos como baobás;
a neblina apagando o cemitério.
Os dias eram tão desigualmente iguais
e os verdes eram azuis e amarelos.
Havia bandos de urubus planadores
prognosticando a chuva iminente...
e o aguaceiro desabava em estertores
(tão previsível e impreterivelmente).

Havia meu pai vivo
mais que nunca e muito e sempre estava.
Havia a mãe - a via
e isso e eu a mim bastava.

Avidez ingênua e vida, enfim, havia
e eu era feliz e infeliz e sabia.
736

Mareando

Ao mar eu volto
Ao mar me lanço
No mar me solto
No mar balanço.

Ritmo marítimo
Ritmar.

Sotavento, barlavento
Marear.

Mar oscila
Mar rebenta
Mar espraia
Mar tormenta.

Braços ao mar
Braços de mar
Braços abertos
Abraços
em mares abertos
Mares de abraços abertos
Nadar.

Maré vem, maré volta
Maré vai, maré volta.

Mar longínquo
Mar remoto
Mar revolto
Mar é moto.

Moto perpétuo
Maremoto contínuo
Preamar, pós-amar
Mar é mar, ar é ar
Mar é ar, mar e ar

Amaro mar
Amar o mar, amar o mar, amar o mar...
745

Nudez Castigada

Cai a pétala
e o espinho espeta
quem despe a rosa
quem despetala
quem despetá-la.
720

Som e Imagem

A poesia é a música evocada por palavras
e as imagens suscitadas pela música;
é o som que reverbera a sua ótica
e a letra que projeta a sua acústica.
707

A Ela

Mulher - objeto não identificado;
indecifrável
e sinuoso objeto
indireto
por linhas tortas
certo
por linhas curvas.

Mulher - esse ser indispensável
(às vezes impensável)
de tão complicado interior.

Mulher - senhora dona dos seios
(esses definidores de mulher)
adoráveis e multiformes
carregados de sentidos.

Mulher - conflito eterno
entre
a carreira
o corre-corre
e a corrida
para os braços do seu homem.

Mulher:
entre o seu falar
e o meu ouvir
entre o seu chamar
e o meu ir
não há simultaneidade.

Mas haverá, creia, sempre
uma total e cúmplice
disponibilidade.
616

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