Lista de Poemas

Amores e Humores

Sou do tempo do amor carnal
e não deste, de amor "borrachal".

Do tempo da mistura de humores:
os humores dos amantes;
os humores dos amores.

Nada mais é como antes...

Há barreiras, há temores
humor negro, maus humores:
humores contaminantes
esterilizando amores.
793

Vai e Vem

Vai é verbo ir
e vem é verbo vir.

Vai-e-vem é um certo substantivo.

Tudo é permitido
desde que acenda a libido.






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n"��0�rif"'>e
eu fujo para além da possibilidade

de atender a alguns instintos
bestiais básicos:

eu
sou um perigo para os cavalos!





Fujo,
também, dos jumentos

-
aqueles que roçaram em celebridades religiosas.



Esses
trazem uma resignação cortante

nos olhos de peixe
morto

calam
com os olhos e me atemorizam

(nunca
se sabe que castigos imerecidos

clamam por suportar

no seu intimismo
altruístico)

e
eu fujo para longe da porta da conversão:

eu
seria um perigo para os jumentos!





Não
me esquivo dos burros.



Nutro
por eles total desprezo;

nenhuma
fascinação me exercem

que
não são jumentos, nem cavalos, nem ambos, nem nada.

Incapazes
de uivar como não uivam cavalos

ou
de calar como não falam os jumentos ópticos

eles
são estéreis de ausências híbridas;

estampam
na cara a sua burrice explícita

e
eu me aproximo, destemido, para aquém da cifra fácil

com
uma instantânea intimidade:

eu serei o paradigma
dos burros!
552

Dilema

Quero um vocábulo sonoro como um proparoxítono:
as proparoxítonas são as mais melodiosas das palavras.

Quero algo suave como um crepúsculo
tocante como um armistício
silente como um prelúdio
profundo como uma carícia;
e ao mesmo tempo algo totalmente diferente:
contraditório, imprevisível, selvagem, pungente.

Quero a síntese da fêmea
na leoa ou na tigresa
que é lânguida com o filhote
e implacável com a presa.

O que eu quero mesmo é um poema
pra impressionar a namorada
(aquela "sem a qual a vida é nada").

Mas que palavra, porventura, a faria retratada?

Não confessarei nem sob tortura!

Ela continuará misteriosa e irrevelada;
ora maliciosa, ora cândida:
meu proparoxítono cantado Ângela.
786

Aging

When the shadow of age comes
only helplessness remains.
We sing our songs for no one.
We give our cries in vain.

For the best of our days are gone
and the rest of our hopes are dead.
Now the space is still to come
and the time stands not ahead.

Friends no more than names in stones.
Tears of widows upon their graves.
Wives living their lives alone
Left in freedom as life slaves.

While I'm passing my days at home,
writing letters I never send,
I say to myself, "now it's done!"
It's too late to be the end!
736

Necrológio do Amor Contido

Desprende-se de mim o fogo-fátuo
do verso que se afogou na razão;
do verbo que se embotou em metáfora
morrendo no peito e evitando a mão.

Desprende-se de mim o fogo-fátuo
de todos os versos que eu enterrei.
Evolam-se restos mortalizados
de todas as rimas que eu não ousei.

Como fantasmas, arrastam correntes
e uivam de sede e uivam de fome
os ectoplasmas em nada contentes.

A fome que bebe, a sede que come
devoram-me e sugam-me lentamente
- fogos que queimam e escrevem teu nome.
801

Dissecando a Vida

Entre a adaga e a espada
entra-me a morte na anima.
Corta, navalha-me a carne
com crueldade de lâmina.

A faca-morte me ampara
com seus assentos de gumes.
Quanto mais chega, mais vara
as carnes menos imunes.

Não cicatriza a ferida
- o aço exagera no corte:
é a dor que simula a vida
e a vida que amola a morte.
758

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